Música

Guiomar Novaes

Guiomar Novaes representou a mulher brasileira no exterior. Sua participação no cenário musical internacional foi tão importante quanto a de Villa-Lobos e Carlos Gomes.

Guiomar Novaes

Introdução

Guiomar Novaes foi uma pianista sanjoanense de projeção internacional. Sua trajetória parte da infância em São João da Boa Vista e chega aos grandes palcos, aos circuitos de concerto e à memória musical brasileira.

Sua presença pública reuniu virtuosismo, disciplina e circulação internacional sem apagar o vínculo com a cidade natal. A memória de Guiomar permanece ligada ao piano, ao teatro, à formação musical e ao reconhecimento de uma artista brasileira no mundo.

Origem

Guiomar Novaes representou a mulher brasileira no exterior. Sua participação no cenário musical internacional foi tão importante quanto a de Villa-Lobos e Carlos Gomes. Nasceu em 28 de fevereiro de 1894, na Rua Santo Antônio, 343 (atual Teófilo de Andrade) em São João da Boa Vista-SP, Brasil. Filha de Manoel José da Cruz Novaes e Anna de Carvalho Menezes Novaes. Era a décima sétima de dezenove crianças. A família de Guiomar era composta por vinte e uma pessoas.

Dos dezenove filhos do casal Novaes oito morreram e foram criados onze: Maria Amélia, Jorge, Alice, Anthenora, Tereza, Anália, América, Accacio, Guiomar, Gastão e Aurora. Seu pai, mais conhecido como Manoelzinho, nasceu em Vassouras-RJ, em 1849. Era Major e negociava com café. Seus negócios da cidade de São Paulo foram transferidos para São João da Boa Vista na última década do século XIX. Sua mãe nasceu em Areias.

O casal Novaes deixou São Paulo para visitar os pais e o irmão de Dona Anna, mãe de Guiomar, porém as férias se estenderam e permaneceram mais tempo na cidade, dando tempo de nascer a pequenina Guiomar e permaneceram na cidade até que ela completasse seis anos (1902). Guiomar Novaes começou a tocar aos 4 anos. Quando "descobriu" o piano, uma força e um encantamento a fazia tocar impulsivamente. Era uma criança musical e quando ouvia outras crianças no jardim da infância cantarem, logo ia para o piano e tocava o que acabara de ouvir.

O pai arranjou um professor para a filha prodigiosa. 1902. Sua família muda-se para São Paulo 1909. Guiomar vai estudar em Paris Com 13 anos, Guiomar Novaes já era conhecida em São Paulo como uma pianista muito inspirada e competente. Isso chamou a atenção dos oficiais do governo brasileiro; recebeu deles uma bolsa por 4 anos de estudos no Conservatório de Paris. Candidatos vieram do mundo inteiro para as duas únicas vagas de admissão e reservadas a estrangeiros no Conservatório de Paris.

No primeiro exame, tocou o Carnaval de Schumann e a terceira Balada de Chopin. Presidia o júri, Debussy, Fauré e Moszkowski. A interpretação e a técnica demonstrada assombraram os juízes que tiveram pejo em pedir a menina de 13 anos no exame seguinte, repetisse a Balada. O veredicto foi unânime e ante tais examinadores arrebatou o primeiro prêmio!

Por dois anos seguidos, ficou Guiomar Novaes entregue à tutela de Isidore Philipp, (1863-1958) eminente pianista e pedagogo francês e este asseverava expressamente que nada tivera a lhe ensinar: ele, o professor, é que dela tinha aprendido algo da arte de Chiaffarelli que levara pronta do Brasil. 20 de outubro de 1909 Concerto de Despedida em São Paulo 1911.

Inicia uma turnê pela Europa A própria Guiomar contou várias vezes um incidente que com o professor Isidore Philipp: Executava então uma peça de Chopin, realmente bem: no entanto, deixava margem a sugestões interpretativas Philipp explicou-me suas ideias. Compreendo- disse a ele e toquei exatamente como antes. Pacientemente, Philipp tudo explicou-me novamente. Compreendo - repeti. Novamente toquei a peça, exatamente como antes.

Após uma terceira repetição desse episódio, Philipp desistiu, completamente convencido que a minha execução a melhor, contava ela, rindo de sua ousadia. No término de seu segundo ano de estudo com Isidore Philipp foi agraciada novamente com um Premier Prix du Conservatoire. ( Essa medalha e diploma encontram-se no Museu Histórico

De São João da Boa Vista). Ao chegar na França, Guiomar foi convidada para ir à casa de uma compatriota e quando viu a anfitriã ficou surpresa! Era a Princesa Isabel. A princesa ficou emocionada quando ouviu, por Guiomar Novaes, "A Grande de Fantasia Triunfal" sobre o Hino Nacional Brasileiro de Gottschalk. Em 1911, Guiomar faz um recital e arrebata público e críticos. Em 5 de julho encerra o curso no conservatório de Paris. Ela conquista o primeiro prêmio com a execução da 2ª Balada de Chopin.

Em 1913, a pianista parte para Milão e em 11 de fevereiro dá uma audição particular no Salão Real do Conservatório. Crítica e público italianos aplaudem Guiomar Novaes. Foi à Suíça e é aplaudida por 3.000 pessoas numa apresentação triunfal em Genebra. Vai ainda para Berlin e Munique na Alemanha. O início da primeira guerra mundial, em 1914, interrompeu sua carreira na Europa e ela voltou para São Paulo no Brasil. 1914.

Guiomar retorna à sua terra natal São João da Boa Vista No dia 21 de fevereiro de 1914, portando uma gloriosa bagagem, Guiomar Novaes reaparece na sua terra, São João da Boa Vista. Não tinha sido a vinda de Guiomar a São João devidamente divulgada e a cidade deixou de promover uma recepção popular, como era de se esperar.

Por iniciativa do jornal O MUNICÍPIO, reuniu-se no dia seguinte no jardim público um grande contingente de pessoas que, precedidas pela banda de música do Maestro Aquilino e sob o alvoroço contagiante provocado pelos rojões que espocavam no alto, caminharam para avenida D. Gertrudes, até a residência do ativo e sempre festeiro João Osório (atual sede do Palmeiras) onde hospedava a concertista. Foi uma vibrante manifestação pública à nossa mais famosa conterrânea.

Guiomar, falando sobre sua cidade natal disse: " Assim como o tempo da infância é o melhor tempo de nossa vida, a cidade em que nascemos, é o mais belo recanto do mundo. ". Nessa mesma noite, no Centro Recreativo Sanjoanense, ao lado da casa onde ela havia nascido, teve o lugar o Concerto de Guiomar Novaes, realizado em benefício das obras da Igreja Matriz de São João. Narizinho Monteiro Lobato cria a personagem Narizinho em homenagem a Guiomar Novaes sua vizinha.

Com seis anos sua família mudou para São Paulo e ela começou a estudar piano com Luigi Chiaffarelli, um italiano que foi aluno de Busoni. Ele foi responsável por seu tom incomparável, seu legato sem emenda, sua mão esquerda que cantava frases esconhecidas e seu pedal que sustentavam o som como se este estivesse "flutuando" no ar. Aos 7 anos ela compôs uma pura e modesta valsa. Aos 8 anos, ela não só tocava profissionalmente como era a grande sensação nas salas de concerto de São Paulo.

Como aluna de Chiaffarelli, apresentou-se a partir de 1902, ano que marca a estreia pública de Guiomar Novaes e quando o jornal "O Estado de São Paulo" publicou pela primeira vez seu nome. A partir dessa data sua estrela resplandecia a cada apresentação, revelando-se ao público e levando o nome do Brasil para os maiores palcos do mundo. " Valsa (Jardim de Infância)" composta por Guiomar Novaes aos 9 anos, interpretada pelo pianista José Henrique Vargas no programa "Piano & Movimento" veiculado pela UnB TV em 2007.

Mundo

1915. Guiomar é convidada para tocar nos EUA Em 1915, quando tinha 17 anos. recebeu um convite ir tocar nos EUA e lá estreou no Salão Aeolian em Nova York. Em sua estreia, vieram pessoas famosas, ilustres grandes personalidades de Washington para assistir o recital. Entre eles, estava Santos Dumont, que aplaudia Guiomar Novaes emocionado. Em 1921, Guiomar para os Estados Unidos. No dia 8 de janeiro apresenta-se no Carnegie Hall e executa "O Concerto em Sol Maior" de Beethoven.

O público, por quinze minutos, fica de pé aclamando-a e aplaudindo-a em uma das maiores manifestações já tidas na América. Após aquele concerto, continuou a tocar nos EUA por 57 anos seguidos. Seu último recital em solo americano foi em 1972. 1922. Guiomar Novaes toca na Semana de Arte Moderna Em 1922, faz um recital na Semana da Arte Moderna, tocando "A Dança dos Gnomos", de Lizt, para um público que se espremia num teatro repleto de amantes da boa música. Segunda-feira, 13 de fevereiro. O primeiro festival é inaugurado às 20h30.

O tempo nublado e quente irrita as pessoas vestidas de colarinho alto, terno e colete de casimiras e lãs inglesas, modelos copiados de Poiret nos ateliês da cidade, traindo as influências chinesas da moda parisiense. Oswald de Andrade lê alguns poemas com o papel tremendo nas mãos, pois desde que levantou o teatro irrompe em vaias. A cada palavra que Oswald diz, a vaia. Ele acaba depressa e dá lugar a Sergio Milliet. Ele lê em francês alguns versos, acompanhado por guinchos, uivos e ganidos.

Há calmaria quando Yvonne Daumerie dança e Guiomar Novaes toca piano. No intervalo, Mário de Andrade é apupado e xingado ao falar sobre estética no saguão. A segunda parte é dedicada à música. Três peças de Villa-Lobos são executadas em meio a vaias. O autor, de casaca e chinelo, desperta as iras do público. A violinista Paulina d'Ambrósio chora no palco. A execução de uma peça do compositor francês em que a "Marcha Fúnebre" de Chopin era satirizada, acabou por provocar desentendimentos entre os músicos integrantes da semana.

Um nota escrita por Guiomar Novaes, publicada no "O Estado de S. Paulo", revela a discordância da pianista com relação ao tom de deboche assumido pelo festival, bem como sua total desvinculação com os propósitos do evento: "Em virtude do caráter bastante exclusivista e intolerante que assumiu a primeira festa de arte moderna, realizada na noite de 13 do corrente, no Teatro Municipal, em relação às demais escolas de música das quais sou intérprete e admiradora, não posso deixar de declarar aqui meu desacordo com esse modo de pensar.

Senti-me sinceramente contristada com a pública exibição de peças satíricas à música de Chopin." 1922. Casa com Octávio Pinto Desde 1909 que Octávio Pinto, colega de escola era seu admirador. Octávio mantinha guardado todos os recortes de jornais que notificavam o brilhante sucesso de Guiomar na Europa. Em 1915, Guiomar Novaes parte para os Estados Unidos. Voltando à saudosa pátria em julho de 1920, mesmo sendo inverno, foi passar alguns dias no litoral.

Octávio informado, foi ao seu encontro, e aqueles dois corações apaixonados se encontraram nas areias da praia do mar. Precisando refletir e se concentrar para preparar uma nova programação, convidou algumas de suas irmãs para irem a Campos do Jordão. Octávio sabendo da viagem, aproveitou a oportunidade para declarar o seu amor, mas, desta vez preferiu as letras ao invés de palavras. Enviou-lhe uma carta de amor. Casou-se em 8 de dezembro de 1922.

Esposa dedicada e verdadeira amante apaixonada, nunca se sentiu oprimida ou em condição de subalterna frente ao marido, mas com grande consideração e sabedoria, aceitou que Octávio fosse também o seu grande incentivador, seu empresário e conselheiro. Engenheiro civil, arquiteto e também compositor, foi o escolhido por Guiomar Novaes para ser seu companheiro, até que a morte os separasse. Após 28 anos de vida em comum, Otávio faleceu na madrugada de 30 de outubro de 1950, de problemas cardíacos. 1923.

Nasce sua filha Anna Maria Uma grande emoção para o casal foi o nascimento da tão esperada Anna Maria, em 22 de setembro de 1923, às 17h. Saudável e muito parecida com a mãe. Futuramente viria outra alegria do casal, o filho Luis Octávio. 1929 e 1932- Recitais no Teatro Municipal 1937. Recital em Manaus em 27 de fevereiro 1946. Guiomar retorna à São João da Boa Vista Em 1946, Guiomar Novaes deu novo recital em sua terra natal, dessa vez em benefício da Casa da Criança.

O esperado sucesso coroou a apresentação de um seleto repertório no tradicional Teatro Municipal. No coquetel oferecido no dia seguinte no Centro Recreativo Sanjoanense em nome da Casa da Criança, constituíram homenagens que expressavam com clareza a sinceridade, a alegria e o orgulho da nossa gente pelos triunfos de uma concertista "da terra" nos mais renomados de concerto do mundo. A casa que Guiomar nasceu ficava nesta esquina. Foi construída outra em seu lugar.

Guiomar Novaes costumava estudar pela manhã e no escuro, pois achava que favorecia a concentração. Quando se cansava caminhava pelo jardim que amava e se inspirava na natureza. Depois voltava ao trabalho. Dizia: "Tocar piano nunca foi um esforço para mim. Há pessoas que estudam seis, sete ou oito horas por dia. Acho-as admiráveis. Talvez tenham muito mais o que preparar, é natural. Eu nunca estudei tanto tempo; não tenho paciência. Gosto de tocar uma ou uma hora e meia e depois olhar para o céu. Mais tarde volto ao trabalho".

Guiomar Novaes toca Fantasia sobre o Hino Nacional Brasileiro, Opus 69, de Louis Moreau Gottschalk Uma visita à Guiomar Novais “Há muitos anos, já em fim de carreira, Guiomar Novais deu um recital de piano no Teatro Municipal de São Paulo.

Logo que li o anúncio no jornal, resolvi comparecer ao evento, não só para ouvi-la - o que já seria bastante compensador - mas também para conhecê-la pessoalmente, pois desde criança estava familiarizado com sua fisionomia, bonita e simpática, em um porta-retrato que ficava em cima do nosso piano, na casa velha de São João, e cuja fotografia continha afetuosa dedicatória da artista, endereçada a meu pai.

E lá fui eu, tranquilo quanto à excelência da música que deveria me encantar - o que realmente aconteceu - mas um tanto inseguro quanto ao êxito do segundo motivo da minha ida - o encontro. Afinal, não seria pretensão minha - querer cumprimentá-la pessoalmente? Figura artística de renome internacional, ela teria uma legião de admiradores mais credenciados que desejariam fazer o mesmo.

Assim, após o extraordinário sucesso da recital, com palmas e "bravos" intermináveis e inúmeras cestas e corbeilles de flores encaminhadas ao palco, quando o pano baixou, dirigi-me, entre apreensivo e esperançoso, ao camarim, onde a grande artista recebia os cumprimentos. Já havia uma fila, mas quando chegou a minha vez e declinei nome e identidade sanjoanense, a reação dela foi simplesmente surpreendente, abriu um largo sorriso e disse: "Filho do Dr. Theophilo, da minha São João, que prazer, que saudade.

Vá me visitar, quero lhe mostrar minha casa." Coisas assim. Ainda havia pessoas na fila, beijei-lhe as mãos e saí encantado! Pouco depois, Guiomar aquiesceu em dar um recital em São João, cuja renda reverteria em benefício da Casa da Criança. Solicitado a colaborar nos preparativos para o evento (dia e hora, condução, hospedagem, etc.), lembrei-me do "convite" do Teatro Municipal, telefonei e às 16 horas em ponto lá estava, na rua Pará, bairro de Higienópolis, na casa de Guiomar Novais.

Recebeu-me com muito carinho, mostrou-me a casa, os diversos pianos, um dos quais todo marchetado, muito bonito, as muitas obras de arte, os álbuns, as fotos, as lembranças das tournées pelo mundo afora, Estados Unidos, Canadá, Europa. Falou-me de seu amor e da sua saudade por São João da Boa Vista. Enfim, uma mulher que atingiu o ápice da fama e não perdeu a cordialidade. Assim, mais uma vez, despedi-me encantado.

O recital de piano de Guiomar Novais, em benefício da Casa da Criança, realizou-se no Centro Recreativo, e foi um sucesso extraordinário. Casa cheia e gente de toda região. Os aplausos explodiram quando ela terminou, como quase sempre, com a peça que lhe deu notoriedade no Rio de Janeiro em 1908: a Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Louis Moreau Gottschalk. Guiomar Novais.

Acho que aquele porta-retrato da minha infância ainda continua em cima do piano na nossa casa velha, na esquina da Rua Theophilo de Andrade com Rua São João, onde nos primeiros albores do século XX meu pai comprou a casa do seu amigo e pai de Guiomar, que tinha uns cinco ou seis anos. A casa foi demolida e no local edificou-se a de nossa família, que ainda lá está.” Teofilo Ribeiro de Andrade Filho membro da Academia de Letras de São João da Boa Vista

Reconhecimento

1963. Guiomar Novaes na ONU Em 1963, Guiomar Novaes é convidada especial para representar a América Latina na comemoração do 15º aniversário da Declaração dos Direitos do Homem, promovida pela ONU (Organização das Nações Unidas) em Nova York. 1967. Guiomar a tocar em Londres Após 42 anos sem tocar em Londres, foi ovacionada por quinze minutos ininterruptos, por onze mil pessoas que exigiram quatro bis, no recital de inauguração do Queen Elizabeth Hall.

Casa da Rua Ceará e o Chevrolet 31 presente da Ford Comendas Guiomar Novaes recebeu do governo francês a Comenda Légion d`Honneur em 1939 e do governo brasileiro, a Ordem do Cruzeiro do Sul em 1956, entre outras. Momento de inspiração Quando Guiomar Novaes revisitou Londres, em 1925, um jornal explicou: “Buscar descrever o que foi o recital da pianista brasileira seria a mesma coisa que tentar definir para um cego o que é a luz do sol”.

Guiomar Novaes possuía a virtude particular de transmutar as sonoridades do piano, conferindo-lhes, como através de ilusionismo vibratório, timbres que podiam reproduzir os caracteres de inumeráveis instrumentos e corpos sonoros. Os de órgão em Bach; os de flauta em Gluck; os de flautins e tambores na marcha alta turca de Beethoven/Rubinstein; os de uma orquestra acolá; no Capricho de Saint-Saës/Gluck, os de celesta, os de pequenos sinos, os de caixinha de música.

Era capaz de extrair efeitos "miraculosos": os sons de certas notas, de certos blocos, avolumam-se depois de serem eles atacados; crescem após serem feridas as cordas! É precisamente o que se observa com nitidez no acorde que abre o concerto nº 4 de Beethoven, nesta gravação: o som, apesar de murmurante, se encorpa com o viço e vigor, depois de serem tocadas as notas.

A espetacular Cadenza do Primeiro Movimento deste Concerto, a par das demais peças de Bach, Gluck, Saint-Saës, Beethoven/Rubinstein, é uma execução, que, exemplifica melhor e mais completamente aqueles predicados, tanto os de escola quanto os de talento particular.

Fenomenal talento, de resto, que ela possuía para sublimar a natureza bruta do processo de produção do som no piano, transfigurando-o, bem como para subjugar as forças antagônicas que consistem o Ritmo, jogando com elas, flexível mais equilibrante, e com isto tudo infundido no ouvinte um êxtase que é como um bafejo do absoluto. (Arnaldo Senise) A arte de interpretar música brasileira A arte tem muito mais amplitude e o compositor brasileiro que tem a sua personalidade, que cria música pura, não deixa de fazer uma arte brasileira, embora prescindindo do que lhe oferece o populário nacional.

Sua brasilidade sempre se fez presente onde quer que estivesse. Não faltaram convites e mesmo insistentes para que se tornasse cidadã norte-americana, mercê do prestígio que goza na grande nação do norte. Acenaram-lhe inclusive com os impostos altíssimos que é obrigada a pagar, na qualidade de estrangeira, mas teima em conservar sua nacionalidade brasileira.

Sua maneira de interpretar, sua forma elegante de tocar ante as mais sofisticadas plateias do mundo inteiro, encontrará a mesma simplicidade desta "Grande Dama do Teclado", ao fazer soar no piano, as vozes de nossos autores, ombreando-os àqueles nos quais Guiomar Novaes se consagrou.

Brasileira na escolha de repertório, brasileira na forma de interpretar, brasileira ainda por fazer um disco de autores exclusivamente nacionais dentro do Brasil, com exceção, é claro de Louis Moreau, GOTTSCHALK, (1829 - 1869), norte-americano que morreu no Rio de Janeiro, apaixonado de nossa terra e nossa gente a qual homenageou da forma que só um artista poderia faze-lo compondo a "Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro", e que Guiomar Novaes se encarregou de forma soberba, de fazer conhecido em todo mundo! (Carlos Gonzáles) Guiomar Novaes toca Sonata em B menor de Chopin—Scherzo e Lento

Memória

Com sua mãe e companheira Anna Novaes Anna de Carvalho Menezes Novaes, sua mãe, foi a principal figura na formação da personalidade musical de Guiomar Novaes. Anna era pianista e compositora, uma figura religiosa e culta que acompanhou, incentivou e abençoou a carreira da filha enquanto pôde.

O respeito e o sucesso conquistados em todo o mundo transformaram a pianista numa das mais adoráveis representantes da cultura do país, a ponto de receber uma carta do presidente Eisenhower ressaltando o quanto ela contribuíra para estreitar as relações culturais entre o Brasil e os Estados Unidos. Ela promovia o país e os artistas brasileiros, como Bidu Sayão e Villa-Lobos.

Carta de Guiomar Novaes para o Conservatório Musical criado pela Profª Mirian Pipano e Dr. Octávio Pereira Leite em 1953 em São João da Boa Vista Não esqueceu-se da juventude de seu país 1978. Guiomar é homenageada em sua cidade natal com uma Semana com seu nome A Semana Guiomar Novaes criada em 1977, vai muito além de uma homenagem a esta pianista. Trata-se de resgatar a nossa memória cultural e mostrar os nossos melhores músicos e compositores. Desta forma, entra-se no espírito da nossa pianista: o de incentivar novos talentos.

A Semana Guiomar Novaes é realizada em São João da Boa Vista, cidade natal da pianista, interior do Estado, numa parceria entre a Secretaria de Estado da Cultura e a prefeitura. O evento "Semana Guiomar Novaes" se tornou ao longo do tempo referência e tradição artística e musical e é considerado o segundo maior espetáculo cultural do Estado de Estado de São Paulo, ficando atrás apenas do Festival de Inverno de Campos do Jordão. 1979.

Morre Guiomar Novaes aos 85 anos de idade Na noite de 7 de março de 1979, Guiomar faleceu em sua residência na rua Padre João Manoel 1178, em São Paulo, vítima de enfarto do miocárdio. Seu velório foi na Academia Paulista de Letras. Depois de uma vida inteira dedicada à música, ela foi enterrada ao som da Marcha Fúnebre de Beethoven, executada pela Orquestra Sinfônica do Estado, sob a regência do maestro Eleazar de Carvalho. Foi sepultada em 8 de março no Cemitério da Consolação. Foi uma das mais notáveis pianistas de todos os tempos.

Sua maneira de tocar foi inigualável. Suas escalas e seus trinados ficarão para sempre. Guiomar Novaes soube aproveitar as circunstâncias favoráveis que se apresentaram, se tornando protagonista de uma ventura singular e apaixonante - sua própria vida. As mãos de Guiomar Novaes Pousadas sobre a cidade! Sobre teclados noturnos! Sobre teclados noturnos! E da cidade elas partem Dedos-pássaros viajeiros, Mãos encantadas formando A geografia do som, Anjos de amor percorrendo O tempo dos corações, Momentos de eternidade Iluminando caminhos!

Ave Guiomar som e luz Em vosso gesto-presença, Tocai-nos com vossa graça, Guardai-nos em vossa arte, Transfigurai-nos em música Vivida por vosso dom, Na glória tão generosa Que espalhastes pelo mundo! Nesta noite, neste palco, No altiplano da Avenida, A palavra dos amigos, A alma de nosso povo, E o coração da cidade Marcado pelo tempo; Ave Guiomar tão paulista Ave Guiomar do Brasil! Paulo Bonfim Pianista Nelson Freire fala sobre a mestra Guiomar Novaes que toca Gluck S. Paulo, Julho 10, 1953 457, rua Ceará Exmo Snr.

Dr. Octávio Pereira Leite, Saudações- Foi com a mais viva emoção que tomei conhecimento dos generosos propósitos do grupo de pessoas de boa vontade que, com a cooperação valiosa do Snr. Maestro Ziggiatti e de V. Excia., desejam dotar S. João da Boa Vista – a minha querida terra natal – com um Conservatório Musical.

A razão desse empreendimento é perfeitamente justificável e plausível como eu desejava fosse também a ideia apresentada de dar-lhe o meu nome que, infelizmente, não tem méritos para receber tão grande honra – pois não sou artista criador, como tantos que ilustram a literatura musical e sim uma modesta interprete que sempre contou com a benevolência dos críticos, do público, de meus patrícios e do carinho de meus conterrâneos sanjoanenses.

Tamanhas são as suas delicadezas e atenções que neste momento me obrigam a resignar-me ante esta homenagem que generosamente me prestam, embora reconhecendo que ela ultrapassa, em muito, os merecimentos que a bondade de seus corações insistem em me atribuir. Imensamente reconhecida por tão alta dignidade a que me elevam, aproveito o ensejo para afirmar a minha estima aos meus conterrâneos e os mais sinceros votos de felicidade e prosperidade a essa magnífica obra. Respeitosamente Guiomar Novaes Pinto

Cronologia

  1. Nasce em São João da Boa Vista, em 28 de fevereiro.

  2. Começa a se apresentar nos saraus musicais organizados por Luigi Chiaffarelli.

  3. Parte para a Europa e disputa uma vaga no Conservatório de Paris.

  4. Conquista o primeiro prêmio do Conservatório de Paris com a 2ª Balada de Chopin.

  5. Estreia oficialmente no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e retorna à terra natal.

  6. Apresenta-se em Nova York e inicia uma presença internacional decisiva.

  7. Participa da Semana de Arte Moderna, em São Paulo.

  8. Morre em São Paulo, depois de uma carreira consagrada no Brasil e no exterior.

Texto original completo

1894 Guiomar Novaes nasce em 28 de fevereiro na cidade de São João da Boa Vista-SP. 1902 Como aluna de Chiaffarelli, apresentou-se a partir de 1902 até 1909, quando foi para Paris na série de programas Saraus Musicais, organizados pelo mestre. 1905 Tietê recebe a menina Guiomar e se curvam diante a execução da 10a Rapsódia Húngara, de Liszt, dos Arabescos, de Schumann e do Noturno opus 55, nº 1.

1906 Tocou em São Paulo durante o ano todo a "Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro" que fez com que o nosso país ficasse mais conhecido no exterior. Em 10 de dezembro apresentou o mais longo programa até então. 1907 A imprensa paulistana exalta Guiomar Novaes e ela colabora em vários concertos de cantores e violinistas além dos Saraus Artísticos organizados pelo Chiaffarelli. 1908 Continua o sucesso em São Paulo e conquista o público carioca.

1909 Alunas oferecem um sarau musical para homenagear o professor Chiaffarelli em seu aniversário. Em 26 de outubro Guiomar parte para a Europa a fim de completar seus estudos no conservatório de Paris. No Conservatório de Paris havia 331 candidatos para 12 vagas. Guiomar realizou a primeira prova em 18 de novembro e tocou para uma comissão julgadora formada por célebres músicos como: Claude Debussy, Moszckowski, Widor e Lazare-Lévy. Recebeu um elogio extraordinário.

1910 A imprensa francesa começa a divulgar seu nome e as críticas maravilhadas de grandes músicos da época. 1911 Guiomar faz um recital e arrebata público e críticos. Em 5 de julho encerra o curso no conservatório de Paris. Ela conquista o primeiro prêmio com a execução da 2a Balada de Chopin. 1912 Em 11 de fevereiro Guiomar participa de uma audição em Paris onde executou o Concerto em Ré Menor de Mozart.

Em maio foi para Londres onde firmou-se no cenário artístico rapidamente como uma intérprete genial e ímpar, realizando vários concertos. 1913 A pianista parte para Milão e em 11 de fevereiro dá uma audição particular no Salão Real do Conservatório. Crítica e público italianos aplaudem Guiomar Novaes. Foi à Suíça e é aplaudida por 3.000 pessoas numa apresentação triunfal em Genebra. Vai ainda para Berlin e Munique na Alemanha. Depois retorna ao Brasil. 1914 Em 25 de junho acontece a sua estreia oficial no Municipal do Rio de Janeiro.

1914 Retorna à sua terra natal São João da Boa Vista. 1915 Guiomar recebe uma carta de um empresário inglês chamando-a para apresentar-se em Londres. Em virtude da situação europeia na época ela recusa o convite e continua a apresentar-se no Brasil. No fim do ano estreia em Nova Iorque. 1916 Estréia em Boston em 28 de fevereiro. Em 6 de junho faz sua estreia com orquestra no Festival de Norfolk. Em 18 de julho Guiomar, acompanhada pela Civic Orchestral Society foi aplaudida por um público de 6.000 pessoas no Madison Square Garden.

1917/1918 Em pleno clima de guerra Guiomar faz uma temporada musical e explode definitivamente no cenário mundial e passa a ser reconhecida como um grande gênio pianístico, culminando com uma grande apresentação no Carnegie Hall acompanhada pela Filarmônica de Nova Iorque. A partir daí Guiomar Novaes aperfeiçoa cada vez mais sua técnica e consolida ainda mais sua carreira, tornando-se inclusive uma grande divulgadora da obra de Heitor Villa-Lobos no exterior.

1922 Participa da polêmica semana de 1922, realizada no Teatro Municipal de São Paulo. 1922 Casou-se com o engenheiro e arquiteto Octávio Pinto. 1923 Nasce sua filha Anna Maria, pouco depois nasceu Luis Octávio. 1946 Apresenta-se em um recital beneficente em sua terra natal São João da Boa Vista. 1963 É convidada especial da comemoração dos Direitos Humanos da ONU, em Nova York.

1967 Após 42 anos sem tocar em Londres, foi ovacionada por quinze minutos ininterruptos, por onze mil pessoas que exigiram quatro bis, no recital de inauguração do Teatro Queen Elizabeth. 1974 Retorna à São João da Boa Vista para outro recital beneficente em prol do orfanato Casa das Crianças. 1978 É homenageada em São João da Boa Vista quando foi criada a Semana Guiomar Novaes. 1979 Morre Guiomar Novaes na noite de 7 de março. Guiomar toca Nocturno em A - Op 32 - nº 2 de Chopin

Gravações

As gravações funcionam como extensão da presença de Guiomar Novaes: preservam repertório, interpretação e circulação internacional.

  • Gravações RCA registros que fixaram parte importante de sua interpretação pianística.
  • Beethoven concertos e repertório clássico associados à maturidade da artista.
  • Chopin compositor central na recepção crítica de sua sonoridade.
  • Schumann repertório recorrente desde a formação e os primeiros recitais.
  • Villa-Lobos ponte entre a pianista e a presença brasileira no repertório de concerto.
Discografia complementar
  • Gravações, selos e repertórios ajudam a preservar a dimensão documental da carreira.
  • A discografia completa permanece como referência de consulta para quem deseja seguir além da leitura biográfica.
Texto original completo

Gravações e registros preservam parte da presença internacional de Guiomar Novaes.