Cidade
São João da Boa Vista
Lugares que atravessam as biografias: teatro, ferrovia, escolas, museus, ruas, cinema e cemitério.
Os percursos abaixo reúnem pontos da cidade que aparecem nos textos do acervo.
Paisagem
A cidade dos crepúsculos
Desde sempre São João se apresenta como a “Cidade dos Crepúsculos Maravilhosos”. Está encravada nas colinas que antecedem a Serra da Mantiqueira, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, no caminho antigo entre a capital paulista e as águas de Poços de Caldas. Os morros arredondados, cobertos de mata escura, azulam-se entre as nuvens ao fim da tarde; no inverno, o céu noturno fica límpido e carregado de estrelas. É dessa paisagem que vêm o apelido e boa parte das histórias reunidas neste acervo.
Hoje a cidade tem cerca de 96 mil habitantes e cresceu muito além do núcleo antigo, mas guarda os lugares que atravessam as biografias: a Praça da Catedral, a Fonte Luminosa, a avenida Dona Gertrudes, o Cristo no alto da cidade, o Theatro Municipal, a antiga estação, os colégios centenários e o cemitério. São esses lugares — e não apenas as datas — que dão chão às mulheres e aos personagens deste site.
Cultura
O Theatro Municipal e seu palco centenário
A ideia do teatro nasceu em 1913, quando 113 acionistas fundaram a Companhia Teatral Sanjoanense para erguer, no coração da cidade, uma casa à altura de sua vida cultural. Projetado pelo arquiteto italiano J. Pucci e construído por Antonio Lanzac, o Theatro Municipal foi inaugurado em 8 de novembro de 1914, com a peça Uma Causa Célebre, pela Companhia Santos Silva. Não era um teatro modesto: tinha plateia para 480 pessoas, galeria para mais quinhentas e fosso para uma orquestra de quase quarenta músicos.
Por seu palco passaram companhias líricas e dramáticas que percorriam o interior, atraídas em parte pelo movimento das águas termais de Águas da Prata e Poços de Caldas. Em junho de 1930, o conjunto artístico do maestro Villa-Lobos ali se apresentou; e a mais célebre das sanjoanenses, a pianista Guiomar Novaes, tocou para seus conterrâneos em 1946. Por muito tempo, foi o único teatro de porte no interior paulista.
A partir de 1937 o prédio chegou a funcionar como cinema, voltou ao palco em 1945 e, nas décadas seguintes, foi perdendo o esplendor antigo. O caminho de volta começou com o tombamento estadual pelo CONDEPHAAT, em 19 de janeiro de 1987, hoje somado ao tombamento municipal pelo CONDEPHIC. Restaurado, o Theatro reabriu em 2002 e continua sendo a única casa de espetáculos de São João, abrigando música, dança e teatro e passando, nos últimos anos, por novas obras de preservação.
Chegadas
Da ferrovia à Estação das Artes
A chegada dos trilhos da Companhia Mogiana mudou São João. O Ramal de Caldas, concedido à Mogiana em 1883 e cuja inauguração, em outubro de 1886, chegou a ser anunciada com a presença do imperador D. Pedro II, ligou a cidade ao comércio do café e ao mundo. A estação foi obra do empreiteiro Nicolau Rehder, o mesmo que ergueu a de Poços de Caldas. Por muitas décadas ela foi o portal de entrada e saída: a chegada de figuras ilustres tinha endereço certo no Largo da Estação, com banda de música e uma multidão de curiosos e crianças.
O prédio original, da antiga Estação Engenheiro Mendes, envelheceu, e em 1925 a imprensa local já reclamava que ele “enfeiava a cidade”. A nova estação foi erguida no mesmo lugar, em estilo neoclássico então em voga para edifícios públicos, e concluída em 1936.
Desativada como ferrovia, a estação poderia ter seguido o destino de tantas outras da Mogiana e virado ruína. Em vez disso, foi restaurada com recursos estaduais e entregue, em maio de 2019, como Estação das Artes João Roberto Simões. Hoje abriga o Departamento de Turismo, o Espaço Cultural Fernando Arrigucci, a Academia de Letras de São João da Boa Vista, o Teatro Professor Antônio Cândido, de 165 lugares, e a Escola Municipal de Iniciação Musical Geraldo Filme. O antigo portal de chegada tornou-se, ele próprio, um centro de cultura.
Instituições
Escolas, museus e guarda da memória
Boa parte da memória de São João está guardada em algumas instituições — e quase todas levam o nome de pessoas que também atravessam estas biografias.
Centro Cultural Pagu
Criado em 1989, na Rua Benedito Araújo, leva o nome da escritora sanjoanense Patrícia Rehder Galvão, a Pagu. Por muitos anos abrigou a Biblioteca Municipal Jaçanã Altair e a Casa do Artesão. Depois de uma reforma, a biblioteca e seu acervo de cerca de 33 mil livros transferiram-se para a nova Cidade das Artes, e o casarão passou a reunir a Casa do Artesão, uma sala de leitura, o Arquivo Municipal Matildes Rezende Lopes Salomão e — fechando o círculo — o Memorial Pagu.
Museu Histórico “Dr. Armando de Salles Oliveira”
Inaugurado em 1970, ocupa um casarão erguido no século XIX pela família Oliveira. Quem o preservou foi Maria Inês da Silva Oliveira, a Dona Tita (1887–1969): conservou os móveis e pertences dos pais e, viajando pela Europa, pela Ásia e pelo Brasil, voltava da estação da Mogiana com malas cheias de porcelanas — algumas francesas —, cristais, leques, moedas e miudezas. Por testamento, doou à cidade o prédio mobiliado e toda a coleção.
Museu de Arte Sacra da Diocese
Fundado em 1987 por Dom Tomás Vaquero e pelo engenheiro João Batista Merlin, ocupa o térreo do Palácio Episcopal, na Praça Roque Fiori. Reúne cerca de dez mil peças dos séculos XVIII a XX: imagens em madeira, paramentos bordados a ouro e prata, objetos litúrgicos, pinturas e mobiliário.
Grupo Escolar “Cel. Joaquim José”
Primeiro estabelecimento de ensino oficial da cidade, funciona desde 1905 em prédio próprio, diante da praça de mesmo nome — por muito tempo o primeiro símbolo cívico-republicano de São João. A escola centenária guarda um Memorial Escolar com peças da história da educação local e chegou a servir de quartel-general durante a Revolução de 1932.
A esses marcos somam-se outros lembrados no acervo: o antigo prédio da Câmara e Cadeia, de 1887, hoje ocupado pelo Senac; o Palácio Episcopal; e o Cristo que, do alto, descortina a cidade.
Arte e memória
Fernando Furlanetto e o cemitério como museu aberto
O Cemitério São João Batista guarda mais de trezentos túmulos, jazigos e capelas de valor histórico e artístico, entre muros antigos e ruas arborizadas. É, com justiça, chamado de museu a céu aberto — e o nome por trás disso é o de Fernando Furlanetto.
Filho de imigrantes italianos, Furlanetto nasceu em São João em 1897. Aos catorze anos partiu para a Itália, onde estudou na Escola de Belas Artes de Pietrasanta, na Toscana, e chegou a receber uma medalha de prata — honraria rara para um estrangeiro. De volta à cidade natal, transformou a fisionomia do cemitério com retratos em mármore de precisão impressionante: como só esculpia pessoas já falecidas, trabalhava a partir de fotografias, muitas de má qualidade, e ainda assim reconstituía rugas, fios de cabelo, o encaixe dos óculos, a cor sugerida dos olhos.
Recusou convites para ganhar a vida em outros estados com uma frase que ficou: “Eu não saio do meu São João.” Em 1971, um glaucoma o afastou do ofício; morreu em 1975, em dificuldades financeiras. A pedido dele, a esposa deveria destruir os moldes de gesso — não teve coragem e, por sugestão do amigo José Marcondes, doou-os a escolas da cidade. Desde 1997, no centenário de seu nascimento, a Semana Fernando Furlanetto celebra sua obra; uma rua e um busto na Praça Cel. José Pires levam seu nome.
Cinema
João Negrinho e a cidade filmada
Em meados dos anos 1950, moradores de São João se cotizaram para fazer algo improvável no interior: um longa-metragem. Nasceu assim João Negrinho, lançado em 1958, adaptação do romance homônimo da escritora sanjoanense Jaçanã Altair Pereira Guerrini, dirigido por Oswaldo Censoni e produzido pela Gianelli Filmes do Brasil. Sem estrutura, sem recursos técnicos e com elenco inteiramente amador — gente da própria cidade —, o filme rodou nas fazendas e paisagens locais.
A história acompanha dois meninos, um negro e outro branco, no período anterior à Abolição, e tinha a ambição declarada de combater o preconceito racial tão forte na época. O papel-título coube a Santo Costa, então um menino ajudante de engraxate, e o do amigo branco, Chiquinho, a Walter Mancini Filho; entre os atores locais estava Maria Amaziles de Oliveira Costa, a “Ziloca”. Para surpresa de todos, o filme circulou pelo país.
A memória dessa epopeia foi resgatada em 2009, quando estudantes do UniFae recuperaram uma cópia do filme e mais de duzentas fotografias da época para um documentário. No lançamento, parentes do elenco — entre eles Dona Cida, mãe de Santo Costa — reviram, emocionados, um pedaço da cidade dos anos 1950 que o cinema havia guardado.
Personagem urbano
Amigo e as histórias que a cidade guarda
Nos anos 1950, São João adotou um cão sem dono — ou, melhor, um cão que tinha “por dono toda a cidade”. Chamavam-no Amigo, e sua fama vinha de um costume singular: acompanhava velórios e enterros, em silêncio, reverenciando os mortos “não importando se ricos ou pobres, pretos ou brancos”, como escreveu o jornal O Município em 1957. Manso, dormia ao relento e comia do que mãos amigas lhe davam nas ruas.
Amigo morreu em 3 de setembro de 1961 e foi enterrado em caixão próprio, diante de uma pequena multidão — vereadora, delegado e jornalistas inclusive. Sua história já tinha alcançado a capital: um sapateiro do Ipiranga, em São Paulo, chegou a perguntar a um menino sanjoanense se era verdade que existia, em sua cidade, um cachorro que acompanhava enterros.
O cão virou folclore e até quadro a óleo, pintado por Octávio Gião. Décadas depois, em 1993, o jornal ainda recolhia causos de moradores sobre ele — prova de que certas histórias miúdas, de bichos e de gente comum, também sustentam a memória de uma cidade. Por isso Amigo continua aqui.