Cidade

São João da Boa Vista

O território que costura as biografias: serra, ferrovia, teatro, escolas, museus, cinema e personagens urbanos.

Vista da Igreja Matriz de São João da Boa Vista, na Praça da Catedral
Igreja Matriz de São João da Boa Vista, na Praça da Catedral.

Paisagem

A cidade dos crepúsculos

São João da Boa Vista aparece no acervo como uma cidade de colinas, céu aberto e memória urbana. Chamada de “Cidade dos Crepúsculos Maravilhosos”, fica antes da Serra da Mantiqueira, na divisa com Minas Gerais.

Essa paisagem não é apenas cenário. Ela atravessa as biografias: ruas, escolas, teatros, jornais, praças, famílias e instituições formam o chão comum das histórias reunidas por Neusa Menezes.

Texto completo sobre paisagem e pontos de memória

Também chamada de “Cidade dos Crepúsculos Maravilhosos”, está graciosamente incrustada nas colinas anteriores à Serra da Mantiqueira, na divisa com Minas Gerais. Caminho obrigatório para quem vai de São Paulo a Poços de Caldas (que fica do outro lado da serra), a cidade não é assim considerada em vão: a graça dos morros arredondados e revestidos pela mata verde-escuro, às vezes fica azulado por entre nuvens brancas sobre o vale. No inverno o céu noturno é límpido e carregado de estrelas. Essa é a nossa bela São João da Boa Vista. Pontos Turísticos • Museu Histórico

" Armando Salles Oliveira" • Museu de Arte Sacra • Praça Cel. Joaquim José • Praça Gov.

A Sales Oliveira (Praça da Catedral) • Fonte Luminosa • Avenida Dona Gertrudes • Cemitério São João Batista - Arte Tumular • Estação Municipal • Sede da Prefeitura • Colégio ”Cel Joaquim José.” • Casa Maringolo • Teatro Municipal • Sede do Bispado • Cristo • Igreja Catedral • Santuário do Perpétuo Socorro • Palmeiras Futebol Clube • Sociedade Esportiva Sanjoanense • Ponte do Arco • Bosque Municipal • Pedra Balão • Cachoeiras do Mirante • Fazenda Cachoeira • Serra da Paulista • Serra da Mantiqueira

São João da Boa Vista ao entardecer.
São João da Boa Vista ao entardecer.

Cultura

Teatro, música e Semana Guiomar Novaes

Inaugurado em 1914, o Teatro Municipal concentra uma parte decisiva da vida cultural sanjoanense. Pelo palco passaram companhias líricas, artistas de projeção e a pianista Guiomar Novaes, que ali se apresentou diante de seus conterrâneos.

Depois de perder parte do esplendor ao longo do século XX, o prédio foi adquirido pelo município, tombado pelo CONDEPHAAT em 1987 e restaurado. O teatro restaurado passa a abrigar novos artistas e a Semana Guiomar Novaes.

Texto completo sobre o Teatro Municipal

Teatro Municipal Inaugurado em 31 de outubro de 1914.

E m pleno coração da cidade, ergue-se com linhas arquitetônicas belíssimas o Teatro Municipal, que silencioso, guarda uma tradição de quase um século num vastíssimo e precioso passado. Pelas suas largas portas passaram ilustres personalidades e seu palco recebeu as mais famosas companhias teatrais da época como “Tosca”, “Bohemia”, “Cavalaria Rusticana”, “Barbeiro de Sevilha”. Foi no seu palco que a ilustre filha de São João, a internacional pianista, Guiomar Novaes, apresentou-se aos aplausos de seus conterrâneos.

Outras celebridades por aqui passaram como Villa Lobos. Foi um passado glorioso desse Teatro para onde afluíam centenas de pessoas das cidades vizinhas, paulistanos, cariocas e personalidades expressivas estrangeiras, turistas que atraídos pelas águas termais de Águas da Prata e pelos famosos cassinos e Poços de Caldas, assistiam e frequentavam o Teatro em São João, pois, era o único no interior do Estado. Com o intuito de modernizar ou comercializar o Teatro, a partir de 1967 foi perdendo o esplendor antigo.

Em 1981, pela Lei 219 de 26.08, o Prefeito Municipal Nelson Mancini Nicolau, decretou de utilidade pública o prédio. Em 1983, o Prefeito Municipal Sidney Beraldo, adquiriu o prédio. Em 1984 foi feito um levantamento das aspirações do povo e foi unânime o desejo de restauração.

Com o projeto de Restauração e Reciclagem do Teatro Municipal, foi tombado pelo CONDEPHAAT em 19 de janeiro de 1987., o Teatro já restaurado abriga os valores novos que despontam na música, na dança, nas artes cênicas: e dá abrigo a Semana Guiomar Novaes que já se faz tradição. Enfim, a ser o nosso “templo de cultura e arte”.

O Teatro Municipal é administrado pela AMITE – Associação dos Amigos do Teatro de São João da Boa Vista. (Fonte: Departamento de Cultura e Turismo)

Theatro Municipal de São João da Boa Vista.
Theatro Municipal de São João da Boa Vista.
Teatro Municipal.
Teatro Municipal.

Chegadas

A ferrovia e a cidade que se abre

A estação ferroviária foi durante décadas o portal de entrada e saída da cidade. Com os trilhos da Mogiana, São João ganhou circulação econômica, cultural e afetiva com outras cidades e com a capital paulista.

O prédio antigo deu lugar a uma nova estação na década de 1930, construída no mesmo local e associada ao crescimento urbano da cidade. A ferrovia ajuda a entender a circulação de pessoas, artistas, estudantes, jornais e mercadorias que atravessam o acervo.

Texto completo sobre a ferrovia

Estação Ferroviária Visita de Dom Pedro II a inauguração do Ramal de Caldas ficou marcada para o dia 22 de outubro de 1886. A inauguração do Ramal de Caldas seria presenciada pelo Imperador D. Pedro II e sua mulher, Dona Tereza Cristina.

Com os trilhos da Mogiana, chegou um novo estímulo para o progresso de São João, facilitando o intercâmbio econômico e cultural com cidades mais adiantadas e com a Capital da Província de São Paulo. A Estação Ferroviária tornou-se um portal de entrada e saída da cidade, por muitas e muitas décadas. A chegada de ilustres tinha endereço certo, e quase todos da cidade iam recepcioná-los no Largo da Estação, somando-se os curiosos e muitas crianças.

As recepções mais solenes eram previamente anunciadas na imprensa e contava com a presença de banda musical. Após 40 anos da “imperial inauguração” do ramal férreo, a cidade crescera populacional e economicamente. Porém, a velha Estação Ferroviária continuava a mesma, sem receber grandes reformas pela Companhia Mogiana. Em 1925, a imprensa sanjoanense colocou em pauta o assunto, afirmando que o prédio enfeiava a cidade, dando uma desagradável impressão aos visitantes.

Assim, a nova Estação foi construída no mesmo local que a antiga, as obras só iniciaram em fevereiro de 1934, ficando concluído no mês de novembro o grande armazém, com uma extensão de 100 metros. Para viabilizar sua implantação, foi necessário demolir um conjunto de casas existente no canto da praça, ampliando a área livre deste logradouro. A construção da nova estação foi mais demorada, concluindo-se em 1936. A nova estação o estilo neo-clássico, muito em voga nos anos 1920 para caracterizar os edifícios públicos.

São João da Boa Vista - São Paulo - Brasil Inaugurada em 1886 e reinaugurada em 1936.

A Estação Ferroviária foi o portal de entrada e saída da cidade. Seu armazém, o escoadouro das fases econômicas do município. Tudo começou em 27 de agosto de 1875, quando foi inaugurado o primeiro trecho desta estrada de ferro, de Campinas a Mogi Mirim. Depois, de uma só vez, em 1º de janeiro de 1878, inaugurou-se o trecho de Mogi Mirim a Casa Branca.

Para atender os passageiros que se destinavam à Vila de São João da Boa Vista e à de Poços de Caldas, já então muito procurada em virtude de suas águas termais, a Companhia construiu uma estação em terras do município de São João. Ela foi inaugurada em 14 de janeiro de 1878, recebendo a denominação de Estação de Caldas. Com a conclusão do ramal férreo de Poços de Caldas, o nome da estação foi mudado para “Engenheiro Mendes”, em homenagem ao chefe da primeira divisão da Mogiana, Manuel da Silva Mendes.

O local chegou a ser o ponto mais comercial do município de São João. Ali se estabeleceram fortes casas de negócio e mantiveram-se escolas. Porém, após 1886, a Estação Engenheiro Mendes foi decaindo rapidamente, tanto que no início do século 20, vivia unicamente das recordações do passado, com suas edificações praticamente em ruínas. Mas a partir de 1880, a cultura do café tornou-se extensiva. No município, também cultivava-se fumo, cana-de-açúcar e outros gêneros, além da criação de gado vacum e suíno.

Transportar toda essa preciosa e perecível mercadoria, por léguas de distância até a Estação Engenheiro Mendes, tornou-se o principal fator das reivindicações. O privilégio para a construção, uso e gozo do Ramal Férreo de Caldas foi concedido à Companhia Mogiana pelo Decreto 8888 de 17 de fevereiro de 1883. Os respectivos estudos foram iniciados em 5 de abril, ficando terminados a 12 de junho do mesmo ano. A construção foi entregue ao empreiteiro alemão Nicolau Rehder, o qual sub-empreitou os engenheiros Brodowsky e Paula Souza.

O Ramal de Caldas foi talvez a mais difícil e onerosa linha férrea construída pela Companhia Mogiana, devido o acidentado terreno entre Águas da Prata e Cascata.

Estação ferroviária.
Estação ferroviária.
Registro urbano ligado à estação.
Registro urbano ligado à estação.

Instituições

Escolas, museus e guarda da memória

A cidade do acervo também é feita de instituições: o Grupo Escolar Cel. Joaquim José, o Museu Histórico e Pedagógico, o Museu de Arte Sacra, a Biblioteca Municipal Jaçanã Altair e o Centro Cultural Pagu.

Esses lugares aproximam educação, cultura e preservação. Dona Tita aparece ligada à formação do Museu Histórico; Pagu dá nome ao Centro Cultural; Jaçanã Altair nomeia a biblioteca. A cidade, assim, devolve nomes de mulheres ao espaço público.

Texto completo sobre instituições e patrimônio

Centro Cultural Pagu Fundado em 1989. O Centro Cultural Pagu abriga a Biblioteca Municipal “Jaçanã Altair” com acervo completo de jornais, revistas, biblioteca infantil, sala de leitura de periódicos, gibiteca, mapoteca, grande quantidade de livros para pesquisa, leitura. Além, do núcleo de informática - Acessa São Paulo. Junto ao Centro Cultural também está a Casa do Artesão, onde vários artesãos da cidade expõe e vende seus mais variados trabalhos.

O nome do Centro Cultural homenageia a escritora sanjoanense Patrícia Rehder Galvão (Pagu). (Fonte: Departamento de Cultura e Turismo). Museu Histórico Armando S de Oliveira Inaugurado em 1970. O prédio do Museu Histórico e Pedagógico “Dr. Armando de Salles Oliveira” foi construído por Joaquim José de Oliveira Filho (1830-1903), para servir de residência urbana.

Maria Inês da Silva Oliveira, mais conhecida como Dona Tita (1887-1969), filha de Don’Anna Gabriela da Silva e do Cel. Joaquim José de Oliveira, foi quem herdou a residência, conservando-a com todos os móveis e pertences da época dos pais. Dona Tita adorava colecionar objetos antigos. Em suas viagens à Europa, Ásia e pelo Brasil afora, ela comprava muita coisa que julgasse de interesse, chegando na estação da Mogiana com as malas cheias de porcelanas, cristais, roupas típicas, leques, moedas, souvenirs e outras miudezas.

Dona Tita doou o prédio mobiliado e sua coleção, por testamento O Museu tem peças de quase todas as partes do mundo em sua maioria doadas por Dona Tita de Oliveira, que retratam o estilo de vida de tempos atrás, conservando assim a memória. Museu de Arte Sacra Ee Cel. Joaquim José Inaugurada em 1905. O Grupo Escolar “Cel Joaquim José”, fundado em 3 de novembro de 1896, foi o primeiro estabelecimento de Ensino Oficial de São João.

A instalação contou com o auxilio dos chefes políticos da cidade, inclusive o Cel. Joaquim José de Oliveira, o qual sempre acompanhou de perto os assuntos da implantação da escola. Depois de ser instalada em prédios alugados pela Câmara e na “Casa da Instrução”, o Grupo Escolar ficou fechado por vários meses. Mais tarde, depois de alguns tramites legais, ficou determinada a implantação do Grupo em frente à Praça “ Cel. Joaquim José”.

O conjunto Grupo Escolar e Praça “Cel. Joaquim José” era o primeiro símbolo cívico-republicano de São João. Assim, em 1º de fevereiro de 1905, as aulas começaram a funcionar no novo prédio, sem uma inauguração oficial. A centenária escola Cel. Joaquim José localizada no centro da cidade, abriga o Memorial Escolar com centenas de peças antigas referente a história da educação. Também foi quartel General durante a Revolução de 1932. (Fonte: Ana Claudia Câmara). Antiga Câmara e Cadeia (Abriga o Senac) Inaugurado em 1887.

O Prédio do Senac em São João da Boa Vista traz uma longa história. Inaugurado em 1887, foi projetado pelo engenheiro militar Euclides da Cunha para abrigar a Câmara Municipal e a Cadeia. A mesma planta de São João da Boa Vista serviu como base para a construção de prédios públicos em diversos municípios do Estado de São Paulo. O terreno escolhido para construir a Câmara ficava estrategicamente no meio da principal via local - a rua São João -, que ligava a Estação Ferroviária à Igreja Matriz de São João Batista.

Esta estação era o portal de entrada e saída da cidade naquela época. O prédio se destacava no meio provinciano. Enquanto as construções vizinhas se acotovelavam em estrutura de madeira e amarrações em taipa, a nova edificação exibia fachada em alvenaria de tijolos, tudo aparente, sem argamassa de revestimento. A fachada do prédio apresentava arquitetura clássica, com pilastras sobrepostas nos estilos jônico e dórico. No pavimento térreo, funcionava a cadeia, tendo à frente as salas do delegado e dos guardas, e, nos fundos, três celas.

O alto vestíbulo dava acesso à escadaria de madeira, levando ao pavimento superior, área reservada à Câmara Municipal, que se reunia uma vez por mês. No período imperial, a Câmara cumpria os papéis legislativo, executivo e judiciário. A partir da proclamação Estado, a uma quadra de distância, deixando o antigo prédio exclusivo às funções da República, o prédio passou a abrigar, além da Câmara Municipal, o fórum da cidade. Para adequar-se à nova organização, a instalação passou por uma reforma em 1905.

Doze anos depois, o Fórum e Cadeia mudaram-se para um prédio especialmente construído pelo Câmara e Prefeitura Municipal. Em 1924, foi realizada uma nova reforma. O projeto adotado foi o do engenheiro-arquiteto Tito Travassos. As portas do pavimento superior foram vedadas. Outras foram abertas e uma parede foi construída para melhorar a divisão em departamentos municipais. Foram realizadas novas pinturas decorativas e a remodelação completa das fachadas, agora seguindo a moda eclética vigente, com alguns elementos art nouveau.

Na fachada principal, foi montado um terraço sobre colunas coríntias, servindo como palanque para os presidentes da Câmara ou prefeitos eleitos. Em torno do prédio, um jardim com canteiros geométricos e um muro condizente com o estilo das fachadas. O Paço Municipal funcionou até 1942, quando a Prefeitura e Câmara Municipal mudaram para um novo prédio ao lado do Teatro Municipal, um uma residência neoclássica.

A partir desta data, o antigo prédio da Câmara foi utilizado para departamentos municipais e estaduais, recebendo pequenos aparos e reformas de adequação. A reforma foi planejada e acompanhada pelo arquiteto Antonio Carlos Rodrigues Lorette. As obras começaram em janeiro de 1999 e foram entregues em junho de 2000. (Fonte: SENAC). Cristo Redentor Ponto de referência da cidade, localiza em uma região alta de São João da Boa Vista, dando aos visitantes uma vista privilegiada do município. Avenida Oscar Pirajá.

Palácio Episcopal Sobrado construído por Nicolau Rehder em 1890. Reformado e ampliado em 1910, para residência e casa bancária do fazendeiro Cristiano Osório de Oliveira, o sobrado tornou-se residência oficial do Bispo e Cúria da Diocese desde 1960. No andar térreo está instalado o Museu de Arte Sacra. Cemitério Municipal São João Batista o Cemitério de São João da Boa Vista conta com um rico patrimônio.

Aqui está São João da Boa Vista Possui um acervo rico em paramentos dos séculos XIX e XX, em tecidos bordados á ouro e prata. Imagens em madeira do século XVIII, objetos religiosos, pinturas e mobiliário da época. Está instalado no andar térreo do Palácio Episcopal na Praça Roque Fiori, Centro.

Grupo Escolar Joaquim José.
Grupo Escolar Joaquim José.
Rua São João.
Rua São João.

Arte e memória

Fernando Furlanetto e o cemitério como museu aberto

O Cemitério São João Batista aparece no material de origem como patrimônio histórico, artístico e arquitetônico. Boa parte desse acervo está ligada ao escultor Fernando Furlanetto, nascido em São João da Boa Vista em 1897.

Furlanetto herdou do pai o trabalho com túmulos e transformou mármore, mãos, gestos e figuras religiosas em uma memória visual da cidade. O cemitério passa a ser lido como museu a céu aberto.

Texto original completo

Trecho original sobre o cemitério

São mais de 300 túmulos, jazigos e capelas, de valor histórico, artístico e arquitetônico, além de seu contexto ambiental, com boa parte do muro original e ruas arborizadas. É um museu a céu aberto, com o melhor acervo de obras do escultor sanjoanense Fernando Furlanetto. Conheça Fernando Furlanetto e sua obra. Conheça Amigo o cão que acompanhava enterros João Negrinho - o filme — conheça sua história

Texto completo sobre Fernando Furlanetto

Escultor (fernando furlanetto) Fernando Furlanetto (Escultor) Fernando Furlanetto nasceu no dia 5 de março de 1897, em São João da Boa Vista, e era filho de Antonio Furlanetto e Maria Prisca Lanfranchi. Seu pai nasceu no dia 1º de janeiro de 1873, em Treviso, Itália, e partiu para o Brasil, atraído pelas inúmeras possibilidades de progresso que a América então oferecia. Após desembarcar no Porto de Santos e se dirigir à capital paulista, decidiu com a esposa instalar-se no interior do estado de São Paulo.

Em São João da Boa Vista, Antonio Furlanetto dedicou-se a arte de confeccionar e instalar túmulos no cemitério local, tendo falecido na cidade que adotou como sua, no dia 7 de fevereiro de 1950. Maria Prisca Lanfranchi nasceu em Verona, também no norte da Itália, no dia 18 de janeiro de 1879, e faleceu no dia 29 de fevereiro de 1964, em São João da Boa Vista. Os dois primeiros filhos decidiram seguir os caminhos do pai, e partiram para a Itália a fim de adquirir os conhecimentos necessários para a arte da escultura.

Iniciou sua formação fundamental no Grupo Escolar “Coronel Joaquim José”, de sua terra natal. Aos quatorze anos de idade, em 1911, acompanhando a Família Gianelli, partiu para a Itália, onde permaneceu sob cuidados da Família Tonetti, tendo estudado na Scuola di Belle Arti “Satagio Stagi”, de Pietrasanta, na Toscana. Conviveu com grandes artistas que durante oito anos ensinaram-no a expressar o seu talento com o escopo e o buril.

Foi aluno de grandes mestres, como: Ottavio Papini (professor de arquitetura), de Florença; Guglielmo Romiti (professor de anatomia), de Pisa; Antonio Bozzano (professor de escultura), de Genova; e Oreste Paoli (mestre em mármore). Em 1915, Fernando Furlanetto conquistou o primeiro-prêmio, uma medalha de prata, no terceiro ano do curso comum, na disciplina “Decorazione Pittorica”. Um ano depois, já estava trabalhando no atelier do escultor Ferruccio de Ranieri, em Pietrasanta.

Na época, foi elogiado como “valente artista americano”, na revista italiana “Lo scultore e il Marmo”, de 15 de fevereiro de 1916. As encomendas que seu pai fazia ao atelier de Ranieri eram executadas pelo próprio Fernando Furlanetto, principalmente os retratos. Entres os exemplos estão os medalhões do túmulo de Maria Umbelina Azevedo Oliveira e de Alzira e Amadeu de Oliveira. Todos eles foram feitos em mármore alabastrino, material translúcido e compacto, ideal para este tipo de trabalho.

Durante o curso destacou-se tendo recebido, além da medalha, diplomas de louvor, honrarias incomuns a um estrangeiro em uma terra pródiga de artistas. A saudade fizeram-no ao Brasil, com vinte e dois anos de idade, tendo, retornado ao território europeu para casar-se com sua primeira esposa, de nacionalidade italiana. Fernando Furlanetto casou no dia 26 de dezembro de 1921, em Viareggio, Itália, com Lélia Ranieri, nascida no dia 21 de maio de 1902, em Lucca, Itália.

Tão logo retornou à sua terra natal, Fernando Furlanetto começou a brilhar, principalmente no Cemitério Municipal onde a grandeza de suas obras em mármore passaram a modificar a fisionomia do local. Em pouco tempo seus trabalhos ganharam projeção e espalharam-se por toda a região. Uma das primeiras encomendas que recebeu quando passou a trabalhar em São João da Boa Vista foi um busto de Gabriel José Ferreira, para substituir uma cruz que culminava o túmulo da família.

Teve que enfrentar muitas dificuldades, oriundas da falta de uma fotografia adequada e conseguiu, com esforço e habilidades raras, reproduzir com exatidão a imagem do respeitável cidadão. Os traços principais da fisionomia foram obtidos com felicidade, de modo que a impressão do conjunto foi magnífica e verdadeira. Os túmulos de Angelina Oliveira Bueno e sua filha Dina Benvinda, bem como o do Cel. Joaquim Cândido de Oliveira, foram duas concepções grandiosas.

Ainda não estavam completamente prontos em 1926, mas a revista “Guararapes” já reputava os dois monumentos como obras-primas da família Furlanetto. No caso do primeiro, que ele considerava realmente sua obra-prima, os retratos ficaram perfeitos e a emoção é latente. Já no segundo, a alegoria “Bondade” rima com as expressões das figuras. Como só retratou pessoas falecidas, teve que se basear em fotografias, muitas delas de má qualidade, de difícil compreensão. A tridimensionalidade era obtida por méritos próprios.

Até a cor dos olhos era sugerida pelo grau de profundidade das pupilas. Nenhum detalhe era esquecido: unhas, fio de cabelo ou bigode, rugas, asperezas e estamparia dos tecidos, encaixe dos óculos, prendedor de gravatas, broches, correntes e medalhinhas. Apesar de todo o talento, sua vida foi sempre muito difícil, pois além da mão de obra, o material que trabalhava era muito caro (mármores importados), e não havia retornou financeiro.

Recebeu inúmeros convites para levar sua arte para outros Estados, onde haveria mais compensação financeira, mas sempre recusava dizendo: “Eu não saio do meu São João”, cidade que era tudo para ele. Fernando Furlanetto foi um retratista excepcional, mas esta habilidade teve pouco espaço em São João da Boa Vista, tendo deixado apenas dois bustos fora do cemitério (do Padre Josué Silveira de Mattos e do Dr. João Baptista de Figueiredo Costa).

Em 1971, Fernando Furlanetto teve que interromper sua atividade de escultor, devido a um glaucoma, que o estava fazendo perder a visão. Ficou muito abatido, porque além de não poder mais exprimir sua arte, não fez qualquer trabalho para sua filha. Sua última escultura foi o busto do Dr. João Baptista de Figueiredo Costa, em frente à Santa Casa de Misericórdia. No final de sua vida, passou por graves problemas financeiros e sua família não tinha sequer condições de pagar as despesas hospitalares.

Graças ao auxílio de um amigo, que pertencia à diretoria da Santa Casa, puderam saldar as dívidas com um prazo maior. Fernando Furlanetto faleceu em São João da Boa Vista, no dia 20 de abril de 1975, pouco tempo depois de completar 78 anos de vida. Poucos antes de falecer, Fernando Furlanetto pediu que a esposa destruísse todos os seus trabalhos de gesso, que se encontravam no seu galpão de trabalho.

Dona Mercedes, felizmente, não teve coragem de realizar o que lhe pediu o companheiro, e, por sugestão do amigo e artista plástico José Marcondes, doou a maioria deles para escolas da cidade, perpetuando a memória do grande escultor para gerações de sanjoanenses. Como reconhecimento por sua contribuição para a arte de São João da Boa Vista, a Prefeitura Municipal passou a atribuir o nome de Rua Fernando Furlanetto a uma das vias públicas da cidade.

Além disso, recebeu uma bela homenagem com a inauguração de seu busto em bronze, na Praça Cel. José Pires. Em 1997, o arquiteto Antonio Carlos Lorette foi o responsável pela iniciativa, projeto, montagem e divulgação da Exposição “Centenário de Fernando Furlanetto”, com apoio do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal e do Museu de Arte Sacra da Diocese de São João da Boa Vista.

Tal exposição de esculturas do artista sanjoanense deu origem à “Semana Fernando Furlanetto”, criada por decreto municipal, realizada anualmente e considerada como uma das mais importantes exposições de artes plásticas no interior do Estado de São Paulo. Este artigo foi originalmente publicado no jornal O Município, como parte da série de biografias intitulada “História de São João da Boa Vista”.

Os mais sinceros agradecimentos ao arquiteto Antonio Carlos Rodrigues Lorette, por ter fornecido todos os materiais e informações indispensáveis para a elaboração deste artigo. - Rodrigo Rossi Falconi: Médico, Membro-Fundador da Sociedade Brasileira de História da Medicina e membro da Associação Brasileira de Pesquisadores em História e Genealogia, Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e Academia de Letras de São João da Boa Vista (cadeira 42 – Patrono Dr. Oswaldo Cruz). Conheça AMIGO—o cão que acompanhava enterros

Fernando Furlanetto.
Fernando Furlanetto.
Obra tumular de Fernando Furlanetto.
Obra tumular de Fernando Furlanetto.
Escultura de Fernando Furlanetto.
Escultura de Fernando Furlanetto.

Cinema

João Negrinho e a cidade filmada

O filme João Negrinho, de 1958, adapta o romance de Jaçanã Altair Pereira Guerrini. A produção reuniu moradores, artistas amadores e paisagens de São João da Boa Vista em uma experiência rara de cinema no interior paulista.

A história acompanha dois garotos, um negro e outro branco, no período pré-abolicionista. No acervo, o filme aproxima literatura, memória racial, cidade e participação coletiva.

Texto completo sobre João Negrinho

Longa metragem — Adaptação do romance de mesmo nome de Jaçanã Altair Pereira Guerrini Sinopse do filme: A trajetória e a amizade de dois garotos, um negro, outro branco, em uma fazenda durante o período pré-abolicionista, unidos pelo esforço piedoso de um padre que prega a igualdade das raças e combate as crueldades contra os escravos.

Gênero Drama Termos descritores Literatura Descritores secundários Adaptação para cinema Produção Companhia(s) produtora(s): Gianelli Filmes do Brasil Produção: Gianelli, Dino Distribuição Companhia(s) distribuidora(s): Cinematográfica Boa Vista Argumento/roteiro Argumento: Altair, Jaçanã Adaptação: Censoni, Oswaldo; Gianelli, Dilo Estória: Baseada no romance João Negrinho de Jaçanã Altair Direção: Censoni, Oswaldo Continuidade: Perri, Wanderley Fotografia Direção de fotografia: Gianelli, Dilo Assistência de fotografia: Gianelli, Dino R.

Assistência de câmera: Heros, Ruy Som Técnico de som: Magassy, Ernest Engenharia de som: Hack, Ernst Montagem: Sobolewsky, Lydia Roteiro de montagem: Sobolewsky, Lydia Direção de arte Cenografia: Perri, Wanderley Dados adicionais de direção de arte Assistência de cenografia: Castilho, Armando Dados adicionais de música Regente Maestro: Bernhard, Conrad Orquestra: Orquestra da Rádio Gazeta de São Paulo Canção Título: Canoeiro Autor da canção: Andrade, Edvina Intérprete: Silveira, Heleninha e Demônios da garoa Locação: São João da Boa Vista Identidades/elenco: Costa, Santo (João Negrinho) Mancini Filho, Walter (Chiquinho) Prado, Alberto (Fazendeiro) Ribeiro, Alba (Jacinta, mulher do fazendeiro) Michelazzo, Hugolino (Frei Luís) Dias, José Carlos (Soares de Moreira) Aguiar, Abdalla (Seixa de Mendonça, capataz) Rosa, Eglantina (Mãe Maria) Silva, Joaquim Franco da Luiz, Benedito Noronha, Lucio Fontes: Folha da Noite, 30.11.1956 Folha da Manhã, 03.06.1958 Observações: FCB/FF indica distribuição da Satélite Filmes.

Porém, um recorte sem identificação informa Independentes Filmes do Brasil. O Certificado de 19.07.1963 indica a Variecy Filmes Distribuidora Ltda. como proprietária. Os certificados 23430 e 23429 indicam "re-censura" e IRPA Filmes como nova distribuidora. ACPJ/I acrescenta no elenco: Virgulino, Carlos, Costa, Alcides, Noronha, Edwina e Santos, Geraldo. Aponta ainda canções de Noronha, Edwina e Santos, Geraldo. A Folha da Manhã de 03.06.1958 inclui a Independentes Filmes do Brasil como distribuidora.

A Folha da Noite de 30.11.1956 informa que o filme custou cerca de 2 milhões de cruzeiros, " capital obtido mediante emissão de ações ao portador, resgatáveis dentro de 2 anos." Ela recordou que a participação no filme- na década de 50- foi outra surpresa: “Não sabia que seria capaz de fazer o que fizemos, naquela época, sem nenhuma estrutura, sem condições técnicas. Considero uma enorme conquista. Dona Cida- mãe de João Negrinho- estava realizada. “Eu estou mais do que emocionada.

Para falar a verdade, sinto uma mistura: gratidão pelas homenagens e uma enorme tristeza pela perda de meu filho. Ele foi embora muito cedo. Mas, de certa forma, esta homenagem nos dá força. Santo foi um ótimo filho”, comentou. Dona Cida recorda o carinho que o filho sempre teve pela mãe e o empenho para integrar o elenco de um filme: “Era só um ajudante de engraxate e receber um convite tão importante, foi uma honra e um sacrifício”.

Os depoimentos dos que participaram da produção são intercalados com cenas do filme e compõem o resumo da história original. O vídeo documentário é uma viagem no tempo. Através dele é possível identificar paisagens da zona rural da cidade, na década de 1950. Também é possível ver o talento do garoto Santo Costa, que interpretou o personagem principal e de vários outros sanjoanenses, entre os quais: Maria Amaziles Oliveira Costa (Zilóca); Jandira Cassiano e Hugolino Michelazzo.

Além do filme foram recuperadas dezenas de fotos da época que em breve estarão disponibilizadas no site do Unifae.

E mais: o vereador Roberto Campos; o advogado Osvaldo de Souza, representante da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil- subsecção São João da Boa Vista) e Associação de Amigos do Bairro Alegre; as Religiosas: Irmã Arlete e Irmã Geni, da Congregação das Andrelinas; o Padre Claudemir Canela (Padre Mil) representante da Catedral e Museu de Arte Sacra; Marcos Paulo Pereira, sobrinho do Sr. Tatá; Sra. Alba Ribeiro (Ziloca), do elenco do filme e comentarista do vídeo documentário João Negrinho; João Octavio Bastos, representante da família de Octavio da Silva Bastos.

Também estiveram no evento: Antônio Carlos Rossi, representante da 1ª turma de Ciências Econômicas; Sílvia Ferrante, representante da Academia de Letras e do Jornal Edição Extra; Marcelo Gregório, repórter da TV União e o cinegrafista da equipe; Maria Cecília Nogueira e Maria Cândida Oliveira, também representantes da Academia de Letras de São João da Boa Vista; Elza da Silva Santos, esposa de João Negrinho; Santo Costa Neto, filho de João Negrinho e seu filho, Natan; Dona Cida, Costa, mãe de João Negrinho; Jandira Cassiano Virga, do elenco do filme e comentarista dos vídeos-documentários: João Negrinho e Colégio Santo André; Jaime Splettstoser, representante do Arquivo

Histórico

De São João; o fotógrafo Alfredo Nagib Fritz. O casal, Márcia e Marcelo Censoni, representaram Sr. Osvaldo Censoni, diretor do filme João Negrinho. E também foi anotada a presença de professores e funcionários do Unifae; alunos de vários cursos; ex-alunos, além de representantes da comunidade, de modo geral. Foram cerca de duas horas de pura emoção, com a sugestão de levar esses trabalhos às escolas locais, como exemplo e conteúdo histórico.

O Projeto História Viva é uma atividade de extensão do Centro Universitário implantado há 5 anos pelo Reitor, professor Valdemir Samonetto e coordenado pelo professor Francisco de Assis Carvalho Arten. O objetivo do projeto é recuperar a memória do Unifae, da cidade e região e, ao mesmo tempo, proporcionar aos estudantes de Comunicação Social (Jornalismo e Publicidade e Propaganda).

TV Cultura: João Negrinho João Negrinho (Unifae) Na década de 1950 moradores de uma pequena cidade no interior de São Paulo, São João da Boa Vista, se cotizam para produzir um filme. Uma verdadeira epopeia, já que não possuíam nenhum recurso técnico, pouco dinheiro e os artistas eram todos amadores, residentes na cidade. Assim surgiu João Negrinho, filme que tinha a pretensão de diminuir o preconceito racial tão forte na época.

O filme fez enorme sucesso e foi apresentado em todo Brasil, para surpresa de todos, inclusive dos que participaram do filme, que jamais haviam sonhado que teria tal repercussão. Para produzir esse vídeo, os alunos da Unifae recuperaram cópia do filme original e conseguiram localizar mais de 200 fotos da época. A produção é de Alline Adriane Fanelli Mastiguim, Rafael José Brunelli e Nayara Maria Vasconcellos. Mais emoção: Lançamento do documentário sobre o filme João Negrinho pela UniFae em 2009.

Ouvimos Santos Costa Neto, filho de João Negrinho, que mal podia falar: “Estou muito emocionado e feliz”. A esposa Elza não conseguia esconder as lágrimas e nem conseguiu expressar a sua alegria diante da lembrança de um tempo distante, mas que deixou profundas marcas. Também conversamos com Jandira Cassiano Virga, que teve participação no elenco do filme João Negrinho e também foi comentarista do vídeo do mesmo nome e daquele dedicado à história do Colégio Santo André, como ex-aluna. “A convite, participei deste evento maravilhoso.

Aliás, estou surpresa. Não acho fácil reunir todo material. O produto revela talento, competência e dedicação, sem medidas. Superou minha expectativa. Toda a equipe está de parabéns pela persistência e energia, positiva”, disse Jandira. Conheça o escultor Fernando Furlanetto

Cena do filme João Negrinho.
Cena do filme João Negrinho.
Registro do filme João Negrinho.
Registro do filme João Negrinho.
Imagem do filme João Negrinho.
Imagem do filme João Negrinho.

Personagem urbano

Amigo e as histórias que a cidade guarda

Entre os personagens urbanos preservados no material de origem está Amigo, lembrado como o cão que acompanhava enterros e ganhou afeto popular. A história revela outro tipo de memória: oral, cotidiana, espalhada pelas ruas.

Ao lado dos grandes nomes, esses relatos mostram uma cidade feita também de pequenas presenças, costumes e histórias que sobrevivem porque alguém decidiu registrá-las.

Texto completo sobre Amigo

O cão (amigo) “AMIGO” (O cão que acompanha enterro e conquistou a cidade) “AMIGO” continua impassível em sua ronda. Acompanhar enterros, depois de fazer o velório, o admirável cão continua no seu mutismo impressionante, a reverenciar os mortos em nossa cidade. Quem ensinou “Amigo” a agir dessa maneira?

Aquele manso cão que tem por dono toda a cidade, a todos afagando quando recebe atenção das crianças, a todos enfim, indiferente a popularidade criada pela publicidade, continua a reverenciar os mortos, não lhe importando sejam ricos ou pobres, pretos ou brancos, que as umas tenham custado mais ou menos cruzeiros. E quando isso faz, não se deixa perturbar pelas “namoradas” que porventura encontre no caminha. Primeiro o dever, que cumpre invariavelmente.

Porque um simples cão, que não é da alta sociedade canina, que desconhece o conforto de um canil que não são os “bangalôs” que a aristocracia oferece aos “pedigrees” que ignoram até o massante serviço de coçar-se quando as pulgas resolvem pinicar, porque as mãos de madame se transformam em hábeis “catadeiras”, acompanha enterros associando-se as homenagens que os racionais preitam ao falecido? Consciente de seu papel não ladra, nem umedece os olhos. Cumpre o dever e com isso deve se julgar satisfeito.

Sequer espera que a família agradeça sua presença no ato. Também não se queixa quando algum racional o mimoseia com um ponta pé. Isto por conta da falta de consideração, da piedade de não poucos bichinhos de dois pés que possivelmente, sequer se comovem quando entregam à terra o corpo cansado de um pai, de uma mãe, de um amigo. “Amigo” procede como um cão. Não morde nem ataca quem quer que seja. Nisso se revela bastante pacifista, compreensível, embora não faça parte das Nações Unidas.

Dormindo ao relento, recebendo afagos, almoçando e jantando na via pública, em qualquer hora que mãos amigas dele se aproximam, “Amigo” mantém-se firme em seu trabalho.

Jornal “O Município” - 17 de agosto de 1957 A da história do cachorro vira-lata “AMIGO” O “AMIGO” morreu Desaparece o conhecido cachorro que acompanhava enterros - Curiosos presenciam seu enterro Depois de um rápido período de enfermidade, assistido pelos veterinários da Prefeitura Municipal e Secretaria da Agricultura e ainda pelo farmacêutico Juarez Loyola, morreu dia 3 de setembro de 1961, na sede do PTB, o conhecido cachorro que tinha por hábito acompanhar os enterros que se realizavam em nossa cidade.

Conhecido por toda a população, que carinhosamente acompanhava suas atividades, sua morte veio provocar os mais desencontrados comentários. Durante os dias em que esteve aos cuidados veterinários desenvolveu intensa atividade e procurou fornecer todos os elementos solicitados pelo Sr. Antenor Martins de Paula, que como sempre mostrou-se grande admirador do “Amigo”. Em caixão próprio foi o cão “Amigo” enterrado em um terreno localizado na rua Eduardo Balestero Braido, de propriedade do Sr. Antenor Martins de Paula.

Momentos antes do enterro grande era o número de pessoas que observavam o animal morto, inclusive a vereadora Beloca de Oliveira Costa, o Delegado de Polícia de São João da Boa Vista e ainda representante de jornais locais e da Rádio Difusora. Desaparece assim o conhecido cachorro que acompanhava enterro em nossa cidade e que inclusive despertou curiosidade em todos os pontos do Estado de São Paulo.

Jornal “O Município” 09 de setembro de 1961 A publicação da matéria A história de “ Amigo”, devido ao assunto tratado, teve repercussão, gerando, inclusive, uma entrevista sobre a mesma, durante o programa Plantão Policial na Rádio Piratininga, de responsabilidade do radialista Marcos Ferreira, no último sábado.

No decorrer do programa, várias pessoas telefonaram, entre elas, o pintor Riolando Faria Gião identificando o autor do quadro que retratava o Amigo: “Lembro que um senhor, que penso ter sido o Antenor Martins de Paula, mas que minha mãe já acha ser um outro, conhecido como Aguiar, procurou meu pai, Octávio Gião, encomendando um quadro tendo o Amigo, como tema. Meu pai pintou a tela, baseado em uma foto, que eu acho ser a que foi reproduzida no jornal.

O quadro devia ter, aproximadamente, um metro de comprimento por oitenta de largura e era colorido, retratando a cor do cachorro: cinza esverdeado, manchado de branco. Esse quadro ficou exposto, segundo lembranças da minha mãe, em vários lugares. Inclusive, quando a sede do Banco do Brasil mudou para o prédio novo, no local antigo, onde funciona o escritório da Telesp, foi realizada uma exposição em que ele foi exposto. Provavelmente, quem emoldurou o quadro foi o Manoel Assumpção Ribeiro, que era muito ligado ao meu pai.

Depois, revi pela última vez esse quadro, no escritório que o senhor Anterior mantinha ao lado do edifício do Bradesco na praça da Matriz, atualmente local de um estacionamento. Esse cachorro representou muita coisa em São João, tanto que até não foi esquecido pelo povo. Por de 1959, meus avós maternos moravam em São Paulo, no Bairro do Ipiranga. Um dia, fui com um primo buscar um sapato que tinha ido para o conserto.

Qual foi o meu espanto, quando o sapateiro ao saber que eu era de São João, perguntou se existia, mesmo, na cidade, um cachorro famoso que acompanhava os enterros. Criança, orgulhoso eu respondi que sim, porque o Amigo estava levando a fama da cidade para a capital.

Heleninha, viúva de Ion Pirajá, recordou um fato ocorrido, um pouco antes do falecimento da avó de seu marido, dona Lucina Raposo de Vasconcellos, que residia no casarão da praça da Matriz: “Quando dona Lucina faleceu, eu morava em Araçatuba e não compareci ao enterro, porque estava em meio a uma gravidez que requeria cuidados. Contudo, quando cheguei, ouvi minha sogra, dona Chiquinha Pirajá, contar uma história sobre o Amigo que ocorreu um pouco antes de sua mãe ficar gravemente enferma.

Dona Lucina estava fazendo linguiça, em uma cozinha, localizada na parte baixa da casa e que tinha uma grade de proteção que dava para um dos corredores laterais. Quando ouviu um barulho e viu o Amigo, de pé junto à grade, olhando para ela. Como conhecia a fama do cachorro, dona Lucina exclamou: “Vai embora Amigo! Ainda não chegou a minha hora.” Pouco tempo depois, adoeceu gravemente e segundo o testemunho de muitas netas e parentes o Amigo esteve presente ao enterro. M.G.

M, uma senhora de quase oitenta anos, que prefere ficar no anonimato, residente no Bairro do São Lázaro, assinante do jornal, relata também um fato interessante: “Nós morávamos na rua Monsenhor Vinheta e o meu vizinho faleceu às 7 horas da noite. Daí, o seu enteado, acompanhado do cunhado, foram na Funerária Balestrin encomendar o caixão. Na, o Amigo veio «companhando o carro deles e ficou aguardando a funerária chegar e só saiu da casa para acompanhar o enterro.” Por Ana Eugênia Z.B. R Biazzo Jornal “O Município” - 09/10/93

Amigo, personagem urbano lembrado pela cidade.
Amigo, personagem urbano lembrado pela cidade.
Registro de Amigo.
Registro de Amigo.