Memória pública

Maria Sguassábia

Professora rural ligada a São João da Boa Vista, Maria Sguassábia entrou para a memória pública ao participar da Revolução Constitucionalista de 1932.

Maria Sguassábia

Introdução

Maria Sguassábia, nome pelo qual se tornou conhecida Stela Rosa Sguassábia, uniu vida docente e participação cívica em uma trajetória rara. Em São João da Boa Vista, seu nome permaneceu ligado à Revolução Constitucionalista de 1932 e à memória pública da cidade.

Stela Rosa Sguassábia é o verdadeiro nome de Maria – que nasceu em Araraquara-SP, em 12 de março de 1889. Filha de Giuseppe (José) Sguassábia e Clotilde Palpello, imigrantes italianos da região de Verona. Quando tinha 3 anos, a família mudou-se para São João da Boa Vista. Nessa cidade casou-se com José Pinto de Andrade em 22 de abril de 1922. Ficou viúva quando estava no 5º mês de gravidez de sua única filha Maria José. Esta nasceu em 29 de janeiro de 1923. Maria José casou-se com João Marsiglia em 15 de janeiro de 1942. Tiveram 2 filhos: Maurício e Henrique.

Retrato de Maria Sguassábia
Maria Sguassábia — a professora de Araraquara que se alistou como soldado na Revolução de 1932.

Vida e docência

Seu pai, italiano, decidiu que sua filha se chamaria Stela Rosa, pois era branca como uma estrela e bela como uma rosa. Na pia batismal o padre recusou chamar a menina de Stela Rosa e acrescentou Maria em seu nome. E assim, tornou-se conhecida como Maria Sguassábia. Era professora primária. Foi neste cenário de muita insegurança, que Maria via levas e levas de soldados transitando pela estrada rumo à fronteira.

A família viera de Verona, no norte da Itália. Os pais — Giuseppe Sguassábia, conhecido como “Piero”, e Clotilde Palpello — passaram por Araraquara, onde Maria nasceu, antes de se fixarem em São João da Boa Vista, no bairro do Rosário. Eram seis irmãos: além de Maria Stela, Clara, Florinda, Primo, Antonio e João. O pai trabalhou no Hotel Central; a mãe e as irmãs viviam de costura e de marmitas, e os homens, da marcenaria. Foi nesse meio imigrante, modesto e trabalhador, que Stela Rosa cresceu.

Antes da trincheira

Antes de ser soldado, Maria foi professora. Formou-se para o magistério e lecionou em escolas rurais da região — entre elas a da Fazenda Paulicéia, onde, anos depois, a guerra a encontraria. Em 22 de abril de 1922, casou-se em São João da Boa Vista com José Pinto de Andrade.

O casamento foi breve: José morreu quando ela estava no quinto mês de gravidez. Em 29 de janeiro de 1923 nasceu a filha, Maria José de Andrade. Viúva e mãe muito jovem, Maria atravessou os anos 1920 sustentando a casa com o próprio trabalho — uma autonomia imposta pela perda. Foi essa mulher, e não uma aventureira sem vínculos, que a Revolução de 1932 viria encontrar na escola da fazenda.

Retrato de juventude de Maria Sguassábia
Retrato de juventude atribuído a Maria Sguassábia.

A casa-grande da fazenda Paulicéia foi transformada em Posto de Comando da 4ª Companhia do 1º Batalhão Paulista da Milícia Civil. Seus irmãos Primo e Antonio haviam se alistado como voluntários. Antonio estava com ela na fazenda; Primo tinha ido para a fronteira entre São Paulo e Paraná. Maria teve notícias de que seu irmão Primo seguira para a linha de fogo. Poucos dias depois, recebia a comunicação da sua morte em combate. “Ao menos Antonio, pensou Maria, está por perto”. A alegria durou pouco.

O administrador da fazenda trouxe ordens para evacuar a escola, pois a mesma encontrava-se no eixo das operações e poderia ser perigosa à permanência das crianças ali. Maria, porém, obstinada, decide ficar. É a única mulher, no meio de 400 soldados. Todos os civis foram evacuados. Os rumores da revolução abalaram a tranquilidade da fazenda. A pouca distância da fazenda onde morava, já estavam combatendo, num lugarejo de fronteira chamado Eleutério. Ela ouvia, nitidamente, à noite, o tiroteio.

São Paulo estava em guerra contra o governo ditatorial de Getúlio Vargas. Muita agitação na capital; o medo e a ansiedade crescem em todas as cidades do estado. Da janela, Maria avistava a sentinela da porteira. Sua função era vigiar a estrada que demandava a fronteira entre Minas Gerais e São Paulo, onde se concentravam tropas inimigas. Sua tarefa era não deixar ninguém passar sem identificação. À noite, a porteira deveria ser amarrada com arame farpado. Um soldado fora requisitado para vigiá-la.

Era um verdadeiro “palerma” segundo Maria, pois limitava-se a ficar ali, parado, sem levantar os olhos e aparando intermináveis pedacinhos de madeira, com o canivete. De onde ela estava via gente transitar livremente, enquanto o soldado apenas suspendia os olhos do canivete. É um relapso, pensou ela. A cidade de São João da Boa Vista não ficou à margem do movimento revolucionário.

Cartaz da Revolução Constitucionalista de 1932
Cartaz da Revolução Constitucionalista de 1932.

A população participou ativamente dos comícios nas praças públicas e muitos oradores foram ovacionados, pois suas palavras iam ao encontro do sentimento de todos. A imprensa local exortava o espírito guerreiro dos sanjoanenses, com artigos vibrantes e sugestivos, esclarecendo e orientando sobre os acontecimentos na capital. Os jovens, empolgados pelo curso dos acontecimentos, começaram a procurar os postos de alistamentos, oferecendo-se para colaborar com tão nobre causa.

Juramento do Soldado Constitucional

"Juro, pelo amor que tenho à minha mãe, pelo nome que tenho do meu pae; juro pela minha dignidade de homem; juro por Deus, que luctarei até o fim, por São Paulo, pelo Brasil, pela nossa Bandeira! Juro!".

A apreensão era grande e a população não teve mais sossego. Ninguém conseguia ter uma vida normal com seus afazeres. Só pensavam no que ia acontecer com a Revolução. Familiares dos soldados e curiosos ficavam horas em frente ao grupo Escolar, esperando ter notícias.

Caminhões carregados de víveres ou soldados atravessam a cidade, muito rápidos, deixando a população apavorada. O que não faltava eram os boatos. E nesse clima de confusão e pavor, chegou o Tenente Mário Meira, com um caminhão carregado de armas e munições. A maioria delas em péssimo estado de uso. Armas velhas e fora de uso, que foram encontradas num porão na cidade de São Carlos.

Combate no bairro da Cascata

Num domingo à noite, estando os soldados de prontidão e os namorados tentando alguma comunicação através das grades do muro, chega um carro Ford com vários oficiais e logo em seguida foi dada a ordem para que um caminhão fosse para fronteira na Cascata, bairro de Águas da Prata, levando munições. A Revolução estava de fato começando! Um oficial inimigo infiltrou-se no batalhão e tentou enviar as armas que acabavam de chegar para a fronteira da Cascata.

Ele tinha certeza de que os ditatoriais já haviam se apoderado das armas dos poucos soldados revolucionários que lá se encontravam. Ele planejou ficar até mesmo com o caminhão que transportaria o material. Ficando a cidade sem defesa, ela seria tomada em pouco tempo. Após o ataque da tropa ditatorial em Poços de Caldas, tornou-se urgente a proteção nas divisas de Andradas, pois segundo informações, os inimigos já se encontravam ali concentrados. A 4ª Cia. Benedito Araújo, do 1º Batalhão da Milícia Civil achava-se em meados de julho de 1932, nas fronteiras paulistas, estendidas em uma frente de cerca de dois quilômetros, guardando as estradas – Andradas/São João da Boa Vista e Santo Antônio do Jardim/São João da Boa Vista. O P.C. da Cia. estava localizado nas imediações da Fazenda Paulicéia, onde se encontrava um grupo de combate, sob o comando do sargento Christovam Resende. O batalhão recebeu ordens para seguir para a fazenda, que requisitada pelos oficiais tornou-se QG do 1º Batalhão.

Os soldados que ali se encontravam preparavam o terreno e encontravam-se sujos e barbudos, quando para alegria geral chegou o caminhão que trazia os novos combatentes, ainda com as fardas novas limpas. O comandante do setor veio receber os novos combatentes e apresentou a todos o alojamento e o local que serviria de cela aos soldados rebeldes – o galinheiro. Para surpresa geral o jantar foi um verdadeiro banquete, pois ali havia um exímio cozinheiro que encontrou à sua disposição, muitos frangos para o abate.

Logo após o jantar, o comandante comunicou seus planos de ataque e a responsabilidade daquele setor, já que o inimigo encontrava-se a poucos quilômetros de distância, à espreita. Como os cães latiam muito e com o grande medo de serem atacados enquanto dormiam, foram designados 12 homens para a sentinela. No meio da noite, a tropa foi acordada e chamada às armas, pois foi ouvido um barulho estranho e poderia ser o inimigo aproximando-se. Amanheceu. Descobriram que o alarme fora falso outra vez!

Desta feita um morador da região, cansado com aquele movimento todo e não acreditando muito na revolução, atirou para o alto, para assustar a tropa, na esperança que fossem embora dali rapidamente. Por causa destes incidentes, o comandante ordenou que a tropa retraísse para um local mais plano, com área mais visível, distante dois quilômetros das imediações da fazenda Emboava. Maria vê quando o soldado sentinela da porteira, correndo pela estrada, atira o fuzil no meio do mato e desaparece por detrás do morro.

Maria Sguassábia com o irmão Antônio
Maria e o irmão Antônio, que se alistou e combateu ao seu lado nas trincheiras.

Ali residia, em companhia de sua filhinha Maria José e um irmão moço, Antonio que havia se alistado como voluntário da 4ª. Companhia. Diariamente, ela preparava para Antonio e os soldados de seu grupo, o alimento necessário, tornando-se então a cozinheira de todos eles. Outro relato guarda a mesma cena com detalhes diferentes: chegando à janela, ela viu um soldado, que estava de sentinela numa elevação próxima, passar correndo e atirar o fuzil junto à sua casa. A indignação de Maria não teve limites. Se pudesse, alcançaria o patife e lhe daria umas bofetadas.

Mas não teve tempo de refletir sobre o ato de covardia da sentinela. Até aquele momento, a guerra lhe parecia uma briga particular entre políticos de São Paulo e do Rio. Seu irmão Antonio, instalado com o batalhão, nas imediações da fazenda, tinha liberdade de visitá-la frequentemente, e assim, o conflito lhe parecia muito doméstico, pois conhecia também a maioria dos soldados ali alojados. No escuro, ninguém percebeu a manobra.

Acabou acomodando-se ao lado do irmão Antonio e bateu-lhe nas costas: Ele pensando que fosse um companheiro, não ligou. Mas quando a viu, ficou apavorado. Sua vontade era jogá-la pra fora do caminhão. Muito pálido, Antonio puxou-a para junto de si e baixinho intimou-a a descer: - Já, já, desce! Isto não é coisa pra mulher. Disse-lhe que estava louca, onde já se vira uma mulher no meio de soldados, armada como se fosse um homem. Ela estava decidida e não houve jeito. Maria permaneceu firme. É a mais velha. Está com 43 anos.

Se os irmãos se metem numa briga que ela não pode apartar, briga também ao lado deles, pronto! Antonio passa da fúria à súplica. Em vão. Os outros soldados na confusão da partida, nem notaram a sua presença. Diariamente ouvia falar em traições, deserções, em atrocidades cometidas pelos ditatoriais. No quartel mesmo, soubera de casos espantosos de covardia e negligência. Pelo rádio, Maria ouvia as notícias sobre a revolução. Um medo muito grande tomou conta dos moradores das fazendas da região.

Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo. A maioria das famílias de colonos foram recolhidas pelos fazendeiros e durante a fase de perigo habitaram os porões das casas-grandes, que por terem paredes de pedra, parecia ser o local mais seguro. As crianças não podiam brincar nos terreiros, nem frequentar as escolas. O pavor dominava a todos. Homens e mulheres, reunidos, rezavam dia e noite.

São João da Boa Vista começou a ser ameaçada pela tropa mineira concentrada em Poços de Caldas. O embarque dos soldados foi suspenso e os que ficaram começaram a ser treinados na cidade mesmo, para lutarem na fronteira ameaçada. Os soldados tinham a responsabilidade de não só defenderem a revolução, mas também suas cidades e seus familiares. Graças a isso, a apresentação de voluntários foi em massa e quase sempre, sem nenhum preparo para guerra e também praticamente sem munições.

Grupo armado no Joaquim José, ligado ao contexto de 1932
Tropa armada no Grupo Escolar Joaquim José, quartel em São João durante 1932.

O Grupo Escolar Joaquim José na praça central da cidade, foi requisitado para ser o quartel da 4ª Cia. do 1º Batalhão Paulista da Milícia Civil. Nas cercanias do Bairro da Cascata, pertencente a Águas da Prata, na época distrito de São João da Boa Vista. Foram enviados 40 soldados, para que vigiassem a fronteira, pois Poços de Caldas estava cheia de soldados ditatoriais - os inimigos. Faltavam armamentos, que todos esperavam que chegassem de São Paulo e nada, estes não chegavam.

Antonio aparece na fazenda para dizer-lhe que iam avançar. Maria teve um sobressalto. Fica aturdida e traça um plano. Correu à casa-grande e pediu ao administrador, que se preparava para partir rumo a São João com as mulheres e crianças da fazenda, para levar sua filhinha e deixá-la aos cuidados de seus familiares que residiam em São João da Boa Vista. Voltou à escola, examinou o fuzil abandonado pelo desertor.

E nesse instante, decidiu: Primo estava morto; não abandonaria Antonio. Acontecesse o que acontecesse, ia com ele. Apanhou, na capoeira, o fuzil do desertor, vestiu a farda que o irmão lhe dera para lavar, calçou meias pretas em lugar das perneiras. Estava decidida a “comprar a briga”. Esperou anoitecer. Quando o último caminhão passou rente à escola, correu atrás e subiu, conseguindo pegar a “rabeira”.

Maria vai à guerra

Maria Sguassábia com fuzil
Maria Sguassábia fardada, com o fuzil, na Revolução de 1932.

Antes de chegar ao seu destino, depois de meia hora de marcha, uma contra-ordem. O caminhão deveria voltar e a 4ª Cia ocuparia novamente as trincheiras na fazenda paulista. Poucas horas depois, Maria viu-se pela primeira vez debruçada num talude de trincheira, com o fuzil apontado para o nada da noite. Antonio insistiu ainda: -Deixe de teimosia.

Se quiser mesmo ajudar os revolucionários, vá para a cidade e fique na retaguarda, costure fardas, sirva numa cantina, num hospital de sangue, nos lugares, enfim, em que as mulheres costumam ajudar. Maria, indiferente a súplicas do irmão, olhava fixamente para o alto da colina, à distância, banhada de luar, onde supunha fosse aparecer o inimigo. Já dentro das trincheiras, se lembrou de que nunca em sua vida manejara arma de fogo e então percebeu que não sabia manejar o fuzil.

No entanto, até uma cartucheira recheada de balas ela conseguira. De dar tiro, porém, a única coisa que ela sabia fazer era puxar o gatilho. Mas para o tiro sair, devia haver alguma complicação técnica antes. Lá na colina banhada pelo luar, surgiram vultos. Maria mal teve tempo de pensar que vultos seriam aqueles e, uma saraivada de balas zunia sobre ela, pipocando chocho na terra mole da trincheira. O tenente Meira circulava entre os soldados, agachado, dando ordens.

De súbito, ele gritou: “Fogo!”

Felizmente, tudo correu bem e o combate terminou sem baixas para a tropa revolucionária. Em seguida, o Tenente Meira, superior imediato, percorreu toda trincheira, perguntando se havia alguém ferido. Quando, de repente, o tenente estacou! Estava diante de Maria. Ela bem que tentou engrossar a voz, mas seus cabelos, soltos ao vento, chicoteavam as suas faces. Seu irmão, que estava perto, foi logo dizendo para o Tenente: “É minha irmã”. Ela ficou firme.

1932

O tenente espumou de raiva. Parado diante dela, esbravejou: - A senhora é louca? Que é que está fazendo aqui? Volte para a cidade. Como é seu nome? - Maria Stela Rosa Sguassábia. - A senhora não compreende que, em vez de ajudar, vai atrapalhar? Mas, francamente! - Eu quero ficar, implorou-lhe Maria. Argumentou, justificou. O tenente estava irredutível: - A senhora não tem juízo? Como é que veio parar aqui? Já! Volte para a cidade. Furioso, o Tenente disse-lhe que não precisava de mulheres e sim de munições.

Ela teria que voltar para casa de qualquer jeito. Não queria saber de mulheres no meio de sua tropa. Alguns soldados reconheceram a professora da fazenda e interferiram. Alguém então sugeriu que antes dele tomar uma atitude definitiva, que fosse consultado o Estado Maior, que encontrava-se aquartelado em São João da Boa Vista. Outras vozes aplaudiram a ideia. O tenente vacilou. Bufou ainda, mas acabou concordando. O primeiro mensageiro que saiu para São João levou a consulta.

Foram poucos os dias que a 4ª Cia. sustentou sua posição na fazenda paulista. Com a queda de Aguaí (antiga Cascavel) e outras cidades da região em poder dos ditatoriais, todo o 1º Batalhão teve de se retirar rapidamente para Casa Branca, a fim de não ser envolvido. Caminhões com soldados e víveres saíam em direção das estradas. Os trens apitavam na Estação Mogiana, em barulhentas manobras aumentando a confusão.

Maria aproveitou para rever sua filhinha e seu pai. Mal conseguiu abraçá-los, teve que sair correndo em busca do caminhão que a transportaria. Só pela manhã terminou a retirada para Casa Branca, onde o Comando Geral de todo o Setor, compreendido entre Mococa e Aguaí (Cascavel), assumiu o compromisso de retomar as cidades paulistas, caídas em poder das tropas inimigas. Concentrados na linha de combate constitucionalista, os atacantes mudaram a tática e se entrincheiraram pelos abrigos que encontravam. Maria sente o coração aos pinotes.

Pela primeira vez, ela vê o inimigo. Agora, ele não é um vulto negro, indistinto, contra o qual atirava sem saber se tinha acertado ou não. O inimigo está ali, a três quilômetros, se tanto. E, à medida que se aproxima, pode ela escolher um homem qualquer, a esmo, enquadrá-lo na massa de mira e abatê-lo, como fazem os caçadores com as feras. A professorinha rural já sabe manobrar a arma com certo desembaraço. Só os “solavancos” do coração ainda perturbam um pouco a pontaria. A luta durou vários dias.

Houve vários feridos, leves e graves. Um soldado desconhecido morreu na trincheira.

Maria comportou-se durante toda a luta como verdadeira guerreira e com os seus companheiros de trincheiras, recebeu diretamente o ataque das tropas contrárias, sem uma reclamação, sem alimentação e mesmo água para beber. Manteve-se calma, tornando-se alvo da admiração e estima de todos os companheiros. Na segunda-feira, encharcada até os ossos, faminta, esfarrapada, Maria assistiu à debandada do inimigo.

Mal, porém, a tropa se refez do choque violentíssimo, receberam ordens para cercar a qualquer preço a cidade de Vargem Grande alguns quilômetros adiante.

CREIO no pavilhão da Treze Listas,
Na Santa União de todos os paulistas,
Na comunhão da terra Adolescente,
Na remissão de nossa gente,
Numa ressurreição do nosso bem,
Na vida eterna de São Paulo,
Amém.
Guilherme de Almeida

Maria na trincheira

Ela aponta na direção dos vultos negros e movediços, puxa o gatilho. Sente uma pancada terrível no ombro.

Quase caiu de costas com o recuo da arma, por não saber que tinha que encostar a coronha ao ombro. Meio atordoada, armou novamente o fuzil, apontou: outra pancada no ombro; depois outra, e mais outra. Reanima-se. Manobra o fuzil, puxa o gatilho de novo. Outra pancada. Mais outra, mais outra. Antonio resmungava ainda. Depois da quinta pancada, o percussor bateu em seco um estalido metálico. Estava sem munição. Olhou desesperada para Antonio. Não sabia encher o carregador da arma. Ele, mudo, com maus modos, tirou-lhe o fuzil da mão.

Puxou o ferrolho para trás; levou-o à frente; torceu-o à direita, ensinou-lhe a remuniciar a arma e seco disse-lhe: “Agora, é só puxar o gatilho. Está armado. Para armar novamente, faz a mesma coisa. Entendeu?”. As balas, porém, continuavam a zunir e a ricochetear nas pedras, produzindo um zumbido metálico impressionante. Parecia-lhe que o inimigo dava mais tiros por minuto do que os seus companheiros da 4ª Cia. Por perto dela, alguém gemia e praguejava. Os vultos desapareceram da colina.

Quando a madrugada começou a despontar, o inimigo cessou o fogo. Maria verificou que estava com os braços exaustos e que seu ombro direito estava roxo, dolorido, pisado de sangue, de tantos “coices” do fuzil. Mas é tomada por uma alegria diabólica! O coração ficou limpo, aliviado, quando percebeu que o inimigo recuou. É dia claro. O tenente ordena a cessação do fogo. Maria tinha tudo que pretendera dizer aos ditatoriais, isto é, que se muitos homens são medrosos, há mulheres que sabem brigar.

Há mulheres que sabem brigar.

Coluna Romão Gomes em contexto de combate
A Coluna Romão Gomes, em que Maria combateu.

Como ela insistia em ficar, seu caso foi levado ao Comandante da Coluna. O Estado-Maior, entretanto, não quis assumir a responsabilidade da decisão e remeteu a consulta diretamente ao comandante supremo dos exércitos naquele setor, o capitão Romão Gomes, em seu Quartel General em Águas da Prata. Ao contrário do que se esperava, Romão Gomes não se importou com a presença de Maria, consentindo que ela continuasse combatendo.

Certificado de participação de Maria Sguassábia
Certificado de participação de Maria na Revolução de 1932.

Deu gostosas gargalhadas e respondeu: - Bonito será para ela, se resistir, enquanto muitos homens barbados estão fugindo ao ouvir os primeiros tiros. Será um exemplo para todos. A seguir, deu a ordem: - Pode ficar. Se aguentar o repuxo, servirá de exemplo aos medrosos. Se não aguentar, pode abandonar as trincheiras, quando quiser. Maria, então, é incorporada à 4ª Companhia do 1º Batalhão Paulista da Milícia Civil, com o nome de Mário Sguassábia.

O tenente Mário Meira com o seu grupo, seguido de perto por Maria, foi enviado, às pressas, para tentar um envolvimento pela esquerda, antes que o inimigo se abrigasse. Mas era tarde. Os soldados do tenente Meira foram recebidos sob tremenda fuzilaria. A situação tornou-se dramática. Corriam risco de serem massacrados. Maria resmungou, com seus botões: “É por causa desses relaxamentos que eu me meti nesta guerra”. O capacete de Maria é “riscado” por um projétil. Alguns morrem.

E os soldados inimigos “cresceram” diante das posições da 4ª Cia. Súbito, surge na planície o trem blindado, arma de guerra improvisada pela indústria paulista. Vem solene e vagaroso. Tomado de surpresa, o inimigo suspende o fogo. Meio desabrigada, a soldadesca inimiga corre em todas as direções e é varrida pelas metralhadoras de bordo. Apanhou grande parte das tropas atacantes em dois fogos, fazendo-lhes grande mortandade.

O trem blindado assustou as tropas mineiras, que precavidas contra ele, esconderam-se nos montes de lenha e arrancaram grande parte dos trilhos. As balas se chocaram contra a blindagem, produzindo um ruído que Maria comparou ao de uma máquina de costura picando aço. De repente, porém, uma das janelas da locomotiva se entreabre. O maquinista quer “espiar a guerra”. Uma bala corta, rápido, sua curiosidade, matando-o. Os soldados a bordo descontrolaram-se.

E, solene, como chegou, o trem blindado fez marcha-à-ré, deixando a 4ª Cia. sozinha novamente com o inimigo, que de novo “cresce” sobre as suas posições agora quase insustentáveis.

Maria dá ordens de prisão a um soldado inimigo

Maria, mal refeita do combate, faz a marcha a pé, com tremendo sacrifício. Mas não se queixou, nem reclamou regalias, nada. Era um soldado como outro qualquer. Ela confessou mais tarde, que só nesse dia sentiu como era duro guerrear. Deviam chegar às imediações da cidade até às 4 horas da madrugada. Assim exigia o plano que Romão Gomes traçou.

Para a tomada de Vargem Grande, andou uma noite toda, em caminhões e a pé e somente uma natureza forte como a de Maria, podia aguentar os sofrimentos próprios daquela caminhada, transpondo vales, montes, brejos, a fim de surpreender o inimigo entre vários fogos. Sob as ordens do tenente Meira, foram cortadas as comunicações telefônicas dos inimigos. Capitão Homero ordenou que fosse colocada uma metralhadora em cima de uma residência, onde eles haviam entrado pelos fundos e que ficava bem na praça central.

Entrada de combatentes a cavalo no contexto da Revolução de 1932
Combatentes a cavalo na Revolução de 1932.

Maria foi uma das primeiras a atender a ordem de “avançar”. Ocuparam a cidade de Vargem Grande, entre saraivada de balas e rajadas de metralhadoras. Ao romper do dia, atacaram também pela retaguarda, de surpresa, as posições inimigas e após duas horas de fogo, dominam as últimas trincheiras e aprisionaram cerca de uma centena de soldados e alguns oficiais. Dali seguiram para o Bairro de Pedregulho. A viagem foi feita a pé durante a noite, atravessaram com precaução os obstáculos do terreno.

Só pela madrugada chegaram nas imediações do Pedregulho e ficaram preparados, em posição de ataque. Maria, seu irmão Antonio e mais dois soldados, avistaram grupamento que estava acampado atrás da igreja local e decidiram cercá-lo. Aproximou-se de alguns deles que estavam deitados e de arma em punho gritou: Rendam-se! Os soldados mineiros quando ouviram a ordem de rendição vinda dos soldados constitucionalistas, não acreditaram no que estava acontecendo. Nenhum deles esboçou qualquer movimento de reação, nem procuraram suas armas.

Limitaram-se a comentar, admirados: “É uma moça”.

Enquanto isto, o Tenente que os comandava e estava um pouco retirado, tentou fugir. Maria foi atrás dele e apontou-lhe o fuzil e deu-lhe voz de prisão. Depois de preso, ele se recusou a entregar as armas. Já achava demais o fato de ser preso por uma mulher. Nesta altura, quando o tenente Meira alcançou as primeiras trincheiras de Pedregulho, não acreditou no que via.

Quatro bravos soldados seus de armas apontadas para um grupo de inimigos. Todos eles de mãos levantadas, menos um tenente chamado João Batista Silveira da Força Pública de Minas Gerais. Este blasfemava, quase em choro. Quando aproximou-se, verificou que o oficial havia sido preso por Maria, que com os cabelos revoltos e as faces afogueadas, discutia com ele, que não aceitava ser preso por uma mulher. Ela, com seu fuzil apontado para o peito do oficial, não dizia nada.

Ao avistar o tenente Meira, seu comandante, perfilou-se e disse: -Pronto, meu Tenente, o que é preciso para que este oficial se renda? O tenente Meira ficou mudo! De espanto com a ousadia de Maria. Avançar sobre a trincheira do inimigo, já era coragem de sobra. Capturar um tenente, e logo quem, o comandante de Pedregulho! -Mas isto é um absurdo! – queixava-se o homem. Um oficial ser preso por uma mulher! A resposta imediata foi mais dirigida ao comandante, que a ela própria.

Disse o tenente Meira: -Não se envergonhe de ser prisioneiro de uma mulher, Tenente, porque indiscutivelmente o senhor está tendo a honra de ser aprisionado pelo mais valente Soldado Paulista. O oficial comandante, espumando de ódio e sentindo-se humilhado, respondeu: -Eu estou pronto a me entregar a um homem oficial, porém, a um soldado e ainda mais uma mulher, nunca. Então, fazendo-lhe a vontade, o Tenente Meira desarmou-o e em seguida prendeu-o. Esta façanha valeu a Maria uma promoção a Cabo.

Depois de alguns dias de merecido descanso no aconchego familiar, os soldados receberam ordens de partirem imediatamente para São Sebastião da Grama, onde os ditatoriais estavam resistindo ao ataque das forças de São José do Rio Pardo e Divinolândia (Sapecado). Centenas de soldados foram de trem e outra grande quantidade seguiu em caminhões.

De Vargem Grande seguiram caminhões e automóveis até as imediações da cidade de São Sebastião da Grama, a nova frente de batalha. Maria, estava sempre na vanguarda, porque fazendo parte do grupo do Sargento Christovam, a qual não podia ser poupada, pois por sua eficácia e coragem, era sempre uma das primeiras e onde havia o maior perigo, ela ali se encontrava. Em poucos minutos, desencadeou-se a pior artilharia a que a tropa paulista havia sido submetida.

Metralhadoras vomitavam balas em todas as direções e os soldados, surpreendidos, atiraram-se ao chão, protegendo seus corpos nos barrancos entre as pedras, sem poder revidar. Ficaram todos inertes, com os narizes afundados no chão, sem poder movimentar um dedo sequer. O intenso tiroteio só cessou pela manhã. Foi Maria a primeira a erguer-se do chão e, numa demonstração de profunda coragem, atravessou o perigoso trecho. Seu exemplo foi seguido de perto por seu irmão Antonio, que durante todo o movimento nunca a abandonara.

Nesse combate Maria experimentou, pela primeira vez, o amargor da derrota. O setor estava fortificado pelo inimigo. Em 4 dias, a 4ª Cia. se empenhou em 10 combates intensos, muitos dos quais de uma violência incrível. Em todos eles Maria assistiu a morte de companheiros, viu-os sair carregados, em padiolas. Viu homens chorando. Viu companheiro desertar. Viu o diabo. Como sempre, ela lutou desesperadamente e no dia seguinte, com todo merecimento, foi promovida a Sargento.

Memória

E antes que pudessem tomar São Sebastião da Grama, a 4ª Cia. recebeu ordens para rumar direta e apressadamente para Campinas, pois não havia mais nada a fazer naquele setor. Até a capital São Paulo, estava ameaçada pelo norte. Promovida a Sargento, Maria chora a derrota dos Constitucionalistas. É o fim da guerra! O destino do movimento constitucionalista estava selado. Campinas também devia ser evacuada.

Em seguida, Maria recebeu ordens de comandar um pelotão que deveria guarnecer a retaguarda do 1º Batalhão, que, de trem, embarcaria para São Paulo. Assim, a Coluna Romão Gomes foi dispersada em meio à perseguição dos adversários. O 1º Batalhão largava numa extremidade da cidade, na outra entravam as tropas ditatoriais. Estava cumprida a missão de Maria, e a Revolução Constitucionalista, terminada. Chorando de ódio, Maria e Antonio, sem outra alternativa, perambularam pelas ruas convulsionadas da cidade.

Pensavam num jeito de voltar a São João. Já não havia mais nada a fazer depois de quase três meses de lutas e sacrifícios. Agora, era evitar que caíssem prisioneiros. Maria pensou ainda em como esconder seu fuzil. Doía-lhe imaginá-lo servindo aos ditatoriais. Juntamente com seu irmão e outros, procuraram refúgio, mas a impressão que tinham era de que não havia ficado viva a alma na cidade. De Campinas, sem recursos, cansada, juntamente com o seu irmão, Maria Sguassábia decidiu que deviam retornar ao seu lar.

Antonio tentou ainda demovê-la da ideia de seguirem para São João. Seriam 150 quilômetros a fazer a pé. Ela insistiu. O jeito era para São João da Boa Vista, como civis. Passaram fome e sede, cortaram campos, brejos e matas, foram picados por formigas, mataram cobras, caminharam, fugindo das estradas cheias de inimigos. Pelo caminho encontraram Tropas do Governo Federal que haviam ficado na retaguarda e com medo de serem reconhecidos, esconderam-se no mato. Marcharam dois dias e duas noites, evitando as estradas.

Ao passarem por Aguaí (Cascavel), onde pretendiam conseguir algo para comer e beber, perceberam movimentos de patrulha. Ela soube pelo dono do barzinho da beira da estrada, que sua cabeça estava “a prêmio”. O tenente João Batista, o que fora preso por Maria em Pedregulho - montara ali um posto de guarda e garantia um prêmio de dez contos de réis por sua captura! Sabia que residindo em São João e uma vez terminada a Revolução, Maria tentaria voltar para sua casa. Mas o tenente não teve o gosto de lhe pôr as mãos!

Precisando trabalhar para sobreviver, pois, por exigência do tenente João Batista, foi exonerada do serviço público, Maria conseguiu um trabalho como costureira, ajudante de alfaiate. Mudou-se para um chalezinho modesto, com alpendre na frente e muitas latas de avenca, na Rua Luiz Gama, 244, num antigo bairro da cidade. Certo dia, já convalescente, vários meses depois de terminada a guerra, costurava, na varanda de sua casa, quando, no portão, surge um homem. Magro, barbudo, irreconhecível.

Era Primo, tido como morto nos combates de Eleutério. Havia caído prisioneiro. Felizmente, através de uma amiga de infância, que tinha conhecido junto ao Secretário de Educação da época, Maria obteve a sua reintegração na Educação. Lecionou durante algum tempo e, quando Armando Salles Oliveira era Governador, conseguiu ser nomeada inspetora de alunos do “Colégio Estadual Cristiano Osório de Oliveira”.

Quando pleiteou a regalia do artigo 30 da Constituição Estadual, que concedia aumento de salário aos funcionários combatentes de 32, teve de provar, exaustivamente, sua participação na luta. Ninguém queria acreditar que “uma mulher tivesse, de fato, combatido nas trincheiras”. Escreveu para o tenente Mário Meira, pedindo um documento que provasse que estivera lutando na revolução e este escreveu um relatório pormenorizado de sua atuação como soldado revolucionário, como podemos ler mais adiante.

Oração Ante a Última Trincheira

Guilherme de Almeida

Agora, é o silêncio. É o silêncio que faz a última chamada: - Martins! Miragaia! Dráuzio! Camargo! Paulo Virgínio! E é o silêncio que responde: - Presente! Depois, será a grande asa tutelar de São Paulo - Asa que é dia e noite e sangue e estrela e mapa – descendo, petrificada, sobre um sono que é vigília. E aqui ficareis, Heróis – Mártires, plantados, firmes, para sempre neste santificado torrão de chão paulista.

Para receber-vos, feriu-se ele da máxima de entre as únicas feridas, na terra, que nunca se cicatrizam. Porque delas uma imensa coisa emerge e impõe-se, que as eterniza. Só para o alicerce, a lavra, a sepultura e a trincheira se tem o direito de ferir a terra.

E, mais legítima que a ferida do alicerce, que se eterniza na casa, a dar teto para o amor, a família, a honra, a paz; Mais legítima que ferida que da lavra, que se eterniza na arvore, a dar lenho para o leito, a mesa, o cabo da enxada, a coronha do fuzil; Mais legítima que a ferida da sepultura, que se eterniza no mármore, a dar imagem para a saudade, o consolo, a bênção, a inspiração; Mais legítima que essas feridas é a ferida da trincheira, que se eterniza na Pátria, a dar toda a pura razão-de-ser da casa, da árvore e do mármore.

Este cavo trapo de terra – corpo místico de São Paulo, em que ora existis, consubstanciados, mais que corte de alicerce, sulco de lavra, cova de sepultura é rasgão de trincheira. E esta, perene, que provais é a nossa última trincheira. Esta é a trincheira que não se rendeu: A que deu à terra o seu suor, A que deu à terra a sua lágrima, A que deu à terra o seu sangue! Esta é a trincheira que não se rendeu: A que é a nossa bandeira gravada no chão Pelo branco do nosso ideal Pelo negro de seu luto, Pelo vermelho do nosso coração!

Esta é a trincheira que não se rendeu: A que, atenta, nos vigia; A que, invicta, nos defende; A que, eterna, nos glorifica! Esta é a trincheira que não se rendeu: A que não transigiu, A que não esqueceu, A que não perdoou! Esta é a trincheira que não se rendeu: A que vossa presença, que é relíquia, Transfigura a consagra num altar Para o vôo até Deus da nossa fé!

E, pois, ante este altar, alma de joelhos, A voz rogamos: Soldados Santos de 32, Sem armas em vossos ombros, velai por nós!; Sem balas na cartucheira, velai por nós!; Sem pão em vosso bornal, velai por nós!; Sem água em vosso cantil, velai por nós!; Sem galões de ouro no braço, velai por nós!

Escrito pelo Tenente Mário Meira em 1935

Anos depois, o próprio Exército registraria os mesmos fatos em sua língua seca de caserna — e nem assim conseguiu esconder a coragem da professora.

«A 4ª Companhia B. Araújo, do 1º Batalhão da Milícia Civil, achava-se em meados de julho de 1932 nas fronteiras paulistas. Encostada às nossas divisas erguia-se uma modesta casa, onde a Câmara Sanjoanense mantinha uma escola, dirigida pela professora Maria Stela Sguassábia. Insistentemente, ela pedia ao Comando autorização para ingressar como voluntária — negada sempre, em vista do seu sexo. Em fins de julho, atacado o grupo de que fazia parte, tomou o lugar de um voluntário que desertara e, de fuzil em punho, defendeu valentemente as suas posições. Não hesitei: incorporei-a à tropa com o nome de Mário Sguassábia.»

«D. Maria Stela Sguassábia bateu-se durante toda a luta como verdadeira espartana. Com os companheiros de trincheira, recebeu diretamente o ataque das tropas contrárias — sem um desfalecimento, sem alimentação e mesmo sem água para beber —, e manteve-se calma, sem soltar uma queixa, tornando-se alvo da admiração e estima de todos.»

Na revista da Coluna passada pelo General Klinger, em Campinas, Maria foi apresentada ao general e à sua comitiva. Ao secretário da Justiça, Dr. Waldemar Ferreira, coube a frase que ficaria: «O seu nome, D. Maria Sguassábia, e o seu heroísmo serão imortalizados pela história de São Paulo e pela história Pátria.»

«Como comandante da 4ª Companhia, temos a dizer que a nossa tropa sempre teve por D. Maria Stela Sguassábia, a modesta professora, a maior estima, respeito e consideração — a par da admiração que produz o sacrifício aliado à coragem e à bravura.» Assim encerrava o relatório o ex-1º Tenente Mário dos Santos Meira, em São João da Boa Vista, em janeiro de 1935.

Ao fim, Meira fazia uma ressalva: «O nome verdadeiro de nossa heroína é Stela Rosa Sguassábia; mas, batizada como Maria Stela, sempre a conhecemos por esse nome.»

Os anos de silêncio e o reconhecimento tardio

Passada a guerra, Maria voltou à vida miúda da professora — e, por muito tempo, ao silêncio. Dentro de casa, a família percebia que, depois do conflito, ela havia se fechado: a façanha de 1932 ficou guardada, quase como assunto encerrado.

Maria Sguassábia já madura, em 1957
Maria Sguassábia já madura, em 1957.

O reconhecimento viria tarde, e pela imprensa. Nos anos 1950, reportagens da Revista do Globo (1952) e da revista Manchete (1957) reencontraram a professora que pegara em armas e a tiraram da condição de lenda para a de personagem documentada — foi preciso, mais uma vez, provar que uma mulher de fato havia lutado. Maria envelheceu em São João da Boa Vista, viu a filha Maria José casar-se e teve os netos Maurício e Henrique.

Maria Sguassábia com ex-combatentes em 1934
Maria com ex-combatentes, em 1934.
Maria Sguassábia em capa de revista, 1957
Maria em capa de revista, 1957 — o reconhecimento de sua história veio tarde, pela imprensa.

O reconhecimento, porém, custou caro. Para receber a regalia do artigo 30 da Constituição estadual — um aumento devido aos combatentes de 1932 —, Maria teve de provar, à exaustão, que uma mulher de fato lutara nas trincheiras; o despacho da comissão chegou a tratá-la como “entidade lendária”. Vinte anos depois da guerra, o aumento somava irrisórios duzentos cruzeiros. Antes disso, fora exonerada do magistério por pressão de um dos oficiais que enfrentara, e só voltou à escola depois de um abaixo-assinado de mais de cem sanjoanenses.

Para os netos, Maurício e Henrique Marsiglia, a avó austera — que “trouxe o regime militar para dentro de casa” — convivia com uma mulher de rotina afetuosa: a missa diária, o cuidado com as flores do jardim, as galinhas no quintal, a massa caseira de domingo, a leitura voraz e a costura de mão cheia. Aposentou-se em 1957.

7º Núcleo de Correspondência—MMDC—”Soldado Maria Sguassábia”

Em 11 de abril de 2012, foi fundado em São João da Boa Vista o 7º núcleo de correspondência “Soldado Maria Sguassábia”, em preparação às festividades dos 80 anos da Revolução Constitucionalista na região. Um blog também foi criado para manter atualizadas as informações necessárias.

Carta de Maria Sguassábia em homenagem aos soldados de 1932
Carta de Maria Sguassábia em homenagem aos soldados de 1932.

Fundado em 11 de abril de 2012, no Salão Nobre da Prefeitura, o núcleo teve como fundadora e presidente, eleita por unanimidade, a professora Neusa Maria Soares de Menezes. Seu objetivo é pesquisar e difundir a memória dos veteranos de 1932 ligados a São João da Boa Vista. Na mesma reunião decidiu-se erguer na cidade um Memorial da Revolução de 32 e instalar, na antiga estação ferroviária, a Sala Herbert Levy — com biblioteca doada à cidade —, inaugurada em 14 de julho de 2012, nos 80 anos da revolução.

O reconhecimento, enfim, chegou. Em 8 de março de 2024, Dia da Mulher, os restos de Maria foram trasladados, com honras cívico-militares, para o Mausoléu da Revolução Constitucionalista, no cemitério de São João da Boa Vista — realizando o desejo de descansar ao lado dos companheiros de 1932. E em outubro do mesmo ano, no Theatro Municipal, ela recebeu, postumamente, o título de Doutora Honoris Causa em Educação, concedido pelo UniFAE e pelo UniFEOB.

Maria Stela Rosa Sguassábia faleceu em 14 de março de 1973, aos 84 anos. Está sepultada no cemitério de São João da Boa Vista, onde recebeu honras militares — salva de tiros e toque de silêncio prestados pela guarnição do Exército. Foi uma heroína. É a nossa Joana D'Arc.

Monumento do Obelisco ligado à memória constitucionalista
O Obelisco aos Heróis de 32, em São Paulo, símbolo da memória constitucionalista.

9 De Julho
Enquanto houver injustiça
Enquanto houver sofrimento
Enquanto a terra chorar
Enquanto houver pensamento
Enquanto a História falar
Enquanto existir beleza
Enquanto florir paixão
Enquanto o sonho for sonho
Enquanto o sangue for sangue
Enquanto existir saudade
Enquanto houver esperança
Enquanto os mortos velarem
É sempre 9 de julho!
Guilherme de Almeida

Cronologia

  1. Nasce em Araraquara, em 12 de março de 1889, com o nome Stela Rosa Sguassábia.

  2. Ainda criança, muda-se com a família para São João da Boa Vista.

  3. Forma-se para o magistério e leciona em escolas rurais da região.

  4. Casa-se em São João da Boa Vista, em 22 de abril, com José Pinto de Andrade; fica viúva ainda durante a gravidez.

  5. Nasce a filha, Maria José de Andrade, em 29 de janeiro.

  6. É professora municipal em São João da Boa Vista desde 5 de setembro.

  7. Em 9 de julho eclode a Revolução Constitucionalista; a guerra chega à região de fronteira e à Fazenda Paulicéia, onde Maria leciona.

  8. Tem o alistamento recusado por ser mulher; após a deserção de uma sentinela, toma a farda e o fuzil e segue a tropa. É incorporada à 4ª Companhia sob o nome de Mário Sguassábia.

  9. Combate rumo a Pedregulho e à Grama; captura um tenente inimigo — episódio que se tornaria o núcleo de sua memória heroica — e é promovida a cabo e depois a sargento.

  10. Com a rendição paulista, em outubro, dispersa-se e volta a pé a São João da Boa Vista.

  11. De volta à vida civil e exonerada do serviço público, sustenta-se com a costura.

  12. Um atestado municipal registra sua atuação; sanjoanenses assinam abaixo-assinados pedindo seu reconhecimento.

  13. O tenente Mário Meira escreve o histórico de sua participação na guerra.

  14. A Revista do Globo noticia seu requerimento pelo artigo 30, que beneficiava os combatentes de 32.

  15. A revista Manchete reencena episódios da guerra e recolhe seus depoimentos.

  16. O Globo a retrata aos 83 anos, em reportagem de Victor Passos.

  17. Morre em São João da Boa Vista, em 14 de março, e é sepultada na cidade.

  18. A cidade dá seu nome a uma rua no Jardim Molinari — a Rua Maria Sguassábia.

  19. É fundado em São João da Boa Vista o 7º Núcleo de Correspondência MMDC "Soldado Maria Sguassábia", presidido por Neusa Maria Soares de Menezes, para preservar sua memória.

  20. Seus restos mortais são trasladados ao Mausoléu da Revolução Constitucionalista de 1932, no Cemitério Municipal São João Batista.

Fontes e pesquisa

O dossiê reúne memória familiar, registros locais e estudo acadêmico sobre a professora associada à Revolução Constitucionalista de 1932.

Referências

Consulta pública

Bibliografia

  • Documentos primários: relatório do Tenente Mário dos Santos Meira (1935), relato oficial da atuação de Maria como soldado na Revolução Constitucionalista de 1932; "Oração Ante a Última Trincheira", de Guilherme de Almeida; ata de fundação do 7º Núcleo de Correspondência MMDC "Soldado Maria Sguassábia" (11 de abril de 2012), com Neusa Menezes eleita presidente.
  • Imprensa: Revista do Globo (1952) e revista Manchete (1957), reportagens que recuperaram a história da professora que pegou em armas e forçaram o reconhecimento oficial de sua participação.
  • Acervo e instituições: pesquisa documental de Neusa Menezes; entrevistas com familiares (2008); Sociedade dos Veteranos de 32 / MMDC; Prefeitura de São João da Boa Vista; acervo da Revolução de 32 doado pela família Herbert Levy.