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Mulheres na memória

Niquita

Niquita

Abertura

Niquita ficou na memória sanjoanense por sua vida nas ruas, marcada por abandono, sofrimento e muitas perguntas sem resposta. Eu costumava buscar entre parentes e amigos informações sobre essa mulher. Ninguém sabia nada com precisão, apenas repetia especulações e suposições. Mas será que nenhuma boa alma se incomodava com a situação de Niquita? De onde ela veio?

Por que parecia sempre tão sozinha? O que lhe fizeram para que fosse jogada naquela situação e ficasse indignada, enlouquecida? Ora, diziam-me, ela simplesmente é louca. Niquita discursava ininterruptamente, sem que ninguém a levasse a sério. Certa manhã, disse todos os palavrões existentes em língua portuguesa, repetidamente, irada. Tanta amargura tinha de ter uma razão. Ou várias. Quis encontrar Niquita, conversar com ela, mas não consegui. Crianças são muito vigiadas e sem autonomia. Até que Niquita morreu. Foi um choque.

Trajetória

Quem contou não tinha detalhes sobre o fato. Onde enterraram Niquita? E os cachorros, alguém iria cuidar deles? Do que ela morreu? Sofreu, estava sozinha? Jamais consegui dados sobre essa mulher. Talvez algumas pessoas se preocupassem com ela ou mesmo tenham cuidado, um pouco, dela, mas não pude confirmar nada. Assim é a história de muitas mulheres. Sofrimentos, injustiças, reclamações jamais proferidas ou ouvidas. Sem amparo, sem ajuda, sem respeito, sem amor, sem dinheiro.

Pena que não tenham todas saído para a rua, seguidas de seus filhos, seus cachorros, seus bens mais preciosos, gritando impropérios contra a desigualdade social, racial, sentimental, estrutural. Niquita não era louca. Estava coberta de razão. Não sei, em detalhes, o que aconteceu em sua vida, mas, só de olhar para ela, ficava evidente que não foi nada de bom. O que fazer quando a dor é grande e a incompreensão é maior ainda?

Embora as mulheres tenham conseguido avançar bastante na conquista de seus direitos, muitas ainda são espancadas dentro da própria casa, estupradas por pais, padrastos, irmãos e tios, assassinadas por maridos, ex-maridos, ex-namorados, desrespeitadas no local de trabalho, humilhadas dentro e fora da família. E tudo acontece em silêncio, quase sem reclamação.

Memória

Faltam direitos como o controle do próprio corpo, equipamentos sociais de amparo à maternidade, salários dignos e equiparados aos dos homens e participação proporcional nas instâncias de poder. Revendo o passado, é possível entender por que Niquita impressionava todo mundo: expunha seu infortúnio publicamente, nos moldes de um bloco carnavalesco, e ainda reclamava sem parar, em altos brados, exatamente como se deve fazer”.

Niquita e o Dia Internacional da Mulher — artigo de Luiza Nagib Eluf, Folha de S.Paulo, 8/3/2007.

“Na infância, passava as férias na casa de meus avós, em São João da Boa Vista, interior de São Paulo. A residência deles ficava na avenida principal, que, tempos atrás, não tinha muito movimento. Da sacada de meu quarto, eu observava carroças, bicicletas, homens a cavalo, alguns carros. Nada muito interessante, a não ser Niquita. Quando ela passava, eu ganhava o dia. Niquita era uma preta velha, miserável, louca e carismática. Moradora de rua, vivia acompanhada de cachorros vira-latas.

Vez por outra, “desfilava” em andrajos bem no meio da avenida, acompanhada dos cães, muito parecidos com ela: esqueléticos, sarnentos, esfomeados, desenganados da vida. Não sei se Niquita era velha ou moça com aparência de idosa por causa dos maus-tratos, do sofrimento, do abandono, da pobreza. Tampouco sei se era mesmo louca. Diziam que era porque “falava sozinha” o tempo todo. Disparava impropérios, aos gritos, em seu itinerário para lugar nenhum, rodeada da matilha, todos andando juntos, porém sem rumo definido.

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