Introdução
Orides Fontela construiu uma das vozes mais precisas da poesia brasileira. Sua obra nasce do atrito entre silêncio, pensamento, precariedade material, leitura intensa e uma relação difícil com a própria vida pública.
Sua poesia trabalha com rigor, secura e assombro. Entre a experiência pessoal e a palavra depurada, Orides transformou fragilidade, inteligência e solidão em uma obra de permanência rara.
Origem
Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu em São João da Boa Vista em 24 de abril de 1940, às 23 horas, na Rua Oscar Janson, nº 18. Era filha de Álvaro Fontela, carpinteiro e plainador, e de Laurinda Teixeira Fontela, dona de casa. A família tinha poucos recursos, mas aparece no acervo como uma casa de trabalho, afeto e imaginação.
A mãe alfabetizou Orides nas primeiras letras. O pai, embora analfabeto, tinha inteligência viva e contava histórias à filha todas as noites. Mais tarde, Orides lembraria esse repertório oral como uma espécie de origem remota de sua relação com a palavra, antes mesmo da biblioteca e da escola.
A poeta teve uma irmã que morreu ao nascer, presença silenciosa que reaparece no “Soneto à minha irmã”. Essa perda precoce ajuda a entender a maneira como o acervo aproxima biografia e poesia: nem todo poema é documento direto, mas muitos carregam experiências familiares transformadas em linguagem.
Na infância, Orides estudou no Grupo Escolar Joaquim José e depois no Ginásio São João. A cidade aparece nos depoimentos como cenário de deslocamentos frequentes: a escola, a biblioteca, as ruas de paralelepípedos e o cinema, onde ela costumava ir com o pai.
Os relatos de pessoas que a conheceram menina insistem em sua intensidade: riso e choro difíceis de conter, isolamento, comentários em voz alta no cinema, gestos que chamavam atenção. É importante ler esses depoimentos como lembranças de época, não como definição da pessoa. Eles mostram como uma sensibilidade incomum foi muitas vezes percebida pela cidade como estranhamento.
Ainda adolescente, Orides começou a publicar poemas nos jornais locais, sobretudo em O Município. Ela própria reconheceria que esses primeiros textos pertenciam ao gosto literário do interior, ligados a datas comemorativas e formas tradicionais. O salto posterior, da poeta municipal à autora reconhecida pela crítica, tornou-se para ela um problema real e quase misterioso.
Formação
A formação de Orides não veio de uma biblioteca familiar ampla. Ela se construiu por mediações locais: a prima Ana Maria Salomão, o senhor Oliveira Neto, que lhe emprestava livros, a Sociedade de Cultura Artística, as bibliotecas da cidade e Madalena de Oliveira Azevedo, que lhe fazia chegar o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo.
Essa rede era pequena, mas decisiva. Orides não tinha dinheiro para comprar jornal ou livro com regularidade; por isso, cada empréstimo, cada biblioteca e cada leitura funcionavam como abertura para um mundo intelectual maior. A própria poeta chamaria esse início de precário, mas também de uma escrita “selvagem”, feita sem crítica, sem freio e sem saber exatamente aonde chegaria.
David Arrigucci Jr., que a conhecia de São João, leu seus poemas nos jornais da cidade. Durante algum tempo, viu neles uma poesia ainda convencional, presa a formas herdadas. Na década de 1960, porém, encontrou no jornal O Município um poema que lhe pareceu extraordinário: “Elegia I”.
A partir desse poema, Arrigucci procurou Orides e perguntou se havia outros textos. No dia seguinte, ela lhe entregou um fichário preto com um volume grande de poemas. Ele leu, assinalou os textos e percebeu ali matéria suficiente para mais de um livro.
Arrigucci levou poemas de Orides a Décio de Almeida Prado e José Aderaldo Castello, ligados ao Suplemento Literário. Os textos impressionaram os leitores e foram publicados, abrindo para Orides um caminho fora do circuito sanjoanense.
Em 1966, Orides mudou-se para São Paulo. Estudou Filosofia na USP e passou a circular em um ambiente intelectual mais exigente. Esse deslocamento não apagou a origem, mas deslocou sua poesia para outro patamar de leitura, crítica e publicação.
Sobre o próprio método, Orides dizia não ter rotina. Anotava em cadernos, em livros alheios e em pedaços de papel; depois deixava o material descansar. Chamava parte desse processo de inspiração, embora recusasse o romantismo fácil. A poesia nascia de impulso, mas também de depuração.
Obra
A estreia em livro veio com Transposição, publicado em 1969 pelo Instituto de Cultura Hispânica da USP. Orides via esse primeiro livro como obra ainda clara, jovem e sanjoanense, mas já atravessada por uma linguagem abstrata e por uma intuição de estar sempre “a um passo de” alguma coisa.
Helianto, publicado em 1973 pela Duas Cidades, consolidou a presença de uma poeta formada pelo estudo de Filosofia e pela tensão entre palavra, forma e silêncio. Antonio Candido teve papel importante na publicação e no reconhecimento inicial da obra.
A crítica passou a destacar em Orides a economia verbal, a recusa do sentimentalismo e a força da palavra essencial. Manuel Bandeira, Drummond e João Cabral aparecem como referências possíveis: não por imitação, mas pela precisão, pela contenção e pela luta com a linguagem.
Em Alba, de 1983, Orides alcançou reconhecimento mais amplo e recebeu o Prêmio Jabuti de Poesia. Ela mesma via o livro como ponto alto e, ao mesmo tempo, como fim de uma etapa. O problema, depois de chegar a uma forma tão íntegra, era descobrir como mudar.
Rosácea, Trevo e Teia ampliaram o percurso. Teia, publicado em 1996, recebeu prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte e confirmou uma recepção crítica que já via Orides como uma das vozes mais singulares da poesia brasileira contemporânea.
Sua poesia não se apoia na narrativa direta da vida. Trabalha com silêncio, pedra, pássaro, sol, abismo, forma, ser e palavra. A biografia ajuda a situar a autora, mas a obra não deve ser reduzida às dificuldades pessoais. O centro de Orides está na construção verbal: dizer o máximo com o mínimo, sem ornamentação e sem concessão.
A leitura pública de seus poemas também marcava quem a ouvia. Donizete Galvão recordou uma voz forte, vigorosa e sincopada, contrastando com a fragilidade física da poeta. Essa tensão entre corpo vulnerável e linguagem incisiva acompanha muitas memórias sobre Orides.
Memória
Nos últimos anos, Orides viveu entre reconhecimento literário e precariedade material. A reputação crescia nos círculos de poesia, mas isso não significava estabilidade financeira, cuidado cotidiano ou integração social. A própria poeta falava com franqueza sobre a dificuldade de viver de poesia no Brasil.
Parte da memória pública insistiu em sua figura difícil: solidão, explosões, conflitos com amigos, gestos agressivos e desamparo. Esses elementos pertencem à história, mas não podem ocupar o lugar da obra. O tratamento mais justo é manter as duas dimensões visíveis: a vida vulnerável e a poesia rigorosa.
Em textos críticos e depoimentos, Orides aparece como alguém que trazia tensão ao ambiente, mas também como autora capaz de produzir uma linguagem rara. Donizete Galvão a descreveu como poeta do mínimo necessário; Luis Nassif registrou a distância entre a imagem frágil da mulher no cotidiano e a força que saía dos poemas.
Orides morreu em Campos do Jordão em 2 de novembro de 1998, onde estava internada. Foi sepultada ali. Na lápide, ficou gravado um verso seu: “Um anjo é fogo. Consome-se”.
Depois da morte, sua obra continuou a circular. Em 2006, Poesia Reunida, publicada pela Cosac Naify, ajudou a reorganizar a leitura de seus livros. Em 2007, recebeu postumamente a Ordem do Mérito Cultural, categoria Grã-Cruz.
Em São João da Boa Vista, Orides tornou-se patronesse da cadeira nº 32 da Academia de Letras. Em 2016, suas cinzas retornaram à terra natal, gesto simbólico que devolveu a poeta à cidade de onde saiu sua primeira formação, sua primeira publicação e parte de sua mitologia pessoal.
Cronologia
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Nasce em São João da Boa Vista, em 24 de abril.
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É alfabetizada pela mãe.
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Publica poemas no jornal O Município.
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Muda-se para São Paulo.
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Publica Transposição, seu primeiro livro.
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Publica Helianto, pela Duas Cidades.
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Publica Alba e recebe o Prêmio Jabuti de Poesia.
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Publica Teia e recebe o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte.
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Morre em Campos do Jordão, em 2 de novembro.
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Suas cinzas retornam a São João da Boa Vista.
Texto original completo
Leio minha mão: livro único 1940 Nasceu no dia 24 de abril em São João da Boa Vista 1946 É alfabetizada pela mãe 1948 Estuda no Grupo Escolar Joaquim José 1951 Entra para o Ginásio São João 1955 Escola Normal Cristiano Osório de Oliveira 1956 Publica seus poemas no jornal O Município 1966 Muda-se para São Paulo 1967 Publicação de dois poemas no Suplemento Literário de O Estado de S.
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Curso de Filosofia na USP.
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Publica Transposição, pelo Instituto de Cultura Hispânica da USP.
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Publica Helianto, pela Duas Cidades.
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Publica Alba, pela Roswitha Kempf Editores, e recebe o Prêmio Jabuti de Poesia.
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Publica Rosácea, pela Roswitha Kempf Editores.
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Publica Trevo, pela Duas Cidades.
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Publica Teia, pela Geração Editorial, e recebe o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte.
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Publica Trèfle, tradução francesa de Trevo, e morre em Campos do Jordão em 2 de novembro.
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Publica Rosace, tradução francesa de Rosácea, pela L'Harmattan.
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Sai Poesia Reunida, pela Cosac Naify.
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Suas cinzas retornam a São João da Boa Vista.
FragmentoVer o avesso do sol, o ventre do caos, os ossos.
Referências
A bibliografia de Orides fica melhor como mapa de obra: primeiro os livros centrais, depois traduções e estudos complementares.
- Transposição livro de estreia, publicado em 1969.
- Helianto publicado pela Duas Cidades em 1973.
- Alba livro de 1983, premiado com o Jabuti de Poesia.
- Rosácea publicado em 1986.
- Trevo publicado pela Duas Cidades em 1988.
- Teia publicado em 1996, reconhecido pela APCA.
- Poesia Reunida volume de 2006 que reorganiza a leitura de sua obra.
Referências complementares
- Trèfle, tradução francesa de Trevo, saiu pela L’Harmattan em 1998.
- Rosace, tradução francesa de Rosácea, saiu pela L’Harmattan em 2000.
- Referências críticas, entrevistas e registros posteriores ampliam a leitura da poeta.
Texto original completo
TRANSPOSIÇÃO – Instituto de Cultura Hispânica da USP, 1969 HELIANTO – Duas Cidades, 1973 ALBA –Roswitha Kempf Editores, 1983 ROSÁCEA - Roswitha Kempf Editores, 1986 TREVO – (Claro Enigma) Duas Cidades, 1988 TEIA –Geração Editorial, 1996 Poesia Reunida –CosacNaif, 2006 Obras publicadas no exterior Francês TRÈFLE (Trevo) - Tradução Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas - Paris: L'Harmattan, 1998. ROSACE (Rosácea) - Tradução Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas - Paris: L'Harmattan, 2000.
São Paulo SP - Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro Alba, concedido pela Câmara Brasileira do Livro 1996 - São Paulo SP - Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, pelo livro Teia 2007 - Belo Horizonte MG - Comenda Ordem do Mérito Cultural, categoria Grã-Cruz Comentários da Autora sobre Sua Obra “ Transposição: devo me deter mais, deixar de piadas. Já atingi o real literário: o que foi publicado, existe. Eu goste ou não. E eu gosto!
Este livro com sabor ingênuo e bem sanjoanense, com uma integridade e forças próprias, é filho do Sol de São João! Não procurem “filosofia” nele, nem orientalismo, é só o que é, a quase inefável intuição de estar "a um passo de". De quê? Sei lá, estou há anos luz. O sol virou a Estrela Próxima. É um livro claro e ingênuo, no fundo, em que pese sua linguagem excessivamente abstrata. Parece "teórico", mas é integralmente vivido.
E foi Transposição que publiquei em 69, via Instituto de Espanhol da USP, onde Davi Arrigucci trabalhava.” “ Helianto, é uma produção sofisticada de uma aluna de Filosofia da USP – pois uma “professorinha” não tem status e nem apareceria – quero deixar claro que, em todos os meus livros, o nada jamais me interessou, e como poderia interessar a quem quer que seja? O problema sempre foi o ser, a forma, a palavra. O silêncio só entra devido ao impasse inevitável. Helianto: Hélios e anto, Sol e flor, terra e sangue, totalidade, círculo.
Esta é a ideia mestra de Helianto, que por isto tem como epígrafe uma cantiga de roda. Reconheço que este é meu livro mais “bizantino”. No bom e no mau sentido. Esbaldei-me, usei e abusei de toda a tecnologia aprendida. Sim, li os concretos, mas era tarde. A espinha dorsal já estava pronta e ereta, e outras influências só poderiam me atingir de raspão. Li Mallarmé, Baudelaire, Góngora. E bem pouco penetrou, o que eu já era, já era.
É por isso que não sou nem nunca pude ser uma renovadora e, no máximo, adquiri maestria e forma própria de lidar com aquilo que recebi de meu meio social. Helianto comprova bem tanto a maestria quanto a limitação, mas creio que, na época, sua preocupação com a meta-poesia (a forma, a palavra) não estava tão defasada assim. Mas, apesar do patrocínio de Antonio Candido, o livro foi totalmente ignorado. Azar. Agora mudo de novo, de poeta lida só na USP para poeta conhecida pelo menos em alguns outros estados.
Isto levou tempo a valer. ” “ Alba: eu havia conhecido o professor Antonio Candido lá para 70 ou 71, após Transposição, de que ele gostou. Ele leu Helianto e arranjou a publicação, leu também Alba, que acabou prefaciando. Tudo fácil? Que nada! Difícil mesmo era quem, naquele tempo, publicasse poesia. Mas, em 83, a Roswitha Kempf assumiu e o livro emplacou, foi premiado e vendeu. Feliz? Pois sim.
Pra mim, era um fim de linha, o ápice da espiral poética iniciada creio que com Rosácea I, algo de perfeito e, por isso mesmo, ultrapassado e morto. Podiam louvar ou execrar, mas meu problema era – como mudar? Neste momento eu consegui mesmo um livro, algo bastante íntegro, e, por tudo isso. terminal. Voltei a “um passo de”. mas não saí de lá. Única novidade que assinalo em Alba é o início da influência do Zen. Só um “cheiro”, algo sutil, perceptível em certos poemas. Não vou dizer quais. Leiam, pô!
“ “ Rosácea: o sucesso de Alba talvez tenha prejudicado um pouco a estrutura de Rosácea, pois organizei o livro depressa demais, e o material era bem heterogêneo. Coisas novas, fundo de gaveta e restos de memória. Juntei tudo. Aproveitei o título do livro abortado e a estrutura quíntupla – devo ao Davi a ideia de como organizar o livro – mas, mesmo assim, é meio dissonante.
Justifiquei-me usando como epígrafe um koan de Heráclito, isto é, se o universo é bagunça organizada, um “caosmos”, meu livro também poderia ser a mesma coisa, tranquilamente. E foi em Rosácea que tentei renovar-me, abandonar o sublime (de que, como boa proletária, desconfio paca), assumir o pessoal e o concreto, isto é, condensar as abstrações apresentá-las como imagens, se possível exemplares – algo como Brecht. Em parte consegui, em parte não. Enfim, estou a caminho, uma nova virada, a mais problemática de todas.
Agora quero assinalar que Rosácea inclui um livro Zen – isto é, Zen a meu modo – e sonetos (o “Bucólicas”) que não estavam nem em Rosácea I, pura arqueologia. E poemas que ficaram só na memória. Existem ainda os poemas perdidos de Rosácea I? Vale a pena? Creio que não. Resgatei o que sobreviveu e pronto. “ Trevo: um trevo de quatro folhas. Para dar sorte. E eis tudo até agora. Mas nossa época é terrível, somos “poetas em tempo de desgraça”, como diz Heidegger.
Nossa cultura está numa crise que atinge suas próprias bases – e a isto chamamos pós-modernismo – pois nem nome próprio tem o que morreu e/ou ainda vai nascer. Onde estou? Onde se localiza minha obra de mais de vinte anos no quadro da poesia brasileira? Não sei. Que os amigos, os críticos, os outros poetas me ajudem a responder a esta questão. Eu deixo aqui este depoimento pessoal de uma autora senão excepcional, razoável e consciente.
Em Rosácea I eu tinha posto uma epígrafe do Eclesiastes: “aquilo que acontece é/longínquo/profundo, profundo:/quem o poderá sondar?”. Poderemos? Bem a erva humilde e até vulgar da poesia não foi arrancada por ninguém, foi bem cultivada e deu no que deu: este Trevo. E sendo tudo por agora, prefiro recorrer de novo ao Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Ou se quiserem, tudo é poesia, né?”“ Teia: dizem que é um livro mais fácil que os anteriores. Mas essa foi a minha intenção, eu quis me afastar do barroquismo.
Reclamam, porque eu não falo de amor. Mas então não leram Homero. Eu quis chegar no miolo das coisas. Já fiz duas leituras para auditório de jovens e eles gostaram muito. Isso me deixa reconfortada. Mas, infelizmente, nossos especialistas ainda têm uma visão muito olímpica da poesia. Entes de Teia, eu cheguei a ser classificada como "poeta metafísica". Agora, espero, fica mais difícil me enquadrar. Mas é a velha história: é melhor que falem mal, mas falem de mim. Eu preciso de dinheiro para viver.
Minha vida é um retrato da vida dos aposentados do Brasil. E a vida dos poetas no País. Eu queria ser mais enxuta, queria escrever poemas exemplares à moda de Brecht. Sei que não agrada, porque a moda é o barroquismo. A moda é escrever como o Alexei Bueno. A moda é ser difícil. É um fenômeno sociológico e não adianta discutir com os fatos da sociologia. Não quero ir contra ninguém, só quero escrever meus poemas. Essa guerrilha de poetas é divertidíssima, mas desejo participar dela.
Eu sou pequena, pobre mulher que escreve uma poesia boa, mas, coitada, não é do meio. Não tenho família, não tenho bens, não frequento os lugares chiques. É como se eu estivesse invadindo o Olimpio.” Publicado originalmente: in Artes e ofícios da poesia. Augusto Massi (org). Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1991. pp. 256-261 Bibliografia sobre a Autora Dantas, Vinicius. A Nova Poesia Brasileira e a Poesia. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n.16, p.40-53, dez. 1986. FONTELA, Orides. Orides Fontela. In: ARTES e ofício da poesia. Org.
Augusto Massi. Apres. Leda Tenório da Motta. Porto Alegre: Artes e Ofícios; São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1991. p.255-261. ___. Sexo e Destino. Entrevista do mês, conduzida por Augusto Massi, José Maria Cançado e Flávio Quintiliano. Leia, São Paulo, ano 11, n.123, p.23-25, jan. 1989. MASSI, Augusto. Uma Obra Feita em Espiral. Folha de S. Paulo, São Paulo, 9 ago. 1986. p.61. BUCIOLI, Cleri Aparecida Biotto. Entretecer e Tramar Uma Teia Poética. FAPESP, Annablume. São Paulo, 2003. SOUZA. Fatima Maria da Rocha.
Armadilhas do Tempo. Universidade Federal do Ceará, 2004.
Fragmentos
Do Monólogo “O Tempo Pingando dos Olhos” de Maria Célia de Campos Marcondes. (Baseado em fatos reais) “Fui aluna do Instituto de Educação Cel. Cristiano Osório de Oliveira em São João da Boa Vista, minha cidade natal. Aliás, uma excelente aluna, com excelentes notas. Mas, mesmo assim vivia isolada ninguém queria ser minha amiga. Um dia, minha mãe morreu. O caixão na sala de visitas, meu pai, eu e algumas poucas e raras vizinhas. O corpo, parcas flores, as velas, a cruz. De repente, começaram a chegar os professores.
Meus professores do Instituto! Impossível, meu Deus! Minhas colegas de classe! A orientadora escolar! Não era possível! Que felicidade senti! Eu existia, elas gostavam de mim, vieram ver-me! Tinha vontade de dançar, de abraçá-las. Era o delírio! O velório passou a ter-me outro significado. Era a aceitação de minha pessoa, era tudo o que eu queria! Eu existia, passei a ter visibilidade. Tudo ficou melhor! Muito melhor! Parecia um sonho, uma festa! Tudo era irreal! Minha mãe morta, tanta gente em minha casa! Pela primeira e única vez!!
Decepção! Meu sonho durou apenas os momentos em que estiveram ali. ‘Ele se desfez como a água na água. Minha nostalgia, minha solidão armaram-me uma cena impossível’ Quando retornei à escola tudo era igual. Exatamente como sempre fora! Ignoravam-me.” Falo de agrestes Pássaros de sóis que não se apagam de inamovíveis pedras de sangue vivo de estrelas que não cessam. “Sempre fui uma amante dos livros e dessa maneira era grande frequentadora da biblioteca do Dr Oliveira Neto.
Ele e seus livros reforçaram os alicerces da minha formação literária. Estava sempre também na biblioteca da escola. A bibliotecária era Dª Maria Leonor. Até como leitora tive minhas desditas, Dª Maria Leonor chamou-me à biblioteca e disse-me que não mais iria me emprestar livros, porque eu recortava, com gilete, todas as palavras “homens”. Neguei! Disse-lhe: que diferença fazia a palavra “homem”, “mulher”, ou qualquer outra. Era tudo igual. Ora bolas eram apenas palavras!
No entanto, Dª Zezé Lopes chamou-me em sua sala e eu não consegui mentir-lhe. Confessei tudo! Era eu quem recortava a palavra “homem” dos livros. Por quê? Não sei! Não sei! Ela me prometeu não contar a ninguém. Assim o fez e eu continuei a cortar a palavra “homem” dos livros que lia.” Estranho impulso levava-me a isto. Eu não conseguia controlar-me, por mais que tentasse.” À beira do rio o silêncio dos peixes. a beira do rio nem a espera.
A água não cessa e o rio nunca passa. À beira do rio a lucidez a pedra e a pedra é pedra: não germina. Basta-se. ”Mas, nas minhas subjetivas e concretas desditas eu tive o amor de meu pai. Como conversei com ele! Era meu amigo! Meu único e fiel amigo! Andávamos sempre juntos pela cidade, às vezes de braços dados, outras vezes, eu mais à frente. Nestas ocasiões, olhava para trás para que pudéssemos conversar. Quanto tropeção e alguns tombos levei, devido a esse costume.
Ele carregava sempre um guarda-chuva dependurado no braço, dizia que era para proteger-me. Proteger-me, fez isso a sua vida inteira! Do que efetivamente pretendia proteger-me, nunca soube. Mas sabia o quanto nos amávamos! Um amor sem restrições, absoluto na sua forma mais abstrata. Um amor que só alguns poucos têm o privilégio de conhecer. No entanto, achavam esquisito nosso relacionamento. Olhavam-nos de soslaio, e através de nossos olhos míopes e das grossas lentes de nossos óculos, percebíamos estranhos e enigmáticos olhares.
Gostávamos muito de cinema e não perdíamos um só filme. Sentávamos sempre isolados porque ninguém gostava de ficar perto de nós. Mas eu sei o motivo! Nós tínhamos sensações, não éramos frios como os outros que se escondiam atrás de seus próprios sentimentos, abafando-os, sufocando-os. Eu e meu pai, não! Vivíamos, vibrávamos com a história que desenrolava na tela. Manifestávamos alto nossas emoções. Chorávamos, ríamos, dávamos recados aos atores, gritávamos para que eles tomassem cuidado, avisávamos dos perigos que corriam e.
“ A um passo do pássaro respiro. “Certa ocasião uma professora declamava “O Navio Negreiro” de Castro Alves. Parece-me ainda, ouvi-la. “Mas que vejo eu aí, que quadro d’amarguras. Que fúnebre cantar! Que tétricas figuras! Que cena infame e vil. Meu Deus! Meu Deus! Que horror! O tombadilho em sangue a se banhar. Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar. Era um sonho dantesco, tanto horror perante os céus.” Não aguentei.
Fiquei em pé e alucinada, com as mãos na cabeça disse alto: “Que horror, que sofrimento, meu Deus!” Vivia tão intensamente o poema que sofria com o sofrer dos escravos, chorava suas lágrimas, doíam-me suas dores. Porém, ninguém entendia isso. E todos riram. Eu, que já estava em prantos pela cena descrita, agora chorava porque pessoas insensíveis riam-se de mim.” Ao meio dia a vida É impossível A luz destrói os segredos A luz é crua contra os olhos Ácida para o espírito.
A luz é demais para os homens (porém como o saberias se não viesses a luz de ti mesmo?) Meio dia! Meio dia! A vida é lúcida e impossível! “O Tempo Pingando dos Olhos– é trecho do poema Contaminação—livro Teia de Orides Fontela.”
Voz
FALA Falo de agrestes Pássaros De sóis Que não se apagam De inamovíveis Pedras De sangue Vivo De estrelas Que não cessa, Falo do que impede o sono. “Minha profissão de fé, é pelo saber, pelo conhecimento. Essa é a doutrina budista: o único mal é a ignorância, o único pecado é a ignorância”. “Para ser simples, é preciso ser poeta”. “A minha família não tinha base cultural, meu pai era operário analfabeto, de modo que a cultura que peguei foi na base do ginásio, escola normal e leitura”.
“Eu costumava mostrar meus poemas a alguns críticos paulistas, mas eles acham que eu facilitei, que me tornei popularesca e não se interessam mais em ler o que eu escrevo. Descobri o quanto estou sozinha na noite do lançamento de Teia, em um bar da Alameda Franca. Não havia um só crítico, um só poeta”. “Todo mundo bebe um pouquinho, né”? "Eu estou mal por causa do problema social, da proletarização total. Eu poderia trabalhar até como faxineira.
O problema é que sou péssima dona de casa, só sei mesmo escrever poesia e disso não se vive no Brasil". Inspiração: “Posso afirmar que grande parte dos meus poemas nasceram como são. Não é que eu tente acreditar nisso, inspiração, no meu caso é um fato”. “A vida às vezes é satisfatória, às vezes, uma porcaria. Tudo na vida é muito maluco, impulsivo aberto. E ninguém sabe imaginar outra coisa além da vida”. “Eu não sei o que me dava, achava que as pessoas me olhavam com desprezo, me diminuíam porque eu não tinha nada.
Aí, eu ficava nervosa e começava a agredir”. “João Cabral de Mello Netto: “O que sei é que não copiei”. “Fui professora de pré-primário. Trabalho na biblioteca do Grupo Escolar Marisa de Melo. Não sei fazer outra coisa que não seja escrever. E isso não dá dinheiro. Possuo dois gatos, quatro livros e o saldo do Brás Cubas. Logo, estou encrencada”. “Não tive opção, mulher pobre, ou vira feminista, ou passa a vida apanhando do marido, para mim sempre foi difícil namorar um homem do meu nível social.
Eu era pobre demais para tentar algo com um cara melhorzinho”. “Os poemas pintam quando eles querem. Acho que ficam no inconsciente. Quando eles estão vivos, eles acabam voltando”. “Poesia estrangeira: “Góngora, San Juan de la Cruz, Mallarmé.” “Eu estou procurando tornar os poemas mais diretos, mais acessíveis para todas as pessoas”. “Com Teia eu quis chegar no miolo das coisas. Já fiz duas leituras para auditório de jovens e eles gostaram muito. Isso me deixa reconfortada.
Mas, infelizmente, nossos especialistas ainda têm uma visão muito olímpica da poesia”. “Gostaria de ver meus quatro livros reunidos. Já tenho até título: ‘Trevo’. “É a velha história: é melhor que falem mal, mas falem de mim. Eu preciso de dinheiro para viver. Minha vida é um retrato da vida dos aposentados do Brasil. E a vida dos poetas no País”. “Sonetos: “ não faria mais. Sou preguiçosa. E os sonetos me parecem epopeias”. “A moda é escrever como o Alexei Bueno. A moda é ser difícil.
É um fenômeno sociológico e não adianta discutir com os fatos da sociologia”. “O fato de ser muito solitária me favoreceu em termos de voz pessoal”. “O meu sonho mais infantil é ser traduzida. O que é uma bobagem completa. Mas ser internacional deve ser muito gostoso”. “Eu sou anti-romântica e não gosto de ser encarada como uma poeta que sofre. Não fui chamada de estóica e isso eu aceito”. “Geneticamente sou drummondiana. Gosto do Drummond tiro e queda, aquele dos pequenos poemas em que não sobra nada: destrutivos e impressionantes”.
“Eu começo meus livros com um poema-tema, que depois dá nome ao volume, e acabo sempre com um poema sobre o silêncio”. “Poemetos: “Parte de poemas que não deram certo. Utilizo apenas a melhor imagem. Mas alguns deles nasceram realmente micropoemas. É uma tendência moderna”. “Meus poemas não têm nenhuma relação com meu cotidiano”. “Hermetismo não é qualidade”. Bizâncio: “A ideia mítica de uma cidade dourada é bonita. Faz parte da minha mitologia particular. Toda poesia é dotada deste fundo mitológico que o poeta cria”.
“Gosto dos poemas – piada. O livro Anatomias, me agrada muito. Mas é preciso ter cuidado senão não se vai longe”. Murilo Mendes: “Convergência eu virei de cabeça pra baixo”. “A vida é tão maluca, tão imprevisível. Quem sabe ainda não vou encontrar um grande amor”?