Nascida em São João da Boa Vista, Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, atravessou modernismo, jornalismo, literatura, militância e prisão política.
Introdução
Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, nasceu em São João da Boa Vista e se tornou uma das figuras mais intensas do modernismo brasileiro. Sua trajetória reúne literatura, imprensa, militância política, prisão e uma presença pública que continua decisiva para a memória cultural do país.
Patrícia Rehder Galvão, conhecida como Pagu, nasceu em São João da Boa Vista em 14 de junho de 1910, às 2 horas da tarde, na casa nº 21 da antiga Rua São João, atual Rua Getúlio Vargas. A casa, construída de taipa e barro sovado, era sólida e de boa aparência. Patrícia era filha de Thiers Galvão de França, advogado e jornalista, e de Adélia Rehder Galvão, da tradicional família Rehder. Foram seus avós paternos Joaquim Galvão Freire de França e Guilhermina Galvão e avós maternos Germano Rehder Sobrinho e Ordália Aguiar Rehder. A data e os dados de nascimento constam da certidão de nascimento (livro A-29, registro nº 501), com termo lavrado em 17 de junho de 1910 — ainda que diversas publicações tragam, por engano, 9 de junho.
Pagu em retrato, com lenço no pescoço.Certidão de nascimento de Pagu: o assento registra o nascimento em 14 de junho de 1910, às 14h, na Rua São João nº 21, em São João da Boa Vista (termo lavrado em 17 de junho).
Nascimento em São João
Thiers e Adélia casaram-se em 1902, ele com 28 e ela com 18 anos. Dessa união nasceram quatro filhos: Conceição, Homero, Patrícia e Sidéria. A última nasceu quando a família já morava em São Paulo. A casa onde Pagu morou, foi reconstruída pelo Sr. Antônio Balestrin, que passou a residir ali com a família, instalando nela, sua fábrica de móveis. Em 1914, a família mudou-se para São Paulo.
Pagu com a irmã Sidéria (Sid) na praia, em Santos — o mar seria uma de suas paixões para a vida inteira.
Registro de infância em São João da Boa Vista, onde Patrícia nasceu em 1910.
Uma das paixões de vida de Patrícia Galvão foi o mar.
Pagu e a irmã Sidéria, em registro de infância.
Tema recorrente em suas poesias, crônicas, prosas, até na sua conversa, o mar para ela era basicamente o mar santista, resumo dos mares – bem mais que sete – que ela percorreu em seus 52 anos de vida.
Pagu na praia, nos anos 1920 — o mar, paisagem recorrente em sua escrita.
1929. Participa da segunda fase do Movimento Antropofágico
Contrariando o mito, Pagu não participou da Semana de Arte Moderna de 1922. Tinha apenas 11 anos nessa ocasião.
O nome de Pagu — apelido que o poeta Raul Bopp lhe dera — é ouvido pela primeira vez em 1929, quando, adolescente de 18 anos de idade, ela frequentava o ambiente contestatório do movimento de antropofagia, comandado pela desinibição estética e cultural de Oswald de Andrade. O movimento antropofágico, lançado em 1928 com o “Manifesto Antropófago” escrito por Oswald, era uma radicalização do modernismo de 1922. Esse texto foi publicado no primeiro número da Revista de Antropofagia, criada para difundir o movimento.
Página da Klaxon (1922), revista pioneira do modernismo brasileiro — o ambiente em que Pagu logo entraria.
Depois de dez números, a revista passa por uma reformulação e inicia sua segunda fase, ainda mais radical que a primeira. É nessa “segunda dentição” – como os autores se referem à nova fase – iniciada em 1929, que Pagu inicia sua colaboração, basicamente com desenhos.
Pagu jovem, em registro dos anos 1920.
Em junho desse mesmo ano, ela se apresenta numa festa beneficente no Teatro Municipal em que, vestida por Tarsila, declama poemas modernistas, incluindo “Coco” de Raul Bopp e um poema de sua autoria, presente no “Álbum de Pagu”, de 1929, livro não publicado que ela ilustrou com desenhos. Esse livro “Álbum de Pagu” ou - Pagu “ Nascimento, Vida, Paixão e Morte”, teve apenas publicação póstuma nas revistas “Código”, de Salvador, em 1975 e “Através”, de São Paulo, em 1978.
Houve a Didi Caillet, em 1929, e a Patrícia se apresentou recitando alguns poemas. Aliás foi muito engraçado esse dia. Nós fomos a esta festa no Teatro Municipal, eu, mamãe e papai, mas a Pat não estava com a gente, que ela tinha ido na casa de Oswald com Tarsila. E, de repente, a gente viu numa frisa – a gente estava na plateia – a Pat com Tarsila e tudo, completamente irreconhecível.
A gente dizia e a Pat, não é a Pat (a gente não a chamava de Pat, mas de Zazá, que ela odiava), mas a gente não entendia porque ela estava completamente maquiada, de um jeito diferente. Pra dizer a verdade eu não gostei, achei até mais feia do que ela era realmente, estava muito sofisticada pelo meu gosto, eu era menina naquele tempo, não gostei mesmo. Daí ela declamou essas coisas, porque ela tinha conhecido Didi Caillet na casa de Tarsila, depois tinha aquele lero-lero de Didi Caillet ser intelectual. (Sidéria Galvão)
1929. Pagu casa com Waldemar Belisário
O romance com Oswald navegava por águas turbulentas, que acabaram por levá-la a casar-se com o pintor Waldemar Belisário, em setembro de 1929, e anular o casamento, em fevereiro de 1930. Toda a farsa fora montada por Oswald com a conveniência de Belisário, que lhe devia favores, para salvar as aparências, pois Pagu estaria grávida. Foi tudo uma farsa. Tinha sido combinado.
Ela se casou, todo mundo feliz, o Oswald e a Tarsila foram padrinhos, e a Tarsila deu de presente um quadro dela, que por incrível que pareça era um touro, com chifres na cabeça. Waldemar e a Patrícia, após o casamento foram pra Santos, pois tinham dito que iam embarcar em lua de mel. No meio da estrada estava Oswald e ali acabou o casamento. A família tinha ido para Itanhaém, pois era tempo de férias e foi seu pai quem contou a todos o acontecido: - A Pat fugiu com Oswald de Andrade disse”.
Sua irmã Sidéria conta “Meu grito foi “Mentira, não acredito”, e a Pat me contava muita coisa, quase tudo, mas essa ela não me contou, essa foi segredo mesmo. Daí foi aquela desgraceira desgraçada, não é, a gente teve que sair de Itanhaém imediatamente, mamãe recusou ver qualquer pessoa mais das relações, porque aquilo envergonhava a família, eu voltei infeliz de Itanhaém, ficamos em São Paulo, e eu estava absolutamente proibida de ver a Pat. Então, nós ficamos em São Paulo uns tempos.
Para nós seus familiares, foi muito triste tudo aquilo”.
1930. Casa com Oswald. Nasce Rudá de Andrade
Pagu Patrícia Rehder Galvão Um anjo inquietante, desceu à Terra. além. muito além do Martinelli. qual estrela cadente, feito gente, mas não como tantos. Um anjo inconformista, inconformado com as mazelas dos homens. Um anjo rebelde, revolucionário e visionário, a ponto de enxergar com rara clareza, no auge da escuridão, a luminosidade da esperança.
Um anjo sonhador, que nos faz sonhar com um utópico mundo sem fronteiras, sem preconceitos, sem injustiças. Assim. Aconteceu em 1910. Ainda era criança, quando viu surgir diante de seus olhos a cidade grande, São Paulo, e a rua da Liberdade, novo endereço da família, onde nasceu Sidéria (Sid) - a amiga íntima.
Além da Escola Normal no Colégio Caetano de Campos, teve aulas no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, com Fernando Mendes de Almeida e Mário de Andrade “Mário de Andrade tinha um riso largo de criança, na minha infância, eu roubando frutas no tabuleiro da casa que tinha perto do conservatório, na avenida São João, e nós meninas sem saber que aquele professor comprido e feio era um poeta”, comentaria num artigo em 1947, no Diário de São Paulo. Pagu e Oswald se casaram em 1930 — a cerimônia simbólica, diante do jazigo da família dele, deu-se em 1º de abril daquele ano, num gesto teatral à altura dos dois.
Rudá nasceu em 25 de setembro de 1930. A Pagu já tinha então algumas experiências de comunismo e quem cuidou do bebê foi uma enfermeira do Hospital chamada Lúcia, que foi levada pra casa dela e virou comunista também e mais tarde ficou presa com ela. Em março de 1931 fundam o jornal tabloide “O Homem do Povo”.
Por O Homem do Povo, Pagu chegou a ser condenada a dois anos de prisão, evitados com uma fuga para a Argentina, onde se encontrou com Luís Carlos Prestes, também refugiado em Buenos Aires, em 1931.
Pagu com Oswald de Andrade e o filho Rudá.
“Um aspecto curioso é que nos encontramos num bar e, sem sair da mesa, conversamos durante 48 horas”, exagera Pagu. Para ela essa conversa foi decisiva. Pagu já é militante. Na volta ao Brasil, filia-se ao Partido Comunista, em 1931.
1931. Pagu e Oswald editam o Jornal Homem do Povo
Vida pública
Oswald e Pagu passaram a editar o jornal O Homem do Povo, a tribuna para os seus disparos irreverentes. Imprensa nanica que utilizava-se de uma linguagem ferina e bem humorada, tratando com humor e sem piedade, temas e pessoas evidentes no cenário político, religioso e social. Este pasquim teve uma vida curta, de apenas oito edições.
Pagu colaborava com cartoons e tiras de humor — entre elas “Malakabeça, Fanika e Kabeluda” —, opinava nas revoluções gráficas e assinava a coluna A Mulher do Povo, onde exercitava a polêmica, utilizando como pano de fundo pensamento marxista, como na 1ª edição de 17 de março de 1931, quando escreveu o artigo Maltus Além, trocadilho com Matusalém, o ancião da Bíblia e as pregações celibatárias do pastor Maltus.
Pagu criticava, no artigo, o feminismo em nome do materialismo histórico e defendia a vinculação das reivindicações feministas a uma transformação global das relações sociais, já que eram as condições mentais e materiais da sociedade que vinculavam a figura da mulher a uma suposta inferioridade. A irreverência de O Homem do Povo foi a responsável pelo seu próprio fim. Oswald, ex-aluno da Escola de Direito do Largo de São Francisco, em artigo, denominou esta tradicional instituição de ensino como um “cancro que mina o nosso estado”.
Após esta declaração, os estudantes empastelaram o jornal.
Croqui de Pagu — o desenho fez parte da sua obra tanto quanto a palavra.
1933. Lançamento do livro Parque Industrial
Em janeiro de 1933, Pagu lança seu primeiro romance: “Parque Industrial”, com o pseudônimo de Mara Lobo por exigência do Partido e financiado por Oswald. Seu livro é reconhecido pela crítica como o primeiro romance proletário do Brasil. O cenário: os bairros do Brás e Belém na década de 30. O romance de Mara Lobo é um panfleto admirável de observações e de probabilidades.
O seguinte período define o espírito do livro: “Pelas cem ruas do Brás a longa fila matinal dos filhos naturais da sociedade. Filhos naturais porque se distinguem dos outros que tem tido heranças fartas e comodidade de tudo na vida. A burguesia tem sempre filhos legítimos. Mesmo que as esposas virtuosas sejam adulteras.”. Há nessas linhas algumas pitadas de verdade. E por isso, sem ser integralmente verdadeiro, o romance de Pagu é uma mentira entre as da convenção social.
Sementes de soja
Conta Raul Bopp: “Pagu, numa viagem ao Oriente, fez relações de amizade com Mme. Takahashi, de nacionalidade francesa, casada com o Diretor da South Manchurian Railway (verdadeira potência dentro do novo Império manchu, criado sob a égide do Japão). Com a influência de sua amiga, Pagu tinha fácil acesso ao Palácio de Hsingking. Conversava informalmente com o jovem imperador Puyi.
Ambos pedalavam as bicicletas, dentro do parque amuralhado da residência Imperial. Quando, numa das suas viagens a Kobe, Pagu me narrou o ambiente de familiaridade que existia em Hsingking, pedi que ela procurasse arranjar com Puyi algumas sementes selecionadas de feijão-soja.
Depois de algumas semanas, foram entregues no Consulado, procedentes da Manchúria, 19 saquinhos de sementes dessa leguminosa, que foram enviadas ao Embaixador Alencastro Guimarães, oficial do gabinete do Ministro das Relações Exteriores, Dr. Afrânio de Mello Franco.
Esse diplomata, sem perda de tempo, enviou-as ao Ministro da Agricultura de aclimatação, em São Paulo.”
O apelido Pagu foi dado por Raul Bopp, teria mostrado a Raul alguns poemas e, na mesma ocasião, o poeta sugeriu que ela adotasse um “nome de guerra” literário. Sugeriu Pagu, brincando com as sílabas do nome da escritora, que Bopp equivocadamente acreditava se chamar Patrícia Goulart.
Poema para Pagu
Coco de Pagu (Raul Bopp) Pagu tem os olhos moles uns olhos de fazer doer. Bate-coco quando passa. Coração pega a bater.
Eh Pagu eh! Dói porque é bom de fazer doer.
Passa e me puxa com os olhos provocantemente. Mexe-mexe bamboleia pra mexer com toda gente.
Eh Pagu eh! Dói porque é bom de fazer doer.
Toda a gente fica olhando o seu corpinho de vai-e-vem umbilical e molengo de não-sei-o-que-é-que-tem.
Eh Pagu eh! Dói porque é bom de fazer doer.
Quero porque te quero. Nas formas do bem-querer. Querzinho de ficar junto que é bom de fazer doer.
Eh Pagu eh! Dói porque é bom de fazer doer.
Em Santos, Pagu é presa pela primeira vez
Em agosto de 1931, como militante comunista, Pagu participa do comício do Partido e dos estivadores em Santos, na Praça da República. Escolhida como principal oradora, ela é agarrada por policiais, que tentam amordaçá-la. O estivador negro Herculano de Souza vai em sua defesa, é baleado e ela levanta do chão sua cabeça ensanguentada. Ele morre em seu colo. Pagu é presa e levada ao cárcere 3, na Praça dos Andradas, considerada a “pior cadeia do continente”, onde permanece duas semanas.
Transforma-se assim na primeira mulher presa no Brasil por militância política. Atenta às transformações mundiais, parte para a Ásia e a Europa como repórter itinerante, credenciada pelos jornais Correio da Manhã, Diário da Noite e Diários Associados. “Seu projeto era atravessar a China e chegar à fronteira da Sibéria”, escreve Geraldo Ferraz. Em 1933 quando passa pela União Soviética, se desencanta com a Revolução Russa.
A primeira mulher presa no Brasil por militância política.
A prisão e a ruptura com o Partido
Pagu em retrato dos anos 1930 — auge da militância, quando se tornou a primeira mulher presa por motivo político no Brasil.
Ela conta sua decepção com o Partido Comunista: “O ideal ruiu, na Rússia, diante da infância miserável das sarjetas. Em Moscou, hotéis de luxo para os altos burocratas. Na rua, as crianças mortas de fome: era o regime comunista”. De Moscou vai a Paris, em 1934. Torna-se amiga dos surrealistas Breton, Crevel e Péret.
Discute os conceitos de arte revolucionária e o papel do intelectual, às vésperas do Congresso de Escritores de 35, que determinaria a adesão de muitos ao realismo socialista e o rompimento dos surrealistas com o PC soviético. Presa várias vezes em manifestações de rua, é repatriada em 1935.
1935. Pagu é presa novamente
Sua irmã Sidéria conta: “Como eu disse, depois que entregamos o Rudá para o Oswald, continuamos, eu e a Pat, morando na Rua dos Andradas, ela trabalhando na “Plateia”, eu, na escola, até o dia 27 de novembro, que foi o dia do golpe, não é, e eu sabia que ia haver alguma coisa e fiquei esperando a Pat feito uma doida, fui na “Plateia”, procurei por todo o canto e não encontrava mesmo; daí eu resolvi pra casa e quando foi mais ou menos 11 da noite, ela chegou e disse: bom, a gente tem que sair porque está determinado que a gente tem que estar na rua, nós estamos escaladas pra ficar em tal lugar, parece que era a Av.
Escrita e obra
São João. Então nós saímos, vestidas, preparadas pra guerrilha – ai, que ridículo! – fazer a revolução com estilingue. E veio um camburão da polícia acompanhando a gente. Então entramos no Bar Natal, na Av. São João, ela estava cheíssimo e nos sentamos numa mesa e os tiras entraram também, então diversas pessoas avisaram, jogando bolinha de papel escrita em cima da mesa e tudo, mas o bar foi esvaziando.
E daí a gente não tinha outro jeito, não podia ficar lá, não, porque ia ser fogo, não é, então a gente saiu, subiu a ladeira São João, acompanhada, e naquele tempo tinha ali, do lado do Martinelli, um ponto de táxi, a gente passou e falou pro motorista “bota o carro em movimento”, e os tiras passaram, a gente voltou, tomou o táxi e saiu, se mandou, daí foi uma perseguição cinematográfica, engraçada pra burro, saiu um carro, outro carro, bom, e a gente despistou os caras e nós apelamos pro papai, e ele levou a gente pra casa de um primo onde passamos a noite.
Depois disso nós fomos pra casa de um motorista da Light, português, que era na rua Ibituruna, no Jabaquara – esse motorneiro depois foi preso, foi expulso. E depois a gente passou a morar lá, de qualquer jeito, em qualquer lugar, onde dava jeito, e estava tudo errado, e daí eu arranjei um quarto no Largo Colombo e perdi um pouco de vista a Pat. E um dia eu sai para ter um contato qualquer e fui presa. E a Pat continuou solta.
Eu fui pro Presídio Paraíso, e fiquei lá, torcendo pra Pat não ser presa, mas não demorou muito, ela foi presa também. Daí, foram anos de Presídio Paraíso, Maria Zélia.”
Os anos de cárcere — de 1935 a 1940 — renderam histórias que a família guardava. No Presídio do Paraíso, durante uma greve de fome, três carcereiros entraram batendo; Pagu revidou com tal fúria num deles que os presos passaram a chamá-lo de “Zé Pagu”. À pena de dois anos e meio foram somados mais seis meses porque ela se recusou a homenagear o interventor Ademar de Barros, em visita à prisão. E da viagem à União Soviética, desencantada com o stalinismo, escrevera a Oswald: “Isto aqui é jantar frio sem fantasias. Tou besta.”
1940. O recomeço com Geraldo Ferraz
Em 1940, ao deixar a prisão, Pagu recomeça a vida ao lado do jornalista e crítico de arte Geraldo Ferraz, com quem teria o segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz.
Passada a fase panfletária e de militância política, a história de Patrícia Rehder Galvão ficou marcada pelo processo de profissionalização no jornalismo.
Em 1942, casada com Geraldo Ferraz, foi redatora de A Manhã e de O Jornal, no Rio, e de A Noite, em São Paulo. Sempre acumulando mais que um emprego, em 45 a jornalista trabalhou na agência de notícias France Presse, editou com a colaboração de Geraldo Ferraz a Famosa Revista e integrou a redação do Vanguarda Socialista. No Vanguarda publicou apenas um artigo político e muitas crônicas literárias. “Naquela época, jornalista já não podia ter um emprego só”. conta Geraldo Galvão.
Pagu com Geraldo Ferraz e o filho Geraldo (Geraldinho).
Ainda nesse período de 45 a 50, marcado por intensa atividade jornalística, Patrícia passou pelos jornais: o italiano Fanfulla, O Tempo, Jornal de São Paulo e Diário de São Paulo. O jornal Diário de São Paulo viveu uma fase de pauta de alto nível, com a colaboração de Patrícia e Geraldo Ferraz. O Suplemento Literário que editavam levava semanalmente até seus leitores autores inéditos, nada menos que James Joyce, Mallarmé, Kafka, entre outros. "Patrícia escrevia uma biografia crítica e publicava trechos de cada autor. É a primeira vez que sai um texto de Ulisses no Brasil", conta ele.
1950. É candidata a deputada estadual. Não é eleita
Da Casa de Detenção de São Paulo, onde esteve presa, Pagu escrevia cartas a Geraldo Ferraz.
Por seu ideal político, foi presa mais de 20 vezes!
Capa de Verdade & Liberdade (1950), panfleto da campanha de Pagu a deputada estadual — em que criticava tanto o stalinismo quanto o fascismo.
Em Santos, Pagu mergulhou de corpo inteiro na vida teatral e cultural da cidade.
Carta manuscrita de Pagu, escrita da prisão — ela seria presa mais de vinte vezes ao longo da vida.
a importância de Pagu na vida cultural da cidade de Santos-SP foi tão grande que foi fundadora da Associação dos Jornalistas Profissionais e a primeira presidente da União de Teatro Amador da cidade. Fundou e dirigiu o GETI, o Grupo Experimental de Teatro Infantil, e incentivou novos talentos — entre eles o jovem Plínio Marcos, que deu na cena santista seus primeiros passos no teatro.
Ela levou para Santos mais de 1200 participantes para o 2º Festival de Teatro Amador e traduziu para o teatro a peça de Ionesco, “A cantora careca”. Dirigiu e também traduziu a peça de Arrabal “Fando e Lis” (59) com um grupo amador (essa peça teve estreia mundial em Santos, sendo vista até em Paris), ficando mais de dez anos em cartaz.
Pagu entre amigos do teatro e da vida cultural de Santos (1958).
Conheceu-o em 1958, quando ele substituiu um ator em Pluft, o Fantasminha; viu no diálogo de sua peça Barrela uma força comparável à de Nelson Rodrigues e o apresentou a Pascoal Carlos Magno. Quando a Censura proibiu Barrela, foi Pagu quem mobilizou Pascoal — e um telegrama do gabinete de Juscelino Kubitschek acabou liberando a estreia, em 1º de novembro de 1959.
12 de dezembro de 1962. Morre Patrícia Rehder Galvão — a Pagu
No obituário em A Tribuna (16 dez. 1962), escreveu Geraldo Ferraz: “Deu-se esta semana uma baixa nas fileiras de um agrupamento de raros combatentes. Ausência desde 12 de dezembro de 1962, que pede seu registro do companheiro humilde, que assina estas linhas. Patrícia Galvão morreu neste dia de primavera, nessa quarta-feira, às 16 horas. Morreu aqui em Santos, a cidade que mais amava, na casa dos seus, entre a Irmã e a Mãe que a acompanhavam, naquele momento e, felizmente, em poucos minutos, apenas sufocada pelo colapso que a impedia de respirar, pela última palavra que pedia ainda liberdade, ‘desabotoa-me esta gola’”.
"Sairás pelo meu braço grávida, de bonde Teremos seis filhos E três filhas E nosso bonde social Terá a compensação dos cinemas E dos aniversários dos bebês Seremos felizes como os tico-ticos E os motorneiros E teremos o cinismo De ser boçais Como os demais Mortais Locais" Oswald de Andrade
" Dentro desta mulher, longe de condicionamentos e repressões estéticas, literárias, sexuais, sociais e culturais, topamos com a leveza dos traços, quase infantis, característicos de uma Arte Moderna, que retratam a sensibilidade de sua alma". (Maria Lúcia Teixeira Furlani)
“Pagu foi pioneira nas ideias e na ação, transcendeu seu tempo; por ousar, sofreu, sentiu ostracismo, foi perseguida, presa, torturada — não se vergou, não se entregou. Somente a doença venceu-a. A vida do espírito, porém, desconhece a morte. Fez história. É sanjoanense.” (Maria Célia de Campos Marcondes) Pagu é patronesse da Cadeira nº 36 da Academia de Letras de São João da Boa Vista, cuja titular é Maria Inês Araújo Prado.
Na imprensa, a morte foi registrada até por adversários. Carlos Drummond de Andrade, no Correio da Manhã (16 de janeiro de 1963), escreveu que Pagu, “sem reconciliar-se com a ordem combatida, recolheu-se ao templo da decepção, onde a arte e a literatura oferecem consolo ao ser ofendido”. E Octavio de Faria, católico e seu oposto ideológico, louvou-lhe a “honestidade ideológica e a dignidade pessoal”. Foi sepultada no cemitério do Saboó, em Santos.
Memória
A redescoberta de Pagu, iniciada por Augusto de Campos no fim dos anos 1970, ganhou novo fôlego no século XXI. Em 2023, ela foi a homenageada da FLIP, e quatro livros saíram quase ao mesmo tempo: a antologia de seu jornalismo Palavras em rebeldia (Edusp, org. Kenneth David Jackson), os escritos prisionais de Até onde chega a sonda (Fósforo), a antologia Meu corpo quer extensão (Companhia das Letras) e Os cadernos de Pagu (Unisanta), com manuscritos inéditos. Em 2025, no Dia da Mulher, Santos transferiu seus restos para um jazigo individual no cemitério da Filosofia.
Os dois filhos seguiram caminhos na cultura. Rudá de Andrade, o filho com Oswald, tornou-se figura central do cinema brasileiro — ajudou a organizar a Cinemateca Brasileira, criou o curso de cinema da ECA-USP e dirigiu o Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Geraldo Galvão Ferraz, o filho com Geraldo Ferraz, foi crítico literário e de cinema e jornalista; coube a ele publicar Paixão Pagu, a autobiografia precoce que a mãe escrevera na prisão.
Em apenas seis meses, de junho a dezembro de 1944, o escritor King Shelter tornou-se um fenômeno entre os fãs brasileiros de literatura policial, que compravam os exemplares da revista Detective em busca de seus contos. Da mesma maneira que surgiu - repentinamente -, Shelter desapareceu. Os nove contos escritos para Detective (revista dirigida por Nelson Rodrigues), um dos mais bem-sucedidos exemplos da literatura pulp fiction no Brasil, jamais foram reeditados. 54 anos depois King Shelter reaparece. E, como em um bom enredo policial, sua identidade é finalmente revelada: King Shelter foi o pseudônimo usado por Patrícia Galvão. No ano de 1945, publica, em parceria com Geraldo Ferraz, o romance A Famosa Revista, no qual denuncia os males de um partido (PCB) monolítico.
De 1946 a 1948, passa a escrever no suplemento literário de O Diário de São Paulo. Ao mesmo tempo em que lança o histórico manifesto Verdade e Liberdade, concorre a uma cadeira à Assembleia Legislativa de São Paulo, pelo Partido Socialista Brasileiro, em 1950. Ela ainda faz uma última tentativa de resgatar sua militância política. Concorreu à Assembleia Legislativa, mas seu discurso acabou não agradando. Nele ela revelava as condições degradantes a que foi submetida, que seus nervos e inquietações acabaram transformando-a “numa rocha vincada de golpes e amarguras, mas irredutível”. Não consegue se eleger.
Pagu virou capa e tema de livros: edição dedicada à sua obra e à sua memória.
A poeta Pagu
NOTHING Nada mais do que nada Porque vocês querem que exista apenas o nada Pois existe o só nada Um para-brisa partido uma perna quebrada O nada Fisionomias massacradas Tipoias em meus amigos Portas arrombadas Abertas para o nada Um choro de criança Uma lágrima de mulher à-toa Que quer dizer nada Um quarto meio escuro Com um abajur quebrado Meninas que dançavam Que conversavam Nada Um copo de conhaque Um teatro Um precipício Talvez o precipício queira dizer nada Uma carteirinha de travel's check Uma partida for two nada Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava Um cão rosnava na minha estrada Um papagaio falava coisas tão engraçadas Pastorinhas entraram em meu caminho Num samba morenamente cadenciado Abri o meu abraço aos amigos de sempre Poetas compareceram Alguns escritores Gente de teatro Birutas no aeroporto E nada.
Publicado n'A Tribuna, Santos/SP, em 23/09/1962
UM PEIXE Um pedaço de trapo que fosse Atirado numa estrada Em que todos pisam Um pouco de brisa Uma gota de chuva Uma lágrima Um pedaço de livro Uma letra ou um número Um nada, pelo menos Desesperadamente nada.
Do livro “Pagu — Patrícia Galvão — Vida-Obra” (Brasiliense, 1982).
CANAL Nada mais sou que um canal Seria verde se fosse o caso Mas estão mortas todas as esperanças Sou um canal Sabem vocês o que é ser um canal? Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras As suas nebulosidades As suas algas Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas Mas por favor Não pensem que estou pretendendo falar Em bandeiras Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento Bandeiras de navio As ruas são as mesmas. O asfalto com os mesmos buracos, Os inferninhos acesos, O que está acontecendo? É verdade que está ventando noroeste, Há garotos nos bares Há, não sei mais o que há. Digamos que seja a lua nova Que seja esta plantinha voejando na minha frente. Lembranças dos meus amigos que morreram Lembranças de todas as coisas ocorridas Há coisas no ar... Digamos que seja a lua nova Iluminando o canal Seria verde se fosse o caso Mas estão mortas todas as esperanças Sou um canal.
Publicado n'A Tribuna, Santos, 27 de novembro de 1960.
Fósforos de segurança Indústrias tais Fatais. Isso veio hoje numa pequena caixa Que achei demasiado cretina Porque além de toda essa história De São Paulo - Brasil Dava indicações do nome da fábrica. Que eu não vou dizer Porque afinal o meu mister não é dizer Nome de indústria Que não gosto nem um pouquinho De publicidade A não ser que Isso tudo venha com um nome de família Instituição abalizada Que atrapalha a vida de quem nada quer saber Com ela. Ela, ela, ela.
Do livro “Pagu — Patrícia Galvão — Vida-Obra” (Brasiliense, 1982).
A famosa Pagu
Do relato do Sr. Luis de Freitas, sanjoanense que carregou Patrícia no colo quando ela era menina (1980): "A história que passo a narrar não tem nada de extraordinário e nem tampouco tem a ver com a vida de sofrimentos de Patrícia Rehder Galvão, a famosa Pagu. São fatos acontecidos no nosso tempo de criança. São fatos que acontecem na vida. Quando poderia imaginar que uma criatura que carreguei nos braços, com apenas três anos, se tornaria uma famosa jornalista e escritora do Brasil?
Dr. Thiers era freguês de meu pai nas compras de cereais, e a entrega das mercadorias era feita por meu intermédio. Essa era razão do meu convívio com a família Galvão de França e os três filhos. Além Dr. Thiers Galvão, atendia outros fregueses, todos residentes no centro da cidade, entre eles Antônio Balestrin, José de Rosa, Paschoal Fiore, Braz Filizola, João Montanini, irmãos Chico e Pepino Filardi, Bortolo Sinegali e Jeronymo Sottano.
Na ocasião de entrega de mercadorias a família do Dr. Thiers, na porta era atendido pela Adélia ou pela cozinheira Camila. Dona Adélia, embora muito enérgica, era uma senhora de grandes virtudes, muito simpática. No momento em que abria a porta costumava convidar: “Entra, Freitinha, coloca o frango na gaiola e entrega as mercadorias para a Camila”. Camila, uma morena cor de cuia, era ótima cozinheira e muito estimada pela família Galvão de França. Camila era natural de Angola (África) e falava um ótimo português.
Tinha por hábito mascar fumo, às escondidas de Adélia. Após a entrega das mercadorias, eu permanecia na sala, arrumada com mobílias estilo austríaco, em companhia dos três filhos Conceição, Homero e Patrícia. Com permissão de Adélia, eu costumava sair com a garota Patrícia em meus braços para comprar doce na casa comercial do Sr. José Del Nero, que era anexa a residência dos Galvão de França. O doce preferido era a bolacha preta que custava um níquel de 400 réis.
Com a mudança do Dr. Thiers e da família para a capital, nunca mais vi a garota Patrícia. No entanto, por uma casualidade, acabei encontrando-a certa vez na livraria Teixeira, à rua Dom José de Barros, próxima ao Cine Ópera.
Estava nessa livraria da capital para atender a solicitação do meu freguês Dr. João Batista Boa Vista. Ele me pediu para comprar um exemplar do livro “Kama Sutra”. No momento em que aguardava para ser atendido, notei que o auxiliar da livraria estava atendendo naquele momento uma jovem e para extrair a nota fiscal pediu seu nome, “Patrícia Rehder Galvão”, respondeu ela. Quando ouvi aquele nome, confesso que levei um choque.
Emocionado perguntei: “Desculpe a curiosidade, senhorita, você é a filha do Dr. Thiers Galvão da França?”, “Sim”, respondeu ela assustada. “Por que, o senhor me conhece?”, “muito”, respondi. “somos nascidos na mesma cidade, São João da Boa Vista. Você, com a idade de 3 anos esteve muitas vezes em meus braços”. Patrícia, bastante nervosa, fazia perguntas e para satisfazê-la, comecei a contar fatos ocorridos em nosso tempo de criança.
Após uma hora de bate-papo, ela pediu licença para se retirar, mas antes me apresentou, uma professora da Escola Normal do Brás. Com o passar dos anos, Patrícia Rehder Galvão, mulher corajosa que era apesar de sofrer muito, continuava a defender o seu ideal comunista. Escritora e jornalista famosa, participou do Movimento Modernista da cidade de São Paulo. Aqui termina a história do meu convívio com a família Galvão de França e os seus três filhos Conceição, Homero e Patrícia.
Após uma vida de sofrimentos, a famosa Pagu nos deixou. Que Deus a conserve em paz!”
Cronologia
Nasce em 14 de junho na cidade São João da Boa Vista (SP), Patrícia Rehder Galvão
Participa das reuniões em casa de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Primeira colaboração na Revista Antropofágica.
Casamento arranjado com Waldemar Belisário, em setembro, anulado em fevereiro de 1930.
Casa-se com Oswald de Andrade. Nascimento de Rudá de Andrade, seu filho com Oswald. Participa em manifestação popular para derrubar uma cadeia em São Paulo, cujas condições de funcionamento eram desumanas. Viagem para Buenos Aires para conhecer Luís Carlos Prestes — o encontro só aconteceria na segunda ida a Buenos Aires, em 1931. Em Buenos Aires, estabelece contato com intelectuais e membros do Partido Comunista da Argentina.
Filiação no Partido Comunista. Publicação de oito números junto com Oswald de Andrade de O Homem do Povo. O jornal foi proibido sob a alegação de perturbar a ordem pública depois da invasão do escritório por estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo que se sentiram agredidos pelas críticas publicadas contra a instituição. Em Santos, inicia sua atuação organizada no Partido, afastando-se de seu filho, Rudá, e de Oswald. Participa de um comício da greve dos estivadores quando a polícia getulista surge atirando nos manifestantes. Um estivador foi morto e Pagu, presa na cadeia da Praça dos Andradas, local onde existe um centro cultural que leva seu nome. Seu nome passa a circular e a ser associado à sua atuação no comício. Isso incomoda o Partido Comunista que faz com que assine um documento em que Pagu assume a responsabilidade pelo ocorrido, apresentando-se como agitadora individual e inexperiente.
Seguindo orientações do Partido, muda-se para o Rio de Janeiro e mora num cortiço no subúrbio. Atendendo à exigência partidária de se proletarizar, com dificuldade, encontra um trabalho como lanterninha de cinema. Após tentativa de organização dos trabalhadores dos teatros, cinemas e casa de diversão em um sindicato, é demitida. Consegue trabalho como operária em uma fábrica. Sai do cortiço e vive em uma república com outros jovens militantes na Lapa. Posteriormente, mora num quarto alugado a uma pedinte. Acidenta-se no trabalho e adoece. Em situação precária, vê-se obrigada a pedir ajuda a Oswald de Andrade.
Publicação de Parque industrial, que havia projetado como um romance revolucionário. Viagem internacional como correspondente dos jornais Correio da Manhã (do Rio de Janeiro), Diário da Noite (de São Paulo) e dos Diários Associados.
Uma vez na França, passa a militar no Partido Comunista francês com o pseudônimo de Léonie. Em manifestação em Paris, é ferida e presa. Após três prisões, quase é deportada para a Alemanha nazista. Por intervenção do embaixador brasileiro Souza Dantas, Pagu consegue retornar ao Brasil, repatriada em 1935. Separa-se de Oswald de Andrade.
É presa no Brasil em decorrência da fracassada tentativa de revolução comunista liderada por Luís Carlos Prestes. Sofre condenação, aos 25 anos, a dois anos e meio de prisão no Rio de Janeiro, onde havia tortura.
Adoece na prisão e é enviada para o hospital de onde foge com a ajuda de Geraldo Ferraz que se tornaria seu marido em ocasião posterior. É apresentada nos jornais como perigosa e inimiga pública do governo de Getúlio Vargas.
É presa de novo e condenada pelo governo getulista a mais dois anos de prisão em São Paulo, onde compartilhou a cela com presas comuns.
Sai da prisão e casa com Geraldo Ferraz.
Nascimento de Geraldo Galvão Ferraz. Nos anos que se seguem trabalha como colaboradora de vários jornais.
Escreve contos policiais que saem publicados em revista.
Publicação do romance A famosa revista, escrito junto com Geraldo Ferraz. Participa da redação do jornal A Vanguarda Socialista, fundado por Mário Pedrosa.
Primeira tentativa de suicídio.
Sai candidata a Deputada estadual em São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro. Publicação do panfleto Verdade e Liberdade.
Passa a frequentar a Escola de Arte Dramática e envolve-se nos anos subsequentes de forma importante com o teatro, sendo responsável inclusive pela tradução de "A cantora careca", de Ionesco. Passa a morar em Santos.
Doente com câncer de pulmão viaja à França para realizar uma cirurgia que não é bem-sucedida. Segunda tentativa de suicídio. Retorna a Santos onde morre em 12 de dezembro. Foi enterrada no cemitério do Saboó. (por Claudete Daflon )
Patrícia Galvão é a autora homenageada da Flip — Festa Literária Internacional de Paraty —, sinal da sua reentrada no centro da literatura brasileira.
Obras e vestígios
A produção de Pagu atravessa romance, jornalismo, desenho, panfleto político, crítica cultural, tradução e teatro. A lista abaixo organiza alguns títulos decisivos.
Parque IndustrialRomance publicado em 1933, sob o pseudônimo de Mara Lobo. Situa operárias, fábrica e conflito social no centro da narrativa.
A Famosa RevistaRomance escrito com Geraldo Ferraz e publicado em 1945, ligando história amorosa, crítica política e desencanto partidário.
Verdade e LiberdadePanfleto político de 1950 que mistura programa público, memória pessoal e ruptura com o autoritarismo comunista.
Álbum de PaguCaderno de 1929, publicado postumamente, em que desenho, poema e autorretrato modernista se cruzam.
Safra MacabraReedição dos contos policiais atribuídos a King Shelter, pseudônimo de Patrícia Galvão na imprensa popular.
Fontes e pesquisa
A página parte da memória sanjoanense e se apoia em cronologia, obras publicadas, material de Santos e bibliografia pública sobre Patrícia Galvão.
Obra Parque Industrial (romance proletário, sob o pseudônimo de Mara Lobo). São Paulo: Edição da autora, 1933. A Famosa Revista (romance). Rio de Janeiro: Americ-Edit., 1945. (Escrito em parceria com Geraldo Ferraz). Verdade e Liberdade (panfleto político). Edição do Comitê Pró-Candidatura Patrícia Galvão. São Paulo, 1950. A Famosa Revista.
2ª ed., São Paulo: Livraria José Olympio Editora, 1959. (Publicado em conjunto com Doramundo, de Geraldo Ferraz, sob o título geral de Dois romances.) O "Álbum de Pagu" OU Pagu - NASCIMENTO, VIDA, Paixão e Morte (1929). Publicado nas revistas Código nº 2, Salvador, 1975 e Através nº 2, Duas Cidades; São Paulo, 1978. Parque Industrial. Reeditado em fac-símile, salvo a capa, com apresentação de Geraldo Galvão Ferraz. Editora Alternativa: São Paulo, 1981. Parque Industrial.
3ª ed., Porto Alegre: Mercado Aberto; São Paulo: EDUFSCar, 1994. (Novelas Exemplares). Safra Macabra. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. Bibliografia sobre a Autora Adonias Filho. Modernos Ficcionistas Brasileiros. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1958, pp. 92-96. AMARAL, Aracy A. TARSILA, Sua Obra e Seu Tempo. Vol. 1, São Paulo: Perspectiva, 1975, pp. 70, 73, 284, 291, 295, 343. BOPP, Raul. Bopp Passado a Limpo por Ele Mesmo. Rio de Janeiro: Edição do autor, 1972, pp. 74-5. CAMPOS, Augusto de. Pagu, A Musa Antropófaga.
In: Leia Livros. São Paulo: Ed. Leia Livros, ano IV, nº 41, 14 de novembro a 14 de dezembro de 1981. _____. Pagu: VIDA-OBRA. São Paulo: Brasiliense, 1982. CHAVES, Flávio Loureiro. Pagu E A Experiência da Linguagem In: GALVÃO, Patrícia. Parque Industrial. 3ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto; São Paulo: EDUFSCar, 1994, pp. 7-11. (Novelas Exemplares) FERRAZ, Geraldo Galvão. PREFÁCIO. In: GALVÃO, Patrícia. Parque industrial. 3ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto; São Paulo: EDUFSCar, 1994 (Novelas Exemplares), pp.12-16.
FURLANI, Maria Lúcia Teixeira. Pagu—Patricia Galvão. Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo. 5ª ed., UNISANTA, Santos,1999. GUEDES. Thelma. Pagu Literatura e Revolução. Ateliê—Nankin Editorial, São Paulo, 2003. FURLANI, Maria Lúcia Teixeira. Croquis de Pagu. UNISANTA; São Paulo: Cortez, 2004 SILVEIRA, Maria José. A JOVEM Pagu. Nova Alexandria, São Paulo, 2007. NEVES, Juliana. Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão. Annablume, 2005, 214 págs. TAVARES, Rodrigo Rodrigues.
A “MOSCOUZINHA” brasileira: cenários e personagens do cotidiano operário de Santos. São Paulo: Humanitas/FAPESP, 2007 ZATZ, Lia. Pagu - A Luta de Cada Um. Callis, 2005.
Galeria
Rio, 1929: Pagu entre Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Elsie Houston, Benjamin Péret e Eugênia Álvaro Moreyra, na exposição de Tarsila. Domínio público / Wikimedia CommonsRetrato de Patrícia Galvão, a Pagu, ainda na década de 1920. Domínio público / Wikimedia CommonsCapa do Álbum de Pagu (1929–30): o livro autobiográfico que ela escreveu e ilustrou à mão.Uma página do álbum, no traço e na letra da própria Pagu.Pagu ainda jovem, antes da estreia no modernismo.Pagu em retrato de estúdio, imagem que a fixou como musa do modernismo.Pagu em retrato de época, colorizado.Pagu, musa do modernismo.Pagu fantasiada.Pagu na redação do jornal A Tribuna, em Santos.Pagu repórter — o jornalismo foi seu ofício por toda a vida adulta.Pagu em comício: oradora aguerrida, foi a primeira mulher presa por motivo político no Brasil.Pagu discursando, na militância contra a ditadura de Vargas.Pagu entre livros — escritora, tradutora e jornalista.Pagu em entrevista.Pagu e Oswald de Andrade, com quem se casou em 1930.Pagu e Geraldo Ferraz, seu companheiro.Pagu com Geraldo Ferraz e o filho.Pagu e a irmã Sidéria.Capa de Parque Industrial (1933), romance que Pagu assinou como Mara Lobo.O Homem do Povo, jornal que Pagu editou com Oswald de Andrade, em 1931.