Modernismo

Pagu

Nascimento em São João, modernismo, imprensa, militância, prisões, obra publicada e lembranças locais de Patrícia Rehder Galvão.

Pagu

Introdução

Pagu, nome público de Patrícia Rehder Galvão, atravessou modernismo, imprensa, literatura, militância política, prisões e teatro. Sua vida pública não cabe em uma única legenda: foi escritora, jornalista, artista gráfica, militante e agitadora cultural.

Sua história combina invenção estética, enfrentamento político e independência intelectual. O vínculo com São João da Boa Vista aparece como ponto de origem de uma trajetória que se expandiu para os debates mais intensos do século XX brasileiro.

Nascimento em São João

Patrícia Rehder Galvão, conhecida como Pagu, nasceu em São João da Boa Vista em 14 de junho de 1910, às 2 horas da tarde, na casa nº 21 da antiga Rua São João, atual Rua Getúlio Vargas. A casa, construída de taipa e barro sovado, era sólida e de boa aparência. Patrícia era filha de Thiers Galvão de França, advogado e jornalista, e de Adélia Rehder Galvão, da tradicional família Rehder. Foram seus avós paternos Joaquim Galvão Freire de França e Guilhermina Galvão e avós maternos Germano Rehder Sobrinho e Ordália Aguiar Rehder.

Thiers e Adélia casaram-se em 1902, ele com 28 e ela com 18 anos. Dessa união nasceram quatro filhos: Conceição, Homero, Patrícia e Sidéria. A última nasceu quando a família já morava em São Paulo. A casa onde Pagu morou, foi reconstruída pelo Sr. Antônio Balestrin, que passou a residir ali com a família, instalando nela, sua fábrica de móveis. Em 1914, a família mudou-se para São Paulo. Pagu e irmãos em São João da Boa Vista. “Dona Adélia, embora muito enérgica, era uma senhora de grandes virtudes, muito simpática.

No momento em que abria a porta costumava convidar: “Entra, Freitinha, coloca o frango na gaiola e entrega as mercadorias para a Camila”. Camila, uma morena cor de cuia, era ótima cozinheira e muito estimada pela família Galvão de França. Camila era natural de Angola (África) e falava um ótimo português. Tinha por hábito mascar fumo, às escondidas de Adélia. Após a entrega das mercadorias, eu permanecia na sala, arrumada com mobílias estilo austríaco, em companhia dos três filhos Conceição, Homero e Patrícia.

Com permissão de Adélia, eu costumava sair com a garota Patrícia em meus braços para comprar doce na casa comercial do Sr. José Del Nero, que era anexa a residência dos Galvão de França. O doce preferido era a bolacha preta que custava 400 réis."”(Luiz de Freitas) Com a irmã Sidéria (Sid) na praia em Santos. Uma das paixões de vida de Patrícia Galvão foi o mar.

Tema recorrente em suas poesias, crônicas, prosas, até na sua conversa, o mar para ela era basicamente o mar santista, resumo dos mares – bem mais que sete – que ela percorreu em seus 52 anos de vida. 1929. Participa da segunda fase do Movimento Antropofágico. Contrariando o mito, Pagu não participou da Semana de Arte Moderna de 1922. Tinha apenas 12 anos nessa ocasião.

O nome de Pagu é ouvido pela primeira vez em 1929, quando, adolescente de 18 anos de idade, ela frequentava o ambiente contestatório do movimento de antropofagia, comandado pela desinibição estética e cultural de Oswald de Andrade. O movimento antropofágico, lançado em 1928 com o "Manifesto Antropófago" escrito por Oswald, era uma radicalização do modernismo de 1922. Esse texto foi publicado no primeiro número da Revista de Antropofagia, criada para difundir o movimento.

Depois de dez números, a revista passa por uma reformulação e inicia sua segunda fase, ainda mais radical que a primeira. É nessa "segunda dentição" – como os autores se referem à nova fase – iniciada em 1929, que Pagu inicia sua colaboração, basicamente com desenhos.

Em junho desse mesmo ano, ela se apresenta numa festa beneficente no Teatro Municipal em que, vestida por Tarsila, declama poemas modernistas, incluindo "Coco" de Raul Bopp e um poema de sua autoria, presente no "Álbum de Pagu", de 1929, livro não publicado que ela ilustrou com desenhos. Esse livro "Álbum de Pagu" ou - Pagu " Nascimento, Vida, Paixão e Morte", teve apenas publicação póstuma nas revistas “Código”, de Salvador, em 1975 e "Através", de São Paulo, em 1978.

Houve a Didi Caillet, em 1929, e a Patrícia se apresentou recitando alguns poemas. Aliás foi muito engraçado esse dia. Nós fomos a esta festa no Teatro Municipal, eu, mamãe e papai, mas a Pat não estava com a gente, que ela tinha ido na casa de Oswald com Tarsila. E, de repente, a gente viu numa frisa – a gente estava na plateia – a Pat com Tarsila e tudo, completamente irreconhecível.

A gente dizia e a Pat, não é a Pat (a gente não a chamava de Pat, mas de Zazá, que ela odiava), mas a gente não entendia porque ela estava completamente maquiada, de um jeito diferente. Pra dizer a verdade eu não gostei, achei até mais feia do que ela era realmente, estava muito sofisticada pelo meu gosto, eu era menina naquele tempo, não gostei mesmo. Daí ela declamou essas coisas, porque ela tinha conhecido Didi Caillet na casa de Tarsila, depois tinha aquele lero-lero de Didi Caillet ser intelectual.(Sideria Galvão) 1929.

Pagu casa com Waldemar Belisário. O romance com Oswald navegava por águas turbulentas, que acabaram por levá-la a casar-se com o pintor Waldemar Belizário, em setembro de 1929, e anular o casamento, em fevereiro de 1930. Toda a farsa fora montada por Oswald com a conveniência de Belizário, que lhe devia favores, para salvar as aparências, pois Pagu estaria grávida. O casamento de Patrícia com Waldemar Belizário em 1929 foi anulado. Foi tudo uma farsa. Tinha sido combinado.

Ela se casou, todo mundo feliz, o Oswald e a Tarsila foram padrinhos, e a Tarsila deu de presente um quadro dela, que por incrível que pareça era um touro, com chifres na cabeça. Waldemar e a Patrícia, após o casamento foram pra Santos, pois tinham dito que iam embarcar em lua de mel. No meio da estrada estava Oswald e ali acabou o casamento. A família tinha ido para Itanhaém, pois era tempo de férias e foi seu pai quem contou a todos o acontecido: - A Pat fugiu com Oswald de Andrade disse”.

Sua irmã Sidéria conta “Meu grito foi “Mentira, não acredito”, e a Pat me contava muita coisa, quase tudo, mas essa ela não me contou, essa foi segredo mesmo. Daí foi aquela desgraceira desgraçada, não é, a gente teve que sair de Itanhaém imediatamente, mamãe recusou ver qualquer pessoa mais das relações, porque aquilo envergonhava a família, eu voltei infeliz de Itanhaém, ficamos em São Paulo, e eu estava absolutamente proibida de ver a Pat. Então, nós ficamos em São Paulo uns tempos.

Para nós seus familiares, foi muito triste tudo aquilo”. 1930. Casa com Oswald. Nasce Rudá de Andrade. Pagu Patrícia Rehder Galvão Um anjo inquietante, desceu à Terra. além. muito além do Martinelli. qual estrela cadente, feito gente, mas não como tantos. Um anjo inconformista, inconformado com as mazelas dos homens. Um anjo rebelde, revolucionário e visionário, a ponto de enxergar com rara clareza, no auge da escuridão, a luminosidade da esperança.

Um anjo sonhador, que nos faz sonhar com um utópico mundo sem fronteiras, sem preconceitos, sem injustiças. Assim. Aconteceu em 1910. Ainda era criança, quando viu surgir diante de seus olhos a cidade grande, São Paulo, e a rua da Liberdade, novo endereço da família, onde nasceu Sidéria (Sid) - a amiga íntima.

Além da Escola Normal no Colégio Caetano de Campos, teve aulas no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, com Fernando Mendes de Almeida e Mário de Andrade “Mário de Andrade tinha um riso largo de criança, na minha infância, eu roubando frutas no tabuleiro da casa que tinha perto do conservatório, na avenida São João, e nós meninas sem saber que aquele professor comprido e feio era um poeta”, comentaria num artigo em 1947, no Diário de São Paulo. Pagu e Oswald se casaram em janeiro de 1930.

Rudá nasceu em 25 de setembro de 1930. A Pagu já tinha então algumas experiências de comunismo e quem cuidou do bebê foi uma enfermeira do Hospital chamada Lúcia, que foi levada pra casa dela e virou comunista também e mais tarde ficou presa com ela. Em março de 1931 fundam o jornal tabloide "O Homem do Povo".

O jornal, no qual Pagu escrevia artigos, fazia desenhos, charges e vinhetas, além de assinar a seção "A Mulher do Povo" em que criticava as feministas da elite e as classes dominantes, durou apenas oito números, tendo sua circulação sendo impedida pela polícia. A experiência no jornal O Homem do Povo rendera a Pagu a condenação de dois anos de prisão, evitados com uma fuga para a Argentina. Pagu encontrou-se com Luis Carlos Prestes, também refugiado em Buenos Aires, em 1930.

“Um aspecto curioso é que nos encontramos num bar e, sem sair da mesa, conversamos durante 48 horas”, exagera Pagu. Para ela essa conversa foi decisiva. Pagu já é militante. Na volta ao Brasil, em dezembro em 1930, filia-se ao Partido Comunista.

Modernismo

1931. Pagu e Oswald editam o Jornal Homem do Povo. Oswald e Pagu passaram a editar o jornal O Homem do Povo, a tribuna para os seus disparos irreverentes. Imprensa nanica que utilizava-se de uma linguagem ferina e bem humorada, tratando com humor e sem piedade, temas e pessoas evidentes no cenário político, religioso e social. Este pasquim teve uma vida curta, de apenas oito edições.

Pagu colaborava com cartoons, tiras de humor, opinava nas revoluções gráficas e assinava a coluna A Mulher do Povo, onde exercitava a polêmica, utilizando como pano de fundo pensamento marxista, como na 1ª edição de 17 de março de 1931, quando escreveu o artigo Maltus Além, trocadilho com Matusalém, o ancião da Bíblia e as pregações celibatárias do pastor Maltus.

Pagu criticava, no artigo, o feminismo em nome do materialismo histórico e defendia a vinculação das reivindicações feministas a uma transformação global das relações sociais, já que eram as condições mentais e materiais da sociedade que vinculavam a figura da mulher a uma suposta inferioridade. A irreverência de O Homem do Povo foi a responsável pelo seu próprio, fim. Oswald, ex-aluno da Escola de Direito do Largo de São Francisco, em artigo, denominou esta tradicional instituição de ensino como um “cancro que mina o nosso estado”.

Após esta declaração, os estudantes empastelaram o jornal. Em Santos, Pagu é presa pela primeira vez 1933. Lançamento do livro Parque Industrial Em janeiro de 1933, Pagu lança seu primeiro romance: "Parque Industrial, com pseudônimo de Mara Lobo por exigência do Partido e financiado por Oswald. Seu livro é reconhecido pela crítica como o primeiro romance proletário do Brasil. O cenário: os bairros do Brás e Belém na década de 30. O romance de Mara Lobo é um panfleto admirável de observações e de probabilidades.

O seguinte período define o espírito do livro: “Pelas cem ruas do Brás a longa fila matinal dos filhos naturais da sociedade. Filhos naturais porque se distinguem dos outros que tem tido heranças fartas e comodidade de tudo na vida. A burguesia tem sempre filhos legítimos. Mesmo que as esposas virtuosas sejam adulteras.”. Há nessas linhas algumas pitadas de verdade. E por isso, sem ser integralmente verdadeiro, o romance de Pagu é uma mentira entre as da convenção social.

A jornalista Sementes de soja Conta Raul Bopp: “Pagu, numa viagem ao Oriente, fez relações de amizade com Mme. Takahashi, de nacionalidade francesa, casada com o Diretor da South Manchurian Railway (verdadeira potência dentro do novo Império manchu, criado sob a égide do Japão). Com a influência de sua amiga, Pagu tinha fácil acesso ao Palácio de Hsingking. Conversava informalmente com o jovem imperador Puhy.

Ambos pedalavam as bicicletas, dentro do parque amuralhado da residência Imperial.quando, numa das suas viagens a Cobe, Pagu me narrou o ambiente de familiaridade que existia em Hsingking, pedi que ela procurasse arranjar com puhy algumas sementes selecionadas de feijão-soja.

Depois de algumas semanas, foram entregues no Consulado, precedentes da Manchúria, 19 saquinhos de sementes dessa leguminosa, que foram enviadas ao Embaixador Alencastro Guimarães, oficial do gabinete do Ministro das Relações Exteriores, Dr. Afrânio de Mello Franco.

Esse diplomata, sem perda de tempo, enviou-as ao Ministro da Agricultura de aclimatação, em São Paulo.” Poema para Pagu O apelido Pagu foi dado por Raul Bopp, teria mostrado a Raul alguns poemas e, na mesma ocasião, o poeta sugeriu que ela adotasse um “nome de guerra” literário. Sugeriu Pagu, brincando com as sílabas do nome da escritora, que Bopp equivocadamente acreditava se chamar Patrícia Goulart. Coco de Pagu (Raul Bopp) Pagu tem os olhos moles uns olhos de fazer doer. Bate-coco quando passa. Coração pega a bater. Eh Pagu eh!

Dói porque é bom de fazer doer. Passa e me puxa com os olhos provocantemente. Mexe-mexe bamboleia pra mexer com toda gente. Eh Pagu eh! Dói porque é bom de fazer doer. Toda a gente fica olhando o seu corpinho de vai-e-vem umbilical e molengo de não-sei-o-que-é-que-tem. Eh Pagu eh! Dói porque é bom de fazer doer. Quero porque te quero. Nas formas do bem-querer. Querzinho de ficar junto que é bom de fazer doer. Eh Pagu eh! Dói porque é bom de fazer doer.

Em agosto de 1931, como militante comunista, Pagu participa do comício do Partido e dos estivadores em Santos, na Praça da República. Escolhida como principal oradora, ela é agarrada por policiais, que tentam amordaçá-la. O estivador negro Herculano de Souza vai em sua defesa, é baleado e ela levanta do chão sua cabeça ensangüentada. Ele morre em seu colo. Pagu é presa e levada ao cárcere 3, na Praça dos Andradas, considerada a “pior cadeia do continente”, onde permanece duas semanas.

Transforma-se assim na primeira mulher presa no Brasil por militância política. Pagu, sentia-se pelas transformações mundiais. E é como repórter itinerante, credenciadas pelos jornais: Correio da Manhã, Diário da Noite e Diários Associados que parte para a Ásia e Europa. “Seu projeto era atravessar a China e chegar à fronteira da Sibéria”, escreve Geraldo Ferraz. Em 1933 quando passa pela União Soviética, se desencanta com a Revolução Russa.

Ela conta sua decepção com o Partido Comunista: “O ideal ruiu, na Rússia, diante da infância miserável das sarjetas. Em Moscou, hotéis de luxo para os altos burocratas. Na rua, as crianças mortas de fome: era o regime comunista”. De Moscou vai a Paris, em 1934. Torna-se amiga dos surrealistas Breton, Grevel, Peret.

Discute os conceitos de arte revolucionária e o papel do intelectual, às vésperas do Congresso de Escritores de 35, que determinaria a adesão de muitos ao realismo socialista e o rompimento dos surrealistas com o PC soviético. Presa várias vezes em manifestações de rua, é repatriada em 1935.

Prisões

1936. Pagu é presa novamente. Sua irmã Sidéria conta: “.

Como eu disse, depois que entregamos o Rudá para o Oswald, continuamos, eu e a Pat, morando na Rua dos Andradas, ela trabalhando na “Plateia”, eu, na escola, até o dia 27 de novembro, que foi o dia do golpe, não é, e eu sabia que ia haver alguma coisa e fiquei esperando a Pat feito uma doida, fui na “Plateia”, procurei por todo o canto e não encontrava mesmo; daí eu resolvi pra casa e quando foi mais ou menos 11 da noite, ela chegou e disse: bom, a gente tem que sair porque está determinado que a gente tem que estar na rua, nós estamos escaladas pra ficar em tal lugar, parece que era a Av.

São João. Então nós saímos, vestidas, preparadas pra guerrilha – ai, que ridículo! – fazer a revolução com estilingue. E veio um camburão da polícia acompanhando a gente. Então entramos no Bar Natal, na Av. São João, ela estava cheíssimo e nos sentamos numa mesa e os tiras entraram também, então diversas pessoas avisaram, jogando bolinha de papel escrita em cima da mesa e tudo, mas o bar foi esvaziando.

E daí a gente não tinha outro jeito, não podia ficar lá, não, porque ia ser fogo, não é, então a gente saiu, subiu a ladeira São João, acompanhada, e naquele tempo tinha ali, do lado do Martinelli, um ponto de táxi, a gente passou e falou pro motorista “bota o carro em movimento”, e os tiras passaram, a gente voltou, tomou o táxi e saiu, se mandou, daí foi uma perseguição cinematográfica, engraçada pra burro, saiu um carro, outro carro, bom, e a gente despistou os caras e nós apelamos pro papai, e ele levou a gente pra casa de um primo onde passamos a noite.

Depois disso nós fomos pra casa de um motorista da Light, português, que era na rua Ibituruna, no Jabaquara – esse motorneiro depois foi preso, foi expulso. E depois a gente passou a morar lá, de qualquer jeito, em qualquer lugar, onde dava jeito, e estava tudo errado, e daí eu arranjei um quarto no Largo Colombo e perdi um pouco de vista a Pat. E um dia eu sai para ter um contato qualquer e fui presa. E a Pat continuou solta.

Eu fui pro Presídio Paraíso, e fiquei lá, torcendo pra Pat não ser presa, mas não demorou muito, ela foi presa também. Daí, foram anos de Presídio Paraíso, Maria Zélia.” 1940. King Shelter - mais um pseudônimo usado por Pagu com Geraldo Ferraz, seu marido e seu segundo filho Kiko Passada a fase panfletária e de militância política, a história de Patrícia Rehder Galvão, ficou marcada pelo processo de profissionalização no jornalismo.

Em 1942, casada com Geraldo Ferraz, foi redatora de A Manhã e de O Jornal, no Rio, e de A Noite, em São Paulo. Sempre acumulando mais que um emprego, em 45 a jornalista trabalhou na agência de notícias France Presse, editou com a colaboração de Geraldo Ferraz a Famosa Revista e integrou a redação do Vanguarda Socialista. No Vanguarda publicou apenas um artigo político e muitas crônicas literárias. "Naquela época, jornalista já não podia ter um emprego só". conta Geraldo Galvão.

Ainda nesse período de 45 a 50, marcado por intensa atividade jornalística, Patrícia passou pelos jornais: o italiano Fanfulla, O Tempo, Jornal de São Paulo e Diário de São Paulo. O jornal Diário de São Paulo viveu uma fase de pauta de alto nível, com a colaboração de Patrícia e Geraldo Ferraz. O Suplemento Literário que editavam levava semanalmente até seus leitores autores inéditos, nada menos que James Joyce, Mallarmé, Kafka, entre outros. "Patrícia escrevia uma biografia crítica e publicava trechos de cada autor.

É a primeira vez que sai um texto de Ulisses no Brasil", conta ele. 1945. É candidata a deputada estadual. Não é eleita Trecho da carta para Geraldo Ferraz, escrita quando esteve presa na Casa de Detenção de São Paulo. Por seu ideal político, foi presa mais de 20 vezes! Com grupo teatral na intensa vida cultural de Santos-SP a importância de Pagu na vida cultural da cidade de Santos-SP foi tão grande que foi fundadora da Associação dos Jornalistas Profissionais e a primeira presidente da União de Teatro Amador da cidade.

Ela levou para Santos mais de 1200 participantes para o 2º Festival de Teatro Amador e traduziu para o teatro a peça de Ionesco, "A cantora careca". Dirigiu e também traduziu a peça de Arrabal "Fango e Lis" (59) com um grupo amador (essa peça teve estreia mundial em Santos, sendo vista até em Paris), ficando mais de dez anos em cartaz. 12 de dezembro de 1962. Morre Patrícia Rehder Galvão - a Pagu “Deu-se esta semana uma baixa nas fileiras de um agrupamento de raros combatentes.

Ausência desde 12 de dezembro de 1962, que pede seu registro do companheiro humilde, que assina estas linhas. Patrícia Galvão morreu neste dia de primavera, nessa quarta-feira, às 16 horas Morreu aqui em Santos, a cidade que mais amava, na casa dos seus, entre a Irmã e a Mãe que a acompanhavam, naquele momento e, felizmente, em poucos minutos, apenas sufocada pelo colapso que a impedia de respirar, pela última palavra que pedia ainda liberdade, ‘desabotoa-me esta gola’”. (Geraldo Ferraz, A Tribuna, 16/12/1962)

"Sairás pelo meu braço grávida, de bonde/Teremos seis filhos/E três filhas/E nosso bonde social/Terá a compensação dos cinemas/E dos aniversários dos bebês/Seremos felizes como os tico-ticos/E os motorneiros/E teremos o cinismo/De ser boçais/Como os demais/Mortais/Locais" Oswald de Andrade " Dentro desta mulher, longe de condicionamentos e repressões estéticas, literárias, sexuais, sociais e culturais, topamos com a leveza dos traços, quase infantis, característicos de uma Arte Moderna, que retratam a sensibilidade de sua alma".

Maria Lúcia Teixeira Furlani. Pagu foi pioneira nas ideias e na ação, transcendeu seu tempo, por ousar sofreu, sentiu ostracismo, foi perseguida, presa, torturada, não se vergou, não se entregou. Somente a doença venceu-a. A vida do espírito, porém, desconhece a morte. Fez história. É sanjoanense.” Maria Célia de Campos Marcondes. Pagu é patronesse da Cadeira nº 36, da Academia de Letras de São João da Boa Vista, cuja titular é Maria Inês Araújo Prado.

NOTHING Nada mais do que nada Nada mais do que nadaPorque vocês querem Porque vocês querem que exista apenas o nadaPois existe Pois existe o só nadaUm para-brisa Um para-brisa partido uma perna quebradaO nada O nadaFisionomias Fisionomias massacradasTipoias Tipoias em meus amigosPortas Portas arrombadas Abertas para o nadaUm choro Um choro de criançaUma lágrima Uma lágrima de mulher à-toa Que quer dizer nadaUm quarto Um quarto meio escuro Com um abajur quebradoMeninas Meninas que dançavam Que conversavam NadaUm copo Um copo de conhaqueUm teatro Um teatroUm precipício Um precipícioTalvez Talvez o precipício queira dizer nadaUma carteirinha Uma carteirinha de travel's checkUma partida Uma partida for two nadaTrouxeram-me Trouxeram-me camélias brancas e vermelhasUma linda criança Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçavaUm cão Um cão rosnava na minha estradaUm papagaio Um papagaio falava coisas tão engraçadasPastorinhas Pastorinhas entraram em meu caminho Num samba morenamente cadenciadoAbri Abri o meu abraço aos amigos de semprePoetas Poetas compareceramAlguns escritores Alguns escritoresGente de teatro Gente de teatroBirutas Birutas no aeroportoE nada E nada.

Publicado n'A Tribuna, Santos/SP, em 23/09/1962

Em apenas seis meses, de junho a dezembro de 1944, o escritor King Shelter tornou-se um fenômeno entre os fãs brasileiros de literatura policial, que compravam os exemplares da revista Detective em busca de seus contos. Da mesma maneira que surgiu - repentinamente -, Shelter desapareceu. Os nove contos escritos para Detective (revista dirigida por Nelson Rodrigues), um dos mais bem-sucedidos exemplos da literatura pulp fiction no Brasil, jamais foram reeditados. 54 anos depois King Shelter reaparece.

E, como em um bom enredo policial, sua identidade é finalmente revelada: King Shelter foi o pseudônimo usado por Patrícia Galvão. No ano de 1945, publica seu segundo romance, A Famosa Revista, no qual denuncia os males de um partido (PCB) monolítico.

De 1946 a 1948, passa a escrever no suplemento literário de O Diário de São Paulo. Ao mesmo tempo em que lança o histórico manifesto Verdade e Liberdade, concorre a uma cadeira à Assembleia Legislativa de São Paulo, pelo Partido Socialista Brasileiro, em 1950. Ela ainda faz uma última tentativa de resgatar sua militância política. Concorreu à Assembleia Legislativa, mas seu discurso acabou não agradando. Nele ela revelava as condições degradantes a que foi submetida, que seus nervos e inquietações acabaram transformando-a "numa rocha vincada de golpes e amarguras, mas irredutível". Não consegue se eleger.

Cronologia

  1. Nasce Patrícia Rehder Galvão, em 14 de junho, em São João da Boa Vista.

  2. Aproxima-se do grupo modernista e começa a colaborar com a Revista de Antropofagia.

  3. Participa da segunda fase da Antropofagia, apresenta-se no Teatro Municipal, produz o Álbum de Pagu e vive o casamento arranjado com Waldemar Belisário, depois anulado.

  4. Casa-se com Oswald de Andrade, nasce Rudá de Andrade e Pagu participa de uma manifestação popular em São Paulo.

  5. Filia-se ao Partido Comunista, publica O Homem do Povo com Oswald e é presa em Santos depois de um comício de estivadores.

  6. Muda-se para o Rio de Janeiro por orientação partidária, vive em condições precárias e trabalha como lanterninha de cinema e operária.

  7. Publica Parque Industrial, projetado como romance revolucionário, e viaja como correspondente internacional.

  8. Na França, milita no Partido Comunista francês como Léonie, é ferida, presa e retorna ao Brasil por intervenção diplomática.

  9. É presa no Brasil depois da tentativa de revolução comunista liderada por Luís Carlos Prestes.

  10. Adoece na prisão, é enviada ao hospital e foge com a ajuda de Geraldo Ferraz.

  11. É presa novamente e condenada pelo governo getulista a mais dois anos de prisão em São Paulo.

  12. Sai da prisão e casa-se com Geraldo Ferraz.

  13. Nasce Geraldo Galvão Ferraz; nos anos seguintes, Pagu colabora com vários jornais.

  14. Escreve contos policiais publicados em revista.

  15. Publica A famosa revista, romance escrito com Geraldo Ferraz, e participa de A Vanguarda Socialista.

  16. Faz a primeira tentativa de suicídio.

  17. Candidata-se a deputada estadual em São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro e publica Verdade e Liberdade.

  18. Passa a frequentar a Escola de Arte Dramática, envolve-se intensamente com o teatro e muda-se para Santos.

  19. Com câncer de pulmão, viaja à França para cirurgia, retorna a Santos e morre em 12 de dezembro.

Texto original completo

Nasce em 14 de junho na cidade São João da Boa Vista (SP), Patrícia Rehder Galvão 1928 Participa das reuniões em casa de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Primeira colaboração na Revista Antropofágica. Casamento arranjado com Waldemar Belisário que, posteriormente, seria anulado. 1930 Casa-se com Oswald de Andrade. Nascimento de Rudá de Andrade, seu filho com Oswald. Participa em manifestação popular para derrubar uma cadeia em São Paulo, cujas condições de funcionamento eram desumanas.

Viagem para Buenos Aires para conhecer Luís Carlos Prestes, o que, na verdade, só acontece posteriormente. Em Buenos Aires, estabelece contato com intelectuais e membros do Partido Comunista da Argentina. 1931 Filiação no Partido Comunista. Publicação de oito números junto com Oswald de Andrade de O Homem do Povo. O jornal foi proibido sob a alegação de perturbar a ordem pública depois da invasão do escritório por estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo que se sentiram agredidos pelas críticas publicadas contra a instituição.

Em Santos, inicia sua atuação organizada no Partido, afastando-se de seu filho, Rudá, e de Oswald. Participa de um comício da greve dos estivadores quando a polícia getulista surge atirando nos manifestantes. Um estivador foi morto e Pagu, presa na cadeia da Praça dos Andradas, local onde existe um centro cultural que leva seu nome. Seu nome passa a circular e a ser associado à sua atuação no comício.

Isso incomoda o Partido Comunista que faz com que assine um documento em que Pagu assume a responsabilidade pelo ocorrido, apresentando-se como agitadora individual e inexperiente. 1932 Seguindo orientações do Partido, muda-se para o Rio de Janeiro e mora num cortiço no subúrbio. Atendendo à exigência partidária de se proletarizar, com dificuldade, encontra um trabalho como lanterninha de cinema. Após tentativa de organização dos trabalhadores dos teatros, cinemas e casa de diversão em um sindicato, é demitida.

Consegue trabalho como operária em uma fábrica. Sai do cortiço e vive em uma república com outros jovens militantes na Lapa. Posteriormente, mora num quarto alugado a uma pedinte. Acidenta-se no trabalho e adoece. Em situação precária, vê-se obrigada a pedir ajuda a Oswald de Andrade. 1933 Publicação de Parque industrial, que havia projetado como um romance revolucionário. Viagem internacional como correspondente dos jornais Diário de Notícias e Correio da Manhã (do Rio de Janeiro) e Diário da Noite (de São Paulo).

1934 Uma vez na França, passa a militar no Partido Comunista francês com o pseudônimo de Léonie. Em manifestação em Paris, é ferida e presa. Após três prisões, quase é deportada para a Alemanha nazista. Por intervenção do embaixador brasileiro Souza Dantas, Pagu consegue retornar ao Brasil. Separa-se de Oswald de Andrade. 1935 É presa no Brasil em decorrência da fracassada tentativa de revolução comunista liderada por Luís Carlos Prestes. Sofre condenação, aos 25 anos, a 2 anos de prisão no Rio de Janeiro, onde havia tortura.

1937 Adoece na prisão e é enviada para o hospital de onde foge com a ajuda de Geraldo Ferraz que se tornaria seu marido em ocasião posterior. É apresentada nos jornais como perigosa e inimiga pública do governo de Getúlio Vargas. 1938 É presa de novo e condenada pelo governo getulista a mais dois anos de prisão em São Paulo, onde compartilhou a cela com presas comuns. 1940 Sai da prisão e casa com Geraldo Ferraz. 1941 Nascimento de Geraldo Galvão Ferraz. Nos anos que se seguem trabalha como colaboradora de vários jornais.

1944 Escreve contos policiais que saem publicados em revista. 1945 Publicação do romance A famosa revista, escrito junto com Geraldo Ferraz. Participa da redação do jornal A Vanguarda Socialista, fundado por Mário Pedrosa. 1949 Primeira tentativa de suicídio. 1950 Sai candidata a Deputada estadual em São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro. Publicação do panfleto Verdade e Liberdade.

1952 Passa a frequentar a Escola de Arte Dramática e envolve-se nos anos subsequentes de forma importante com o teatro, sendo responsável inclusive pela tradução de "A cantora careca", de Ionesco. Passa a morar em Santos. 1962 Doente com câncer de pulmão viaja à França para realizar uma cirurgia que não é bem-sucedida. Segunda tentativa de suicídio. Retorna a Santos onde morre em 12 de dezembro. Está enterrada no cemitério do Saboó. (por Claudete Daflon )

Obras

A produção de Pagu atravessa romance, jornalismo, panfleto político, desenho, teatro e narrativa policial. A lista organiza os títulos centrais e mantém, abaixo, as referências do acervo original.

  • Parque Industrial romance publicado em 1933, sob o pseudônimo de Mara Lobo.
  • A Famosa Revista romance escrito com Geraldo Ferraz, publicado em 1945.
  • Verdade e Liberdade panfleto político publicado em 1950.
  • Álbum de Pagu caderno de 1929 publicado postumamente em revistas literárias.
  • Safra Macabra contos policiais publicados sob o pseudônimo King Shelter e reunidos em livro em 1998.
Bibliografia complementar
  • Augusto de Campos, Pagu: vida-obra. São Paulo: Brasiliense, 1982.
  • Thelma Guedes, Pagu: literatura e revolução. São Paulo: Ateliê/Nankin, 2003.
  • Maria Lúcia Teixeira Furlani, Pagu: Patrícia Galvão, livre na imaginação, no espaço e no tempo. Santos: Unisanta, 1999.
  • Maria José Silveira, A jovem Pagu. São Paulo: Nova Alexandria, 2007.
  • Juliana Neves, Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão. São Paulo: Annablume, 2005.
  • Rodrigo Rodrigues Tavares, A “Moscouzinha” brasileira: cenários e personagens do cotidiano operário de Santos. São Paulo: Humanitas/FAPESP, 2007.
  • Lia Zatz, Pagu: a luta de cada um. São Paulo: Callis, 2005.
Bibliografia original completa

Obra Parque Industrial (romance proletário, sob o pseudônimo de Mara Lobo). São Paulo: Edição da autora, 1933. A Famosa Revista (romance). Rio de Janeiro: Americ-Edit., 1945. (Escrito em parceria com Geraldo Ferraz). Verdade e Liberdade (panfleto político). Edição do Comitê Pró-Candidatura Patrícia Galvão. São Paulo, 1950. A Famosa Revista.

2ª ed., São Paulo: Livraria José Olympio Editora, 1959. (Publicado em conjunto com Doramundo, de Geraldo Ferraz, sob o título geral de Dois romances.) O "Álbum de Pagu" OU Pagu - NASCIMENTO, VIDA, Paixão e Morte (1929). Publicado nas revistas Código nº 2, Salvador, 1975 e Através nº 2, Duas Cidades; São Paulo, 1978. Parque Industrial. Reeditado em fac-símile, salvo a capa, com apresentação de Geraldo Galvão Ferraz. Editora Alternativa: São Paulo, 1981. Parque Industrial.

3ª ed., Porto Alegre: Mercado Aberto; São Paulo: EDUFSCar, 1994. (Novelas Exemplares). Safra Macabra. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. Bibliografia sobre a Autora Adonias Filho. Modernos Ficcionistas Brasileiros. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1958, pp. 92-96. AMARAL, Aracy A. TARSILA, Sua Obra e Seu Tempo. Vol. 1, São Paulo: Perspectiva, 1975, pp. 70, 73, 284, 291, 295, 343. BOPP, Raul. Bopp Passado a Limpo por Ele Mesmo. Rio de Janeiro: Edição do autor, 1972, pp. 74-5. CAMPOS, Augusto de. Pagu, A Musa Antropófaga.

In: Leia Livros. São Paulo: Ed. Leia Livros, ano IV, nº 41, 14 de novembro a 14 de dezembro de 1981. _____. Pagu: VIDA-OBRA. São Paulo: Brasiliense, 1982. CHAVES, Flávio Loureiro. Pagu E A Experiência da Linguagem In: GALVÃO, Patrícia. Parque Industrial. 3ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto; São Paulo: EDUFSCar, 1994, pp. 7-11. (Novelas Exemplares) FERRAZ, Geraldo Galvão. PREFÁCIO. In: GALVÃO, Patrícia. Parque industrial. 3ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto; São Paulo: EDUFSCar, 1994 (Novelas Exemplares), pp.12-16.

FURLANI, Maria Lúcia Teixeira. Pagu—Patricia Galvão. Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo. 5ª ed., UNISANTA, Santos,1999. GUEDES. Thelma. Pagu Literatura e Revolução. Ateliê—Nankin Editorial, São Paulo, 2003. FURLANI, Maria Lúcia Teixeira. Croquis de Pagu. UNISANTA; São Paulo: Cortez, 2004 SILVEIRA, Maria José. A JOVEM Pagu. Nova Alexandria, São Paulo, 2007. NEVES, Juliana. Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão. Annablume, 2005, 214 págs. TAVARES, Rodrigo Rodrigues.

A “MOSCOUZINHA” brasileira: cenários e personagens do cotidiano operário de Santos. São Paulo: Humanitas/FAPESP, 2007 ZATZ, Lia. Pagu - A Luta de Cada Um. Callis, 2005.

Memória local

O vínculo de Pagu com São João da Boa Vista aparece sobretudo como memória local: a casa onde nasceu, a família Galvão de França, as lembranças de infância e o olhar de moradores que acompanharam sua história à distância.

O depoimento de Luiz de Freitas, preservado no acervo, não tenta explicar a escritora inteira. Ele registra outra coisa: a lembrança de uma criança carregada no colo, antes da fama, da política e da dureza pública de sua vida.

Memória oral de Luiz de Freitas

A história que passo a narrar não tem nada de extraordinário. São fatos acontecidos no nosso tempo de criança.

Quando poderia imaginar que uma criatura que carreguei nos braços, com apenas três anos, se tornaria uma famosa jornalista e escritora do Brasil?

Patrícia Rehder Galvão nasceu em São João da Boa Vista em 14 de junho de 1910, às 2 horas da tarde, na casa nº 21 da antiga Rua São João, atual Rua Getúlio Vargas.

Com a mudança do Dr. Thiers e família para a capital do estado, nunca mais vi a garota Patrícia. No entanto, por uma casualidade, acabei encontrando-a certa vez na Livraria Teixeira, em São Paulo.

Quando ouvi aquele nome, confesso que levei um choque. Emocionado perguntei se ela era filha do Dr. Thiers Galvão de França.

Aqui termina a história do meu convívio com a família Galvão de França e os seus três filhos Conceição, Homero e Patrícia.

Depoimento original completo

A famosa Pagu "A história que passo a narrar não tem nada de extraordinário e nem tampouco tem a ver com a vida de sofrimentos de Patrícia Rehder Galvão, a famosa Pagu. São fatos acontecidos no nosso tempo de criança. São fatos que acontecem na vida. Quando poderia imaginar que uma criatura que carreguei nos braços, com apenas três anos, se tornaria uma famosa jornalista e escritora do Brasil?

Patrícia casou-se aos 19 anos de idade com Waldemar Belizário, no cartório de Vila Mariana (São Paulo), dia 29 de setembro de 1929, livro de casamento nº 20 fls. 119/120 vs. Patrícia sofreu muito. Acompanhei pelos jornais e rádio com bastante tristeza, sua vida de sofrimentos. Ela faleceu na cidade de Santos em dezembro de 1962, com 52 anos de idade. Patrícia Rehder Galvão nasceu em São João da Boa Vista em 14 de junho de 1910, às 2 horas da tarde, na casa nº 21 da antiga Rua São João, atual Rua Getúlio Vargas.

A casa onde nasceu Patrícia embora construída de taipa e barro sovado, era sólida e de boa aparência. Depois de reconstruída, o Sr. Antônio Balestrin passou a residir ali com a família, instalando nela inclusive, sua fábrica de móveis. Atualmente, reside nesta casa o Sr. Antônio Balestrin Neto, o popular Tonhão –2010 - no local funciona um estacionamento). Patrícia era filha do Dr. Thiers Galvão de França, advogado e jornalista e de Adélia Rehder Galvão, filha da tradicional família Rehder de nossa cidade.

Eram seus avós paternos Joaquim Galvão Freire de França e Guilhermina Galvão e avós maternos Germano Rehder Sobrinho e Ordália Aguiar Rehder. Thiers e Adélia casaram-se em 1902, ele com 28 e ela com 18 anos. Dessa união nasceram quatro filhos: Conceição, Homero, Patrícia e Sidéria. A última nasceu em São Paulo e não cheguei a conhecê-la. O avô paterno, Sr. Joaquim Galvão, casou-se em segundas núpcias com Maria Antônia Amaral, irmã do Capitão Procópio do Amaral Pinto.

Dr. Thiers era freguês de meu pai nas compras de cereais, e a entrega das mercadorias era feita por meu intermédio. Essa era razão do meu convívio com a família Galvão de França e os três filhos. Além Dr. Thiers Galvão, atendia outros franceses, todos residentes no centro da cidade, entre eles Antônio Balestrin, José de Rosa, Paschoal Fiore, Braz Filizola, João Montanini, irmãos Chico e Pepino Filardi, Bortolo Sinegali e Jeronymo Sottano.

Na ocasião de entrega de mercadorias a família do Dr. Thiers, na porta era atendido pela Adélia ou pela cozinheira Camila. Dona Adélia, embora muito enérgica, era uma senhora de grandes virtudes, muito simpática. No momento em que abria a porta costumava convidar: “Entra, Freitinha, coloca o frango na gaiola e entrega as mercadorias para a Camila”. Camila, uma morena cor de cuia, era ótima cozinheira e muito estimada pela família Galvão de França. Camila era natural de Angola (África) e falava um ótimo português.

Tinha por hábito mascar fumo, às escondidas de Adélia. Após a entrega das mercadorias, eu permanecia na sala, arrumada com mobílias estilo austríaco, em companhia dos três filhos Conceição, Homero e Patrícia. Com permissão de Adélia, eu costumava sair com a garota Patrícia em meus braços para comprar doce na casa comercial do Sr. José Del Nero, que era anexa a residência dos Galvão de França. O doce preferido era a bolacha preta que custava um nível de 400 réis.

O Sr. Del Nero era casado com Lelica, filha de D. Maria Antônia do Amaral, pertencia à tradicional família Del Nero, de empresários e industriais da cidade de Pirassununga. O Dr. Thiers e a família mudaram-se para a capital do estado em 1913 ou 1914. Seus pais permaneceram em São João. Em 1916, o Sr. Joaquim Galvão de França vendeu ao Sr. Antônio Balestrin a sua propriedade pelo preço de 8.000$000 (oito contos de réis), escritura lavrada no Cartório do 1º Ofício, Tabelião Pedro de Oliveira Westin, livro nº 77, fls.52 e 53 vs.

Após a venda de sua propriedade, o Sr. Joaquim Galvão e sua esposa passaram a residir à rua Benjamim Constant, defronte a atual Igreja Presbiteriana, onde o filho, Dr. Thiers, instalou em 1906 seu escritório de advocacia. Esta casa pertence “atualmente” aos filhos do Dr. Geraldo Pradella. Com a mudança do Dr. Thiers e família para a capital do estado, nunca mais vi a garota Patrícia. No entanto, por uma casualidade, acabei encontrando-a certa vez na livraria Teixeira à rua Dom José de Barros, próxima ao Cine Ópera.

Estava nessa livraria da capital para atender a solicitação do meu freguês Dr. João Batista Boa Vista. Ele me pediu para comprar um exemplar do livro “Kama Sutra”. No momento em que aguardava para ser atendido, notei que o auxiliar da livraria estava atendendo naquele momento uma jovem e para extrair a nota fiscal pediu seu nome, “Patrícia Rehder Galvão”, respondeu ela. Quando ouvi aquele nome, confesso que levei um choque.

Emocionado perguntei: “Desculpe a curiosidade, senhorita, você é a filha do Dr. Thiers Galvão da França?”, “Sim”, respondeu ela assustada. “Por que, o senhor me conhece?”, “muito”, respondi. “somos nascidos na mesma cidade, São João da Boa Vista. Você, com a idade de 3 anos esteve muitas vezes em meus braços”. Patrícia, bastante nervosa, fazia perguntas e para satisfazê-la, comecei a contar fatos ocorridos em nosso tempo de criança.

Após uma hora de bate-papo, ela pediu licença para se retirar, mas antes me apresentou, uma professora da Escola Normal do Brás. Com o passar dos anos, Patrícia Rehder Galvão, mulher corajosa que era apesar de sofrer muito, continuava a defender o seu ideal comunista. Escritora e jornalista famosa, participou do Movimento Modernista da cidade de São Paulo. Aqui termina a história do meu convívio com a família Galvão de França e os seus três filhos Conceição, Homero e Patrícia.

Após uma vida de sofrimentos, Patrícia, a famosa Pagu, falece na cidade de Santos, em dezembro de 1962, aos 52 anos de idade. Que Deus a conserve em paz!" Texto extraído do documento feito pelo Sr. Luis de Freitas ANO – 1980 - São João da Boa Vista